08/09/2026

Violência das gangues escala e força milhares a deixarem casas no Equador

Por CNN Brasil

Compartilhar matéria

Um forte aumento nos confrontos entre facções criminosas no Equador levou milhares de famílias a fugir e abandonar suas casas para as gangues, que saqueiam os imóveis para obter dinheiro com drogas ou os usam para esconder vítimas de sequestro, segundo moradores e policiais.

Uma das áreas que registrou os confrontos mais sangrentos é o distrito de Nueva Prosperina, na cidade costeira de Guayaquil, onde uma disputa entre facções da gangue Los Tiguerones matou 22 pessoas no ano passado.

Mais de 300 mil pessoas no Equador deixaram suas casas nos últimos três anos por causa da violência, incluindo ameaças de morte, extorsão, recrutamento por grupos criminosos ou assassinato de familiares, segundo a Agência da ONU para Refugiados (Acnur) e a Defensoria Pública. Organizações de defesa dos direitos humanos, porém, afirmam que o número real pode ser maior.

O Equador, que já foi considerado uma parte relativamente segura da América Latina, agora apresenta o terceiro maior nível de deslocamento interno da região, atrás apenas do Haiti e da Colômbia, segundo o Conselho Norueguês para Refugiados. O deslocamento tem sido provocado por um aumento persistente da violência em todo o país, afirma o Comitê Permanente de Defesa dos Direitos Humanos de Guayaquil.

O presidente Daniel Noboa assumiu o cargo em 2023 prometendo combater a violência, que decorre do papel cada vez maior do Equador como rota de trânsito de drogas. Mas a estratégia de segurança de Noboa não conseguiu conter a violência e pode até ter agravado o problema, afirmou o comitê de direitos humanos de Guayaquil. Mortes e prisões de líderes criminosos fizeram com que muitos grupos se fragmentassem em facções rivais que disputam território.

O Equador registrou 9.216 mortes violentas no ano passado, uma taxa de homicídios de 51 por 100 mil habitantes — cerca de oito vezes maior que a registrada uma década atrás e bem acima das taxas de 21,4 no México e 25,8 na Colômbia, registradas no ano passado pelas autoridades desses países.

O governo de Noboa afirma que sua estratégia, ainda assim, está reduzindo sistematicamente os grupos criminosos e que o número de mortes caiu 8% entre janeiro e julho deste ano, em comparação com o mesmo período de 2025. Segundo o governo, a maioria dos mortos tem ligação com gangues.

As gangues criminosas usam a extorsão como um meio sistemático de controle em bairros de todo o país, segundo a polícia e a Defensoria Pública. Metade das famílias que vivem em Nueva Prosperina sofreu algum tipo de extorsão, de acordo com projeções da polícia local.

“Uma mensagem no WhatsApp tem quase o mesmo impacto que uma bomba”, disse Francesco Volpi, do Conselho Norueguês para Refugiados. “É uma extorsão indiscriminada.”

Um comerciante de 45 anos disse que fugiu de Nueva Prosperina depois que seus filhos receberam ameaças de morte de gangues que tentavam recrutá-los e após sofrer intimidações de pessoas que ele identificou como policiais.

O chefe da polícia de Nueva Prosperina, Gino Pillajo, disse à Reuters que muitos casos de extorsão não são denunciados por medo, o que dificulta as investigações. Segundo ele, a polícia trabalha com líderes comunitários para obter informações sobre extorsões e instala códigos QR em lojas locais para permitir que as pessoas façam denúncias anonimamente. Policiais também acompanham moradores quando eles deixam suas casas, para garantir sua segurança e permitir que a polícia mapeie os imóveis cujos proprietários estão ausentes.

A violência e o deslocamento não estão restritos a Guayaquil. Comunidades indígenas Chachi próximas à fronteira com a Colômbia abandonaram temporariamente seus territórios devido a ameaças de mineradores ilegais, segundo a Defensoria Pública. Em Babahoyo, na província de Los Ríos, estabelecimentos comerciais fecham mais cedo como medida de autoproteção. Já na província amazônica de Sucumbíos, famílias estão abandonando suas terras para impedir que grupos criminosos convençam jovens a se juntar a eles, de acordo com casos registrados pelo Conselho Norueguês para Refugiados.

Funcionários do governo ouvidos pela Reuters reconheceram o problema, mas disseram não saber qual órgão é responsável por lidar com o deslocamento forçado. O gabinete de imprensa de Noboa não respondeu ao pedido de comentário.

“Não existe reconhecimento legal do deslocamento interno forçado causado pela violência, e isso significa que o fenômeno não é discutido, nenhuma medida é tomada para proteger as vítimas e não são criados mecanismos para monitorar e prestar assistência às comunidades afetadas”, disse Billy Navarrete, presidente do comitê de direitos humanos de Guayaquil.

Isso dificulta a prestação de assistência às vítimas do deslocamento, muitas das quais acabam ficando com parentes em outros bairros ou até se mudando de cidade. Outras famílias — prejudicadas pela falta de recursos ou de redes de apoio, ou pelo medo de abandonar seus pertences — são obrigadas a viver lado a lado com as gangues.

“Temos que permanecer em silêncio. Somos cúmplices silenciosos. Não podemos dizer nada porque nossas vidas estão em risco”, disse um morador de Nueva Prosperina.


Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por jessicapetrovna1.

Conteúdo Original / Fonte: jessicapetrovna1

Bloqueador de anuncios detectado

Por favor, considere apoiar nosso trabalho desativando a extensão de AdBlock em seu navegador ao acessar nosso site. Isso nos ajuda a continuar oferecendo conteúdo de qualidade gratuitamente.