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Saiba o que levou candidato democrata ao Senado dos EUA a deixar campanha

Por CNN Brasil Fonte: Luciana Caczan 09/07/2026 às 19:32
Saiba o que levou candidato democrata ao Senado dos EUA a deixar campanha

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Pouco depois de vir à tona, na segunda-feira (6), a notícia de que uma mulher que havia se relacionado anteriormente com o candidato democrata ao Senado pelo estado do Maine, Graham Platner, o acusou de estupro — acusação que ele nega —, a campanha do candidato entrou em contato com a ex-senadora Barbara Boxer.

A democrata da Califórnia, hoje aposentada da política, havia escrito um artigo de opinião em apoio a Platner e criticando o histórico de sua ex-colega republicana no Senado, a senadora Susan Collins, do Maine. Mas, à medida que diversos aliados começaram a retirar seus apoios e a pedir que Platner desistisse da candidatura na segunda-feira, a equipe da campanha quis saber se o texto ainda deveria ser publicado, contou Boxer.

Ela respondeu que não.

“Ainda penso o mesmo sobre Susan Collins, mas não posso apoiar Graham Platner diante do que veio à tona”, disse Boxer à CNN na quarta-feira (8). “Passei a vida inteira lutando para proteger as mulheres e não posso fazer isso.”

Até esta semana, Platner havia conseguido resistir a uma série de controvérsias envolvendo antigas publicações nas redes sociais, uma tatuagem que lembra um símbolo nazista, casos de infidelidade e acusações de comportamento considerado perturbador por ex-parceiras românticas.

Sua ascensão política surpreendente, afirmavam seus apoiadores, demonstrava que as pessoas podem mudar e que seu movimento era mais forte do que as forças do establishment, que o viam como um candidato fraco para a eleição geral.

Mas, para muitos dos apoiadores que ainda permaneciam ao seu lado, uma acusação de agressão sexual foi um limite que não estavam dispostos a ultrapassar.

Platner finalmente aceitou a realidade política na noite de quarta-feira e anunciou que suspenderia sua campanha, após uma crise que se arrastou por mais de dois dias.

Ainda assim, ele praticamente não assumiu qualquer responsabilidade em um vídeo de 11 minutos em tom desafiador, nem pelas acusações, que insiste serem falsas, nem pela situação em que colocou os democratas do Maine.

Agora, o partido tem menos de três semanas para se unir em torno de um novo candidato em uma das disputas mais importantes na corrida pelo controle do Senado dos Estados Unidos.

Alguns assessores haviam aconselhado Platner a adotar um tom mais conciliador com seus apoiadores no vídeo, mesmo enquanto negava as acusações, mas ele ignorou a orientação.

Segundo uma pessoa próxima à campanha ouvida pela CNN, divergências sobre a linguagem da mensagem, somadas à sua relutância em aceitar o fim de sua candidatura, contribuíram para a demora em deixar a disputa.

“As pessoas que estão no poder, que têm capacidade para isso”, afirmou Platner na gravação, “estão usando essas acusações como desculpa para tirar de nós tudo o que precisamos para conduzir uma campanha.”

A divulgação do vídeo foi programada para coincidir com uma videoconferência realizada na noite de quarta-feira com toda a equipe da campanha. Segundo um dos participantes, nesse encontro Platner adotou um tom muito mais conciliador e agradeceu aos jovens integrantes da equipe pela dedicação ao seu movimento.

Ainda assim, tanto na videoconferência quanto no vídeo divulgado ao público, Platner não chegou a pedir desculpas.

Para a maior parte dos integrantes da equipe, o primeiro contato com o vídeo ocorreu apenas depois da reunião com o candidato. O tom adotado por ele foi amplamente criticado por democratas, que temiam que a mensagem aprofundasse as divisões no partido, em vez de contribuir para superá-las.

“Foi tudo sobre ele e seu ego”, disse à CNN um integrante democrata da campanha, decepcionado. “Não houve um pingo de humildade.”

Genevieve McDonald, ex-diretora política de Platner, que deixou a campanha em outubro do ano passado e desde então se tornou uma crítica ferrenha do candidato, classificou o vídeo como “infantil e conspiratório”.

“A realidade é muito menos dramática: uma campanha construída por consultores que achavam que eram criadores de reis foi derrubada por um punhado de mulheres com iPhones e a verdade”, afirmou McDonald em declaração à CNN.

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Agora, os democratas enfrentam um caminho incerto no único estado vencido por Kamala Harris na eleição presidencial de 2024 em que o partido ainda vê chances de derrotar um senador republicano.

Assim que Platner formalizar sua desistência — ele disse à equipe da campanha que pretende protocolar a documentação na segunda-feira (13), o Partido Democrata do Maine terá até 27 de julho para apresentar um novo candidato à secretaria de Estado.

Integrantes da legenda aprovaram, na quarta-feira, a realização de uma convenção para definir o nome substituto, mas a data e o formato do processo ainda estão sendo definidos.

As dúvidas sobre o processo refletem uma preocupação mais ampla entre aqueles que apoiam as ideias políticas de Platner, mesmo sem apoiá-lo mais: seu substituto também será alguém de fora da política tradicional?

Novos candidatos começaram a entrar na disputa antes mesmo de Platner anunciar que deixaria a corrida.

Parte da ala progressista do Partido Democrata já passou a apoiar o ex-senador estadual Troy Jackson, que terminou em terceiro lugar nas prévias para o governo do Maine neste ano. Durante a campanha, Jackson dividiu o palco com Platner e com o senador Bernie Sanders, de Vermont.

Jackson, que protocolou documentos junto à Comissão Eleitoral Federal dos Estados Unidos na terça-feira, já tentou se distanciar de Platner e afirmou que não buscaria o apoio dele.

“É lamentável, mas eu simplesmente não quero isso”, disse Jackson na quarta-feira ao programa “Meet the Press Now”, da NBC.

Uma campanha assombrada por controvérsias

Platner lançou sua improvável candidatura à indicação democrata para o Senado em agosto passado com um vídeo de campanha de estreia de tom rústico, no qual aparecia cultivando ostras, cortando madeira e fazendo críticas duras aos bilionários, aos políticos que ele classificava como corruptos e ao que chamou de uma oligarquia que estaria sufocando a classe trabalhadora no Maine e em todo o país.

A proposta de sua campanha era que sua trajetória, como criador de ostras e veterano da Marinha, o ajudaria a conquistar um eleitorado mais amplo do que outros candidatos.

Uma onda de reportagens questionou se ele seria capaz de derrotar a estrutura tradicional do partido, que havia declarado apoio à governadora Janet Mills, e ajudar a reformular um partido que enfrentava dificuldades para se conectar com eleitores brancos da classe trabalhadora.

Alguns chegaram a dizer que ele representava o futuro do partido. Mas, em poucas semanas, seu passado começou a voltar contra ele.

Veículos de imprensa encontraram antigas publicações de Platner no Reddit, posteriormente apagadas.

Segundo a equipe KFile, da CNN, ele já havia se chamado de “comunista”, criticado americanos brancos de áreas rurais, acusando-os de racismo, e chamado “todos” os policiais de “bastardos”.

Em algumas das publicações mais criticadas, Platner minimizava casos de agressão sexual. Ele havia escrito que mulheres preocupadas com estupro não deveriam “ficar completamente bêbadas e transar de forma descontrolada com pessoas com quem não se sentem confortáveis” e deveriam “simplesmente assumir alguma responsabilidade por si mesmas”.

Platner repudiou as antigas publicações e disse que não queria ser julgado pelas piores coisas que havia dito na internet há mais de uma década.

Semanas depois, veio à tona que Platner tinha uma tatuagem de caveira e ossos cruzados que se assemelhava bastante a um símbolo nazista. Ele pediu desculpas e anunciou que havia coberto a tatuagem.

Em meio a essa primeira onda de controvérsias, o fundador da Maine Beer Company, Dan Kleban, e o ex-assessor parlamentar Jordan Wood desistiram de suas próprias candidaturas para apoiar Mills, que havia entrado na disputa após semanas de especulações. (Ambos, desde então, voltaram a entrar na corrida.)

Mas, apesar de seu longo histórico de serviço público e de seu amplo reconhecimento de nome, Mills teve dificuldades para ganhar força na disputa contra Platner.

“Mills mal fez campanha, e ela deveria ter dito não”, afirmou um estrategista democrata que trabalha em campanhas para o Senado e pediu anonimato para falar com franqueza. “Havia outros candidatos que poderiam ter feito uma ótima campanha e teriam entrado na disputa caso ela não quisesse fazer a campanha agressiva que era necessária.”

Em março, a campanha de Mills adotou uma postura mais negativa e começou a veicular um anúncio de ataque contra Platner, destacando suas antigas publicações no Reddit em que ele minimizava casos de agressão sexual. “Graham Platner: quanto mais você olha, pior fica”, diz o narrador do anúncio.

Foi pouco, tarde demais. A governadora suspendeu sua campanha no fim de abril, abrindo caminho para Platner.

Comportamento perturbador com mulheres

À medida que mais detalhes sobre o comportamento passado de Platner vieram à tona, ele e seus aliados tentaram apresentar sua campanha como uma história de redenção, responsabilização e segundas chances.

Segundo ele, seus erros do passado foram influenciados pelo transtorno de TEPT (estresse pós-traumático) decorrente de suas missões no Iraque e no Afeganistão, sobre o qual ele já falou publicamente.

“Platner disse que não se orgulha de quem era no passado e que assumiu a responsabilidade por seus atos”, afirmou a senadora Elizabeth Warren, apoiadora de Platner que pediu que ele desistisse da disputa nesta semana, em entrevista à WCVB no fim do mês passado. “Ele pediu ao povo do Maine que o julgasse não pelas piores coisas que fez no período mais sombrio de sua vida, mas pelo trabalho que realizou desde então e por seu compromisso de estar na linha de frente lutando pelas famílias trabalhadoras todos os dias.”

Warren e outros apoiadores continuaram ao lado de Platner depois que o The Wall Street Journal e o The New York Times noticiaram, em 30 de maio, que sua esposa, Amy Gertner, havia alertado a campanha durante o processo de avaliação de antecedentes no ano passado de que ele tinha enviado mensagens de teor sexual explícito para outras mulheres no início do casamento. (Gertner disse que acreditava estar desabafando com uma assessora de confiança, McDonald, e afirmou que o casal havia feito o “trabalho difícil” para superar a infidelidade.)

Dias depois, durante uma reunião com senadores democratas na sede do comitê do partido no Senado, em Washington, Platner respondeu a preocupações de seus possíveis futuros colegas.

Em determinado momento, a senadora Tina Smith, de Minnesota, perguntou diretamente a Platner se havia outras acusações sobre seu comportamento com mulheres que ainda poderiam vir à tona. Ele respondeu: “Não.”

A coalizão de apoio a Platner também permaneceu ao seu lado quando, dias antes das primárias de 9 de junho, o The New York Times publicou que algumas mulheres com quem ele havia se relacionado anteriormente o acusaram de apresentar um comportamento perturbador e, em um caso, fisicamente ameaçador em relação a elas.

Platner afirmou, em um comunicado, que havia sido “aberto sobre o que foi um período muito sombrio da minha vida, no qual enfrentei um TEPT não diagnosticado, muitas vezes tentei lidar com isso usando álcool e fui um namorado longe de ser perfeito”. Ele disse que assumia a responsabilidade por isso, mas negou ter tido comportamento fisicamente ameaçador.

Enquanto alguns democratas hesitavam, Mills, que já havia desistido da disputa, lembrou aos eleitores que ainda estava na cédula. Platner acabou vencendo com ampla vantagem, conquistando 72% dos votos nas primárias.

“Se você acredita, como eu acredito, que podemos mudar nossa política e mudar nosso país, então também precisa acreditar que as pessoas podem mudar”, disse Platner durante seu discurso na noite da eleição. “E a razão pela qual acredito nisso é porque eu vivi essa mudança.”

Platner havia feito algo que parecia impossível quase 11 meses antes. Ele derrotou uma governadora de dois mandatos que havia sido recrutada para entrar na disputa pelo braço de campanha dos democratas no Senado. Ele manteve sua coalizão unida mesmo enquanto os eleitores passavam a conhecer melhor seu passado.

Mas alguns democratas temiam que ainda pudessem surgir novas revelações sobre seu comportamento com mulheres, o que poderia prejudicar sua disputa contra Collins, uma senadora de cinco mandatos que já venceu eleições difíceis anteriormente.

Nos últimos dias, cresceram os rumores de que uma acusação mais grave estava prestes a vir a público, e Platner cancelou eventos de campanha.

“Temos ouvido rumores sobre isso desde o outono passado”, disse o estrategista democrata que trabalha em campanhas para o Senado. “Não especificamente sobre estupro, mas sobre a possibilidade de existirem interações problemáticas com mulheres.”

Na segunda-feira, Jenny Racicot disse ao Politico e à CNN que Platner entrou em sua casa sem permissão e a estuprou enquanto estava fortemente alcoolizado, há quase cinco anos, quando os dois mantinham um relacionamento casual. Platner nega a acusação.

Mas ele logo começou a perder apoio, inclusive de seus apoiadores mais fiéis.

“Conversei com Graham Platner sobre o melhor caminho a seguir para o Maine”, escreveu Sanders no X na tarde de terça-feira. “Diante dessas acusações muito sérias, recomendei que ele se afastasse.”

Os últimos dias da campanha foram dedicados a lidar com uma estratégia de saída e a enfrentar conflitos com democratas estaduais e nacionais.

Platner e sua equipe exigiam que seus apoiadores tivessem voz no processo de escolha de seu substituto, enquanto líderes do partido rejeitavam sua tentativa de influenciar o que aconteceria a seguir.

O coordenador de campanha de Platner, Ben Chin, enviou na quarta-feira uma mensagem em massa aos apoiadores acusando o partido estadual de permitir que o Comitê de Campanha Senatorial Democrata (DSCC, na sigla em inglês) “enviasse funcionários para planejar um possível processo de indicação a portas fechadas”. O DSCC negou a acusação em um comunicado.

Um revés para o movimento

As consequências da ascensão e queda de Platner deixaram os democratas se perguntando por que não deram ouvidos aos sinais de alerta que alguns integrantes do partido haviam identificado meses antes.

Platner perdeu alguns apoiadores ao longo do caminho, enquanto uma equipe central de estrategistas de fora do estado conduzia sua campanha.

McDonald disse ter sido uma das “primeiras vítimas de manipulação psicológica” da campanha em um artigo de opinião publicado no The Washington Post um dia antes das primárias de 9 de junho.

Ela foi criticada pela campanha por ter conversado com o The New York Times sobre sua conversa com Gertner a respeito das mensagens de teor sexual enviadas por Platner a outras mulheres e se tornou uma de suas críticas mais contundentes.

“Os democratas estão recebendo uma narrativa de que Platner é a única opção para a disputa contra a senadora republicana Susan Collins”, escreveu McDonald. “Os eleitores do Maine não precisam aceitar isso.”

E, nesta semana, alguns democratas de projeção nacional rapidamente apontaram para os “sinais de alerta” que existiam desde o início da campanha.

“Estava claro desde muito cedo que ele tinha um caráter moral questionável, que havia sinais de alerta em seu passado e que isso seria uma barreira significativa para sua capacidade de vencer uma eleição geral”, disse Jessica Mackler, presidente da EMILY’s List, organização que apoia mulheres favoráveis ao direito ao aborto e que havia apoiado Mills.

O colapso da campanha de Platner não é apenas uma decepção para os progressistas do Maine, mas também para o movimento mais amplo, afirmaram seus defensores.

Adam Green, cofundador do PCCC (Comitê de Campanha por Mudanças Progressistas), disse que o objetivo não é apenas eleger “combatentes econômicos dispostos a abalar o sistema” nas eleições de meio de mandato de 2026, mas também mostrar ao Partido Democrata que esse tipo de candidato pode vencer em estados decisivos antes das primárias presidenciais de 2028.

“Se o efeito disso for que acabemos indicando alguém que perca a eleição presidencial no próximo ciclo, porque não conseguimos provar que pessoas ousadas e inspiradoras podem vencer, isso será realmente lamentável”, disse Green. “Isso definitivamente representou um retrocesso para a causa.”

*Dana Bash contribuiu para essa reportagem

Esse conteúdo foi publicado originalmente emVer original TópicosCongresso dos EUAescandaloMainePartido Democrata


Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por Luciana Caczan

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