Uma investigação da Polícia Federal revelou a existência de uma sofisticada e bilionária estrutura financeira montada pela facção criminosa Comando Vermelho (CV) para escoar e lavar o dinheiro proveniente do tráfico internacional de entorpecentes na região Norte do país. O esquema operava como um verdadeiro banco paralelo na Amazônia, conectando o mercado de criptoativos a transações na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru.
De acordo com o relatório técnico dos investigadores federais, o grupo movimentava os recursos ilícitos por meio de um ecossistema complexo que combinava empresas de fachada, transferências instantâneas via Pix, ativos digitais e operações de câmbio clandestino (dólar cabo).
A amplitude das transações financeiras impressionou a equipe de auditoria da PF: apenas uma única carteira digital (cripto) vinculada ao esquema movimentou o montante de US$ 72 milhões — o equivalente a aproximadamente R$ 394 milhões na cotação cambial atual.
Entre os principais alvos do inquérito policial figuram empresários do setor de turismo e um sargento da Polícia Militar do Estado do Amazonas (PMAM). Eles são apontados como peças-chave na engrenagem que ocultava a origem do patrimônio da facção.
As suspeitas recaem sobre as atividades da empresa “ARA Câmbio e Turismo”. A Polícia Federal sustenta que o estabelecimento comercial funcionava como a fachada oficial do banco paralelo do Comando Vermelho no Amazonas, fornecendo a logística necessária para internalizar o capital gerado pela venda de cocaína e maconha pura produzidas nos países vizinhos (Colômbia e Peru).
A capilaridade da rede permitia o livre fluxo de dinheiro entre as lideranças da facção baseadas em Manaus e os fornecedores estrangeiros de drogas na região de fronteira.
Os relatórios da Polícia Federal classificam a atuação da organização criminosa no Norte do país como “estável, sofisticada e altamente profissionalizada”. A divisão de tarefas assemelhava-se à estrutura de uma instituição financeira legalizada, contando com núcleos específicos para a conversão de moedas físicas em criptomoedas e para o gerenciamento de contas de laranjas.
A vinculação de servidores da segurança pública e de agentes do mercado de câmbio formal demonstra, segundo a PF, a capacidade do crime organizado de corromper estruturas do Estado e do comércio legal para blindar os lucros do narcotráfico.
O material colhido nas buscas e as quebras de sigilo bancário e telemático subsidiarão os próximos desdobramentos da operação, que corre sob sigilo na Justiça Federal com o objetivo de bloquear os ativos e as contas das empresas envolvidas.
