Uma operação conjunta entre a Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro e o Corpo de Bombeiros Militar localizou e iniciou, entre a quarta (17) e a manhã desta quinta-feira (18), a varredura em uma estrutura de concreto de 20 metros de profundidade utilizada como cemitério clandestino por organizações paramilitares. O poço está situado na localidade conhecida como Sertão, na região de Rio das Pedras, zona oeste da capital fluminense.
A ação foi coordenada por agentes da Delegacia de Descoberta de Paradeiros (DDPA), que deram início às escavações após o recebimento de denúncias anônimas sobre o sumiço sistemático de jovens na região. Até o momento, os peritos confirmaram a localização de ao menos dois corpos no fundo da cavidade. Os trabalhos de içamento começaram nas primeiras horas de hoje, com a retirada do primeiro cadáver registrada pouco antes das 12h.
Os restos mortais recuperados foram catalogados e transferidos imediatamente para a sede do Instituto Médico Legal (IML), onde serão submetidos a exames de antropologia forense e testes de DNA para identificação.

Famílias de jovens desaparecidos aguardam exames de DNA no Instituto Médico Legal/ Foto: Reprodução
A descoberta do poço de concreto mobilizou familiares que buscam respostas sobre parentes desaparecidos na zona oeste. Entre os casos investigados que motivaram a ação policial está o de Luan Victor Bento Barbosa, de 15 anos, visto pela última vez há dois meses. Ele teria sido abordado por homens armados integrantes da milícia local na rua Dama da Noite.
“A gente sabe disso por causa da localização do GPS do celular dele, marcou lá [na região]. Depois disso a gente não teve mais notícia”, relatou à reportagem um familiar do adolescente, sob a condição de anonimato por motivos de segurança. No início de junho, o núcleo familiar recebeu relatos de que o corpo do jovem estaria em uma área de mata, ocultado em um poço junto a outras 15 supostas vítimas.
A mesma linha de informação chegou até os parentes de Ryan Palhares, de 25 anos, cujo paradeiro é desconhecido desde o dia 20 de abril. O jovem sumiu logo após deixar o bairro da Barra da Tijuca. Ele mantinha diálogo por mensagens eletrônicas com a namorada quando parou abruptamente de responder.
“Dali em diante meu filho não voltou para casa. A gente quer respostas. A gente quer nossos filhos. Dar um enterro digno se tiver morto. É até triste de falar isso, mas é o que a gente quer”, desabafou um integrante da família.
Horas após o início das atividades de remoção dos corpos pela Polícia Civil no Sertão, um intenso confronto armado assustou os moradores das comunidades vizinhas. De acordo com relatórios emitidos pela agência de inteligência do 18º Batalhão de Polícia Militar (Jacarepaguá), a movimentação policial desestabilizou o perímetro, motivando uma ofensiva de criminosos do Comando Vermelho (CV).

Operação contra cemitério clandestino dispara guerra entre tráfico e milícia na zona oeste/ Foto: Reprodução
A facção, que controla o tráfico de drogas na Muzema, desferiu ataques armados contra pontos de observação e barricadas mantidos pelos milicianos na região de Rio das Pedras. O tiroteio cruzado estendeu-se pela madrugada desta quinta-feira. Registros em vídeo efetuados por moradores locais documentaram rajadas contínuas de armas de fogo automáticas, forçando a população a buscar abrigo em cômodos internos das residências.
O policiamento nos acessos às comunidades de Jacarepaguá foi reforçado por unidades de batalhões especializados da PM. A DDPA prossegue com as diligências em campo para mapear a extensão do cemitério clandestino, identificar os corpos remanescentes no poço e qualificar os mandantes e executores da estrutura de ocultação de cadáveres.

