14/08/2026

Pais acorrentam filho para salvá-lo das drogas: “Facção pediu”

Sem diagnóstico e esgotados após tentar manter R. acorrentado por três dias seguidos

Por Redação ContilNetAtualizado
Em Rio Branco, pais acorrentam filho para evitar morte | Foto: Reprodução TV5

Imagine chegar ao ponto de precisar trancar o próprio filho dentro de casa para impedir que ele seja morto na rua. Essa é a realidade vivida por Zeneide Soares e Raimundo Nonato, moradores do Ramal da Garapeira, na região do Segundo Distrito em Rio Branco. Sem conseguir apoio médico definitivo, o casal recorreu a uma corrente de ferro de cinco metros, presa à parede, para segurar R. Z., de 32 anos, durante períodos de crise relacionados ao uso de drogas.

A vida da família mudou completamente há cerca de 12 anos, quando R. teve o primeiro contato com os entorpecentes. Conforme o vício em cocaína, maconha e crack avançou, o rapaz, que antes trabalhava como roçador, abandonou o emprego e passou a ter alterações graves de comportamento. Em momentos de surto e abstinência, ele quebra objetos e demonstra extrema agressividade, obrigando os pais a esconderem qualquer objeto perfurante ou cortante na residência.

A violência do mundo do crime já deu vários avisos à família. Com três passagens pela polícia e histórico de internação na ala psiquiátrica de presídio, R. carrega cicatrizes no corpo: em 2016, levou seis tiros em uma emboscada. Em julho deste ano, voltou a ser espancado na rua por conta de dívidas de drogas. O pavor de perder o filho faz com que os pais aceitem até os pedidos do próprio rapaz durante os momentos em que ele consegue raciocinar.

: família acorrenta filho de 32 anos para conter surto e vício

Família acorrenta filho de 32 anos para conter surto e vício | Foto: Reprodução TV5

“A gente faz isso porque não vê outra saída. Ele já comprou tanta droga e não paga que a facção pediu pra gente manter ele preso em casa. Digo para ele que faço isso pro bem dele”, explicou Raimundo.

Corrida contra o tempo

A rotina da família virou um ciclo sem fim de idas ao Centro de Atenção Psicossocial (Caps) e a prontos-socorros em momentos de surto. Recentemente, R. passou cinco dias internado na UPA do Segundo Distrito por conta de uma psicose induzida pelo consumo excessivo de drogas. Contudo, mesmo após vários atendimentos ao longo dos anos, os pais alegam que nunca receberam um laudo com diagnóstico psiquiátrico definitivo.

De acordo com a Secretaria de Saúde do Acre (Sesacre), o caminho correto para conseguir o laudo e a medicação adequada não é a UPA, mas sim iniciar o acompanhamento em um posto de saúde. De lá, o clínico geral deve encaminhar o paciente para a Fundação Hospitalar Governador Flaviano Melo (Fundhacre), onde um psiquiatra fará a avaliação do caso.

Esgotados após tentar manter R. acorrentado por três dias seguidos após a última alta, período em que ele ficou ainda mais revoltado, o casal decidiu soltá-lo por orientação do outro filho, entregando a situação à sorte.

“Juntando a internação e o período que o acorrentei foram oito dias, mas ele ficou transtornado, nem eu como mãe estava reconhecendo. O meu outro filho que disse para gente soltar, e assim está, seja o que Deus quiser. Ontem mesmo, ele saiu de casa e a facção bateu nele, nós somos da igreja e temos que confiar, entendi que não posso mais acorrentar pois piora”, declarou Zeneide.

Aos 56 e 48 anos, vivendo de trabalhos informais e sem forças para lidar sozinhos com as dores do vício do filho, Raimundo e Zeneide clamam por socorro das autoridades públicas para conseguir uma vaga em um centro de tratamento especializado.

“Queria que a Secretaria de Saúde, o Ministério Público e a defensoria fizessem alguma coisa por mim. Essas pessoas que usam drogas não são bem vistas pela sociedade. Só um amor de mãe é capaz de fazer o que eu estou fazendo”, desabafa a mãe.

Conteúdo Original / Fonte: G1

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