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No início deste mês de junho, o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) acionou pela primeira vez na história um plano emergencial – e não por falta de energia, mas por excesso. A geração solar distribuída havia crescido tanto que o sistema não conseguia absorver tudo o que estava sendo produzido. O ONS precisou então cortar 1.000 megawatts de geração entre 10h e 14h para evitar instabilidade na rede.
Inédito, o episódio ilustra com precisão o novo centro do debate no setor elétrico brasileiro. Com a expansão das fontes renováveis, em especial solar e eólica, gerar mais energia deixou de ser o principal desafio do país, e o sistema ficou mais complexo e mais sujeito a variações de oferta. Quem consome sente isso na conta e na previsibilidade.
Acompanho o setor elétrico há mais de duas décadas. Em 2001, ainda na Telefônica, fui colocado para negociar metas com distribuidoras durante o racionamento porque era o engenheiro mais próximo do assunto. Ali, percebi que energia sempre foi uma decisão de negócio. O setor é que demorou a tratar assim.
Para as empresas, esse entendimento se impõe agora como necessidade de gestão. Historicamente tratada como um custo fixo pouco gerenciável, a energia hoje exige acompanhamento mais próximo. O valor da conta, sua oscilação e o modelo de contratação, portanto, passam a integrar o núcleo das decisões de negócio.
Durante anos, esse tipo de gestão foi privilégio de grandes empresas, com estrutura para operar no mercado livre ou investir em soluções próprias. Eu vi essa janela se abrir. No início dos anos 2000, ajudei a estruturar as primeiras operações do que hoje se chama mercado livre de energia, quando o termo ainda não circulava no setor. A lógica era simples, mas radical para a época: o cliente poderia escolher de quem comprar energia.
Essa escolha, que parecia absurda para muitos naquele momento, tornou-se a base de um mercado inteiro. Hoje, o mercado livre responde por cerca de 42% de toda a energia consumida no Brasil, com mais de 83 mil consumidores – quase 19 mil deles migraram só em 2025. O que começa a se consolidar agora é um novo capítulo dessa história, com a democratização do acesso à gestão de energia. A digitalização reduz barreiras ao simplificar a operação e aproxima empresas menores de alternativas que antes estavam fora do alcance.
A Lei nº 15.269/2025 estabeleceu um cronograma concreto para isso. Consumidores comerciais e industriais de menor porte poderão migrar para o mercado livre a partir de novembro de 2027, e residenciais a partir de novembro de 2028. Essa transformação do setor passa ainda pela adoção de novas tecnologias na própria infraestrutura elétrica brasileira. Um exemplo é o BESS. O governo federal agendou para dezembro dois leilões inéditos para contratar sistemas de armazenamento de energia por baterias – uma resposta estrutural ao problema de variabilidade do sistema. São 2 gigawatts a serem contratados, com investimentos estimados em cerca de R$ 10 bilhões.
Com isso, o caminho tradicional da eficiência energética também se transforma. A redução de custos de energia se desvincula de obras e intervenções na infraestrutura. Ganham espaço modelos que conectam geração e consumo por meio de plataformas digitais, com menos complexidade operacional e menor exigência técnica para o cliente. É possível, por exemplo, converter a energia gerada nas fazendas solares em créditos digitais, o que permite levar energia de fonte renovável para empresas sem a burocracia que antes marcava esse processo.
O ambiente de preços ainda segue pressionado e sujeito a variações. Para muitas empresas, sobretudo as de pequeno e médio porte, o desafio envolve tanto o valor pago quanto a dificuldade de prever esse custo ao longo do tempo. Já existem soluções no mercado que permitem reduções relevantes na conta de energia, sem a necessidade de investimento inicial.
Esse caminho altera a forma como o custo de energia entra no planejamento financeiro. A previsibilidade se transforma num ativo. Saber quanto a energia vai representar no orçamento ganha influência direta sobre decisões operacionais e sobre a capacidade de crescimento.
Há também uma mudança na relação entre consumo e posicionamento das empresas. O acesso a fontes renováveis, antes restrito a grandes corporações, se amplia e passa a alcançar negócios de menor porte, acompanhando um consumidor mais atento ao impacto do que consome.
Ao longo de mais de duas décadas no setor – da Telefônica à GDSolar, maior empresa de geração distribuída do Brasil, até chegar à Matrix Energia –, aprendi que tecnologia só tem valor quando resolve um problema real. A pergunta que me guia desde o começo é sempre a mesma: o que estou resolvendo na vida do cliente? Quando a resposta é objetiva, a conversa sobre energia deixa de ser técnica e passa a ser estratégica.
O setor precisa caminhar para um modelo em que energia se configura como serviço, com acompanhamento contínuo, uso de dados e maior integração entre tecnologia e consumo. O Brasil parte de uma base favorável, com uma matriz majoritariamente limpa. O avanço agora depende menos de expansão e mais de organização, de como essa energia chega, de forma simples e estruturada, a quem está na ponta.
Eficiência energética deixa de ser uma agenda distante ou restrita a grandes empresas. Agora, é um instrumento de gestão, com impacto direto sobre custo, risco e competitividade.
* Por Alexandre Gomes, vice-presidente comercial da Matrix Energia
Os artigos publicados pelo CNN Infra buscam estimular o debate, a reflexão e dar luz a visões sobre os principais desafios, problemas e soluções enfrentados pelo Brasil e por outros países do mundo. Os textos publicados neste espaço não refletem, necessariamente, a opinião da CNN Brasil.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por robsonrodrigues


