Um relatório detalhado da Polícia Federal revelado nesta terça-feira (16) expõe os métodos de contrainteligência e despiste adotados por uma organização clandestina que operava a serviço do empresário Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master. De acordo com as investigações, os suspeitos utilizavam táticas severas de ocultação de vestígios digitais e físicos, incluindo reuniões sigilosas em áreas comuns de edifícios, encontros dentro de veículos blindados de luxo e chips telefônicos de operadoras internacionais para blindar a comunicação interna contra interceptações judiciais.
A estrutura investigada funcionava sob a liderança direta de Vorcaro e contava com uma divisão clara de tarefas estruturada em núcleos. O primeiro escalão operacional era gerido por Felipe Mourão, conhecido interna e externamente pelo codinome “Sicário”, a quem cabia repassar as ordens de intimidação física e coação financeira. Abaixo dele, a organização dividia-se em duas células: “A Turma”, composta majoritariamente por ex-agentes de segurança pública, e “Os Meninos”, uma ala especializada em crimes cibernéticos.
O controle de “A Turma” estava sob a responsabilidade do policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva. A PF aponta que Roseno utilizava a experiência acumulada no funcionalismo público e sua rede de contatos institucionais para coordenar as ações de campo e extrair dados sigilosos de bancos de dados governamentais. Entre seus principais colaboradores operacionais estava Sebastião Monteiro Júnior, também agente de segurança aposentado.
Os relatórios de vigilância da PF flagraram a rotina de encontros dissimulados da dupla. No dia 1º de março de 2026, Monteiro tentou marcar um encontro com Roseno sugerindo uma carona de ônibus em uma excursão de torcedores do Atlético Mineiro. Diante da recusa do líder do núcleo, os dois agendaram uma reunião de emergência no prédio residencial de Roseno, localizado na Avenida Assis Chateaubriand, no tradicional bairro Floresta, na Região Leste de Belo Horizonte.
Mensagens interceptadas mostram que Roseno pediu para o comparsa avisar quando estivesse na portaria para que ele descesse, justificando o isolamento: “A gente conversa lá [embaixo], porque aqui tô com uma turma que pode atrapalhar”. Imagens do circuito interno do condomínio, capturadas às 17h06 daquele dia, registram o momento em que o ex-policial deixa um grupo de amigos na área de lazer e se desloca com Monteiro para os pilotis do edifício, onde permaneceram trancados a sós por 1h10min tratando de negócios ilícitos.
O monitoramento do grupo avançou no dia seguinte. Em 2 de março de 2026, agentes de campo da PF identificaram um utilitário de luxo Range Rover preto estacionado em frente ao mesmo condomínio na Avenida Assis Chateaubriand. No interior do automóvel, Marilson Roseno e o “Sicário”, Felipe Mourão, mantiveram uma conferência privada que durou 1h20min. A utilização de habitáculos de veículos em movimento ou estacionados em vias públicas era preferencial para evitar escutas ambientais em locais fixos.
Paralelamente, o núcleo tecnológico, denominado “Os Meninos”, dava suporte eletrônico às investidas do grupo. Essa ramificação era chefiada por David Henrique Alves, responsável por comandar invasões cibernéticas a sistemas fechados e derrubar perfis de redes sociais de desafetos comerciais do Banco Master.
A logística de transporte do aparato hacker sofreu um revés quando outra Range Rover de propriedade de Felipe Mourão foi abordada pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) na rodovia BR-381. No veículo viajavam o líder hacker David Henrique e uma mulher identificada como Katherine Venâncio, transportando uma quantidade expressiva de computadores, modems e notebooks de última geração.
O avanço tecnológico do grupo também se manifestava na infraestrutura de telecomunicações. Os suspeitos abandonaram por completo as linhas móveis e chamadas de voz convencionais brasileiras, migrando o tráfego de dados para aplicativos de mensagens com criptografia de ponta a ponta e ativação de números internacionais.
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Henrique Vorcaro (pai do dono do Banco Master): Adotou um terminal móvel registrado e homologado na Colômbia para se reportar às decisões do grupo.
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Sebastião Monteiro: Utilizava uma linha com DDI dos Estados Unidos (+1) para as tratativas diretas com a liderança local.
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Marilson Roseno: Operava uma conta na plataforma WhatsApp Business atrelada a um número internacional para gerenciar as ordens aos subordinados.
A política de segurança da informação da organização criminosa incluía a eliminação diária do histórico de mensagens. O relatório técnico expõe uma ordem expressa enviada por Daniel Vorcaro a Felipe Mourão por mensagem de voz: “Vou mandar o áudio da conversa. Mas preciso que você apague e não mande pra ninguém”. A resposta foi imediata: “Manda e apaga. Vou só ouvir”. Perícias nos aparelhos apreendidos constataram que Roseno executou uma limpeza profunda em seu terminal, deletando todas as conversas anteriores a fevereiro de 2026 mantidas com a família Vorcaro.

