Homem assassina a ex-mulher e se mata na madrugada do ano novo

Por CORREIO BRAZILIENSE 01/01/2022 Ă s 16:42
Ualace e Lucilene, em imagem do ålbum de família, quando eram casados (foto: Reprodução Redes Sociais)
A marca de dois anos sem feminicídio nos seis municípios da Comarca de Manhuaçu, motivo de orgulho para as polícias Civil e Militar que atuam na região, foi quebrada na madrugada deste såbado (01/01), na Rua AntÎnio de Pådua, Bairro São Vicente, em Manhuaçu.

Por volta de 1h30, Ualace Moreira de AraĂșjo, 37 anos, conhecido como “Kim do Samal”, assassinou sua ex-companheira, Lucilene Fernandes Moreira, tambĂ©m de 37, com golpes de faca. Em seguida, o homem se esfaqueou.

Ferido e perdendo muito sangue, ele foi socorrido pela ambulùncia do Corpo de Bombeiros e levado para o Hospital Municipal Municipal. Ualace morreu durante o atendimento da equipe médica.
A PolĂ­cia Militar soube do crime por meio de denĂșncia feita por uma pessoa que viu Ualace agredindo Lucilene no meio da rua. O denunciante informou aos militares que Ualace estava armado com uma faca. Os policiais foram Ă  Rua AntĂŽnio de PĂĄdua e encontraram Lucilene morta, com cortes profundos no pescoço, ombro e braços.
Enquanto os bombeiros socorriam Ualace, os militares apreenderam uma faca, uma navalha e o celular de Lucilene. Separados hå cerca de dois anos, Ualace e Lucilene viviam uma relação conturbada.

Segundo a PolĂ­cia Civil, havia registros de violĂȘncia domĂ©stica contra o homem, em 2014 e 2020, com descumprimento de medida protetiva. Em junho de 2021, Luciliene desistiu de seguir processando Ualace. Segundo a PolĂ­cia Civil, essas desistĂȘncias sĂŁo sempre um risco para as mulheres vĂ­timas de violĂȘncia, e que elas nĂŁo devem desistir dos processos contra os agressores.

Marca foi reconhecida no STF

A marca de dois anos sem feminicĂ­dio, que tanto orgulhava a PolĂ­cia Civil de Minas Gerais e as policiais da Delegacia Especializada de Atendimento Ă  Mulher (Deam) de Manhuaçu, foi reconhecida nacionalmente em 7 de dezembro de 2021, durante a cerimĂŽnia do PrĂȘmio Innovare, no SalĂŁo Branco do Supremo Tribunal Federal (STF), em BrasĂ­lia.

Na cerimĂŽnia, a escrivĂŁ da PCMG Ana Rosa Campos recebeu o PrĂȘmio Innovare, na categoria Justiça e Cidadania, por ter criado o atendimento virtual por meio de um chatbot no WhatsApp, batizado por ela como “Frida”.

O nome “Frida” Ă© uma referĂȘncia Ă  pintora mexicana Magdalena Carmen Frida Kahlo y CalderĂłn, a Frida Khalo, que em 1935 pintou o quadro “Unos cuantos piquetitos”, retratando um crime de feminicĂ­dio.
Neste quadro, o corpo nu de uma mulher estĂĄ sobre a cama, ensanguentado, com vĂĄrias perfuraçÔes feitas com faca. O assassino estĂĄ de pĂ©, ao lado do corpo. Sobre a cena do crime, Frida Kahlo pintou uma faixa, carregada por dois pĂĄssaros, com a frase: “Unos cuantos piquetitos” ou “apenas alguns cortes”, que sugere um deboche do assassino Ă  sua companheira morta.
Por meio desse atendimento, o “Chame a Frida”, as mulheres vĂ­timas de violĂȘncia domĂ©stica denunciam os agressores e pedem medidas protetivas. Durante os dois anos sem o registro de feminicĂ­dio em Manhuaçu, a PolĂ­cia Civil  e a PolĂ­cia Militar, por meio da Patrulha de Prevenção Ă  ViolĂȘncia DomĂ©stica (PPVD), conseguiram conter os crimes, surpreendendo agressores que estavam prontos para os atos de violĂȘncia. PorĂ©m, no primeiro dia de 2022, nĂŁo houve como evitar o pior.

O que Ă© feminicĂ­dio?

FeminicĂ­dio Ă© o nome dado ao assassinato de mulheres por causa do gĂȘnero. Ou seja, elas sĂŁo mortas por serem do sexo feminino. O Brasil Ă© um dos paĂ­ses em que mais se matam mulheres, segundo dados do Alto Comissariado das NaçÔes Unidas para os Direitos Humanos.

A tipificação do crime de feminicídio é recente no Brasil. A Lei do Feminicídio (Lei 13.104) entrou em vigor em 9 de março de 2015.
Entretanto, o feminicĂ­dio Ă© o nĂ­vel mais alto da violĂȘncia domĂ©stica. É um crime de Ăłdio, o desfecho trĂĄgico de um relacionamento abusivo.

O que diz a Lei do FeminicĂ­dio?

Art. 121, parĂĄgrafo 2Âș, inciso VI
“Considera-se que hĂĄ razĂ”es de condição de sexo feminino quando o crime envolve:
I – violĂȘncia domĂ©stica e familiar;
II – menosprezo ou discriminação Ă  condição de mulher.”

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