“Toque de SilĂȘncio”: 185 policiais militares morreram no Acre em uma dĂ©cada e meia

Por JAIRO CARIOCA, DA CONTILNET 09/04/2017 Ă s 14:34 Atualizado: hĂĄ 9 anos

 

A cena se repete. O cortejo fĂșnebre chega ao cemitĂ©rio escoltado por vĂĄrias viaturas policiais. Muitos outros policiais comparecem fardados, mesmo estando de folga, para poder acompanhar as Ășltimas homenagens a um colega que honrou a promessa de dar a vida pelo Acre com seu prĂłprio sangue.

O policial falecido Ă© escoltado pela guarda fĂșnebre para as honras militares. Primeiro o cortejo para diante da guarda de honra que, perfilada com fuzis, fazem a salva de tiros. Nesse momento o corneteiro toca o “toque de silĂȘncio”, um dos toques de corneta mais tristes que existe, que mais parece um lamento.

Lamento mesmo, um estudo inĂ©dito feito pela Associação dos Militares do Acre (AME) revela que em uma dĂ©cada e meia, ou seja, nos Ășltimos 16 anos, 185 policiais militares morreram. Do total, 63% das mortes foram violentas. Os dados mostram que o militar acreano morre em serviço. Os dados mostram que 42% das mortes violentas foram homicĂ­dios e 38% em acidentes de trĂąnsito. Quem nĂŁo morre fardado estĂĄ se suicidando (16%).

“A Polícia precisa passar a pensar o policial dentro de uma concepção não somente de um trabalhador, mas de um ser humano que precisa a todo momento ter políticas preventivas quanto as principais causas mortes”, disse o presidente da Associação dos Militares do Acre (AME), Joelson Dias, durante entrevista exclusiva à ContilNet.

A anĂĄlise foi gravada no prĂ©dio da AME, no centro de Rio Branco. Na confortĂĄvel sala de reuniĂ”es, entre um cafĂ© com tapioca, bodĂł, pĂŁo com ovos e leite, Dias foi revelando os nĂșmeros, alguns surpreendentes.

A pesquisa mostra, por exemplo, que o maior percentual entre as causas de morte de policiais militares Ă© o infarto, a doença representa 21% dos casos. HĂĄ informaçÔes da PolĂ­cia Militar de SĂŁo Paulo, que aponta o militar com uma tendĂȘncia cinco vezes maior de sofrer ataques cardĂ­acos do um trabalhador civil.

“O estresse, a vigilñncia constante e a carga horária indefinida são fatores apontados pela instituição paulista como causas do infarto no militar. No Acre em 2006 foi o ano que mais morreram policiais por causa dessa doença”, acrescento Dias.

As informaçÔes do estudo serĂŁo repassadas Ă  PoliclĂ­nica e ao Comando da PM. A ideia Ă© que mĂ©dicos e especialistas em saĂșde desenvolvam açÔes preventivas voltadas para os militares. A instituição quer criar debate que gere estratĂ©gias positivas para a Caserna.

Em resumo, segundo Dias, Policial militar não é uma måquina para o trabalho, precisa de cuidados especiais para prevenir doenças.

Acompanhe a entrevista na integra com Joelson Dias concedida ao jornalista Jairo Carioca.

Jairo Carioca – Qual o objetivo da AME em fazer esse estudo aprofundado que mostra as causas mortes entre PMs no período de 2000 e 2016?

Joelson Dias – A Associação Ă© parte desse projeto, ela nĂŁo tem somente a responsabilidade de cuidar da parte polĂ­tica e jurĂ­dica de seus associados, mas da prevenção, do policial militar nĂŁo apenas como profissional, mas como ser humano.

Jairo Carioca – A partir da coleta desses dados, qual serĂĄ o prĂłximo passo da Associação, vocĂȘs pretendem aprofundar esse estudo e o debate?

Joelson Dias – Todas essas informaçÔes serĂŁo repassadas Ă  PoliclĂ­nica e ao Comando da PM. Eles poderĂŁo fazer açÔes preventivas voltadas para os policiais militares. A ideia Ă© o estado criar uma discussĂŁo que gere açÔes positivas e voltadas para os policiais militares.

Jairo Carioca – A pesquisa mostra que o maior percentual de causas mortes Ă© o infarto, em seguida Ă© que se apresentam as mortes violentas. Isso surpreendeu a Associação?

Joelson Dias – O infarto ficou em primeiro lugar, representa 21% das causas mortes de policiais militares nos Ășltimos 16 anos. O caso de homicĂ­dio representou a segunda causa das mortes, chegando a 17%, em seguida acidente de trĂąnsito.

Esses acidentes representam a morte do militar em serviço. Em perseguição ele perdeu o controle da motocicleta, ou acaba de alguma maneira sofrendo acidente. Isso demonstra o caråter especial da nossa profissão, que de fato, protege a sociedade com sacrifício e às vezes com a própria vida.

Jairo Carioca – Quando se versa sobre as categorias Oficiais e Praças, constatou-se que entre todos os casos pesquisados, 96% era de praça e 4% de oficiais?

Joelson Dias – As doenças que mais vitimaram os oficiais foram o infarto, com trĂȘs casos, seguido de CĂąncer com dois casos registrados. Ao todo a pesquisa registrou 7 oficiais. JĂĄ entre os praças, dos 18 casos levantados, o infarto representou 18,5%, seguido de homicĂ­dio com 15%, acidente de trĂąnsito com 14,5%, cĂąncer 9,5% e a cirrose 7,8%. Esse Ă­ndice de cirrose mostra que a PolĂ­cia Militar nĂŁo estĂĄ preparando seus profissionais para a reserva. A saĂ­da tem sido a busca pelo ĂĄlcool.

Jairo Carioca – E a situação entre ativos e inativos, o que a pesquisa responde com relação a essas categorias?

Joelson Dias – Quando se trata de inativos, temos que incluir os militares reformados. A maior parte dos militares que morreram estava ainda na ativa, representando 58%. Os da reserva tambĂ©m estĂŁo morrendo de infarto, foram 78 casos.

Mas tem um outro dado que preocupa, que sĂŁo os casos de cirrose e cĂąncer, com 13 caos registrados cada. JĂĄ entre os ativos, a principal causa de morte foi o homicĂ­dio com 22,4% de um total de 107 casos registrados, seguidos por acidentes de trĂąnsito, 20,5% e o infarto com 16,8%.

Jairo Carioca – Esses casos de mortes violentas estão relacionados a onda de insegurança que o Estado vive desde o ano passado?

Joelson Dias – Toda e qualquer ação de homicĂ­dio, pelo menos o que se registrou, estĂĄ relacionada ao aumento da criminalidade no Estado. NĂłs tivemos de 2012 a 2016 o aumento significativo de mortes violentas com policiais vĂ­timas. Ano passado tivemos cinco mortes. Em 2009 foram seis homicĂ­dios. Isso para nĂłs Ă© muito preocupante.
Desse total, 96% dos que morreram de forma violenta sĂŁo praças, apenas 4% oficiais. O policial durante o serviço de sua atividade estĂĄ sendo ceifado da sociedade ou sofrendo as consequĂȘncias de outras doenças em função da profissĂŁo.

Jairo Carioca – A profissĂŁo do militar Ă© uma das de maior risco hoje?

Joelson Dias – Sim, isso jĂĄ foi atestado pela Organização Mundial da SaĂșde. Ela alĂ©m de ser uma das atividades mais perigosas do mundo Ă© tambĂ©m a mais estressante. No caso do infarto, o policial militar tem cinco vezes mais chances de sofrer ataques cardĂ­acos. O estresse, a vigilĂąncia constante e a carga horĂĄria indefinida sĂŁo fatores apresentados como de risco. O no tocante a violĂȘncia, alĂ©m do militar ser elemento de combate, ele tambĂ©m se torna vĂ­tima.

Jairo Carioca – Quando se fala em carga-horĂĄria nĂŁo definida, abre-se um debate muito pontual com relação a profissĂŁo de militar no Brasil. O que vocĂȘ acha disso?

Joelson Dias – O fato de nĂŁo termos uma legislação que estabelece uma carga horĂĄria definida Ă© muito prejudicial. Um estudo da PolĂ­cia Militar de SĂŁo Paulo mostra que quando o militar completa os seus 30 anos Ă© como se ele tivesse trabalhado 43. E o estudo do ExĂ©rcito vai alĂ©m, afirma que 30 anos Ă© como 45 de serviço. EntĂŁo aposentadoria especial para militar Ă© um conto de fadas, se for contabilizar a carga horĂĄrio de um servidor civil comparando com a do militar, vai se observar uma disparidade muito grande.

Olha que nĂŁo contamos aqui hora-extra, reuniĂ”es para assuntos relativos Ă  profissĂŁo, formaturas gerais de orientação coletiva, a hora a mais em uma ocorrĂȘncia de flagrante delito, educação fĂ­sica, depoimentos em audiĂȘncias judiciais, deslocamento para outros municĂ­pios. Ele trabalha atĂ© mais 45 previsto pelo exĂ©rcito. Policial militar nĂŁo Ă© uma mĂĄquina para o trabalho, precisa de cuidados especiais para prevenir doenças. É preciso trabalhar remuneração, para que ele nĂŁo procure outra atividade para fazer.

Jairo Carioca – Como vocĂȘs (AME) pretendem trabalhar essas demandas junto ao comando politicamente? Mesmo com a chamada para concurso, o dĂ©ficit de profissionais ainda Ă© grande, esses problemas ligados Ă  carga horĂĄria vĂŁo continuar?

Joelson Dias – Essas informaçÔes foram cedidas gentilmente pelo Comando. Eu acredito que o Comando seja sensĂ­vel a esses dados, estamos longe da polĂ­tica, tratando a vida do policial militar como alvo. Hoje nosso dĂ©ficit estĂĄ acima dos 80%. Para os prĂłximos oito anos os dados sĂŁo piores. De um efetivo de 2.518 anos espalhado em todo o estado, 600 devem se aposentar. Pessoas fora do serviço fim, chegam a mais de 500.

Hoje para a atividade fim a gente precisa de muitos profissionais. Não vejo perspectivas de solucionar, vamos continuar com problemas de escalas de serviços. O banco de horas supre essa necessidade, mas ao vender sua folga para o governo e a iniciativa privada, ele vai para o sacrifício. O Quartel é a primeira casa do militar e a família é a segunda. Psicologicamente isso traz danos grandes.

Jairo Carioca – Tem questĂ”es que precisam ser resolvidas na esfera federal. Como vocĂȘs pretendem trabalhar essas questĂ”es no Congresso?

Joelson Dias – NĂłs estamos vinculados a Associação Nacional das Entidades Representativas dos Militares Estaduais e Corpo de Bombeiros Militares do Brasil (Anermb), algumas coisas avançaram como a morte do policial militar ser tratada como crime hediondo, foi uma das defesas encampadas pela Anermb e outras entidades fizeram. Hoje estamos em uma manifestação grande tratar sobre a PrevidĂȘncia. NĂŁo temos hora-extra, nĂŁo ganhamos adicional de insalubridade, FGTS, nĂŁo temos carga horĂĄria definida.

De todos os direitos do servidor civil sĂł temos seis. NĂŁo somos tratados de forma especial, nada mais justo do que o estado ofertar um sacrifĂ­cio pra gente. O presidente Michel Temer tirou os militares da reforma, algumas coisas ainda nos preocupa como a paridade. Aqui no Estado perdemos um posto a mais, os 20% de inatividade, mudanças na alĂ­quota de pensĂŁo, a previdĂȘncia aumentou de 11% para 14%, ou seja, contribuĂ­mos com o estado alĂ©m daquilo que ele contribui com a gente. Existem problemas para se resolver na esfera federal, mas a maioria pode ser resolvida aqui mesmo.

Jairo Carioca – Como a AME viu a decisĂŁo do STF de proibir a segurança pĂșblica de fazer greve?

Joelson Dias – A PolĂ­cia Militar jĂĄ nĂŁo podia fazer greve, mas quando ele trabalha nessa perspectiva ele dar um recado muito claro: o Estado estĂĄ se preparando para uma reforma que vai abranger vocĂȘs, mas o Estado vai amarrar a todos, porque a partir do momento que o Estado decreta a ilegalidade de uma ação de um sindicato, a Justiça vai dizer “Olha, se vocĂȘs nĂŁo voltarem ao trabalho nĂłs vamos aplicar multa, a multa Ă© pesada e pode destruir um sindicato”.

É o estado se armando contra o servidor pĂșblico. Faz com que membros da Segurança PĂșblica sejam tĂŁo engessados como a PM Ă© hoje. Os sindicatos precisam agir, problemas podem acontecer e eles nĂŁo poderĂŁo se utilizar de uma força que Ă© justa e que atĂ© pouco tempo era legal, que era a greve.

Bloqueador de anuncios detectado

Por favor, considere apoiar nosso trabalho desativando a extensĂŁo de AdBlock em seu navegador ao acessar nosso site. Isso nos ajuda a continuar oferecendo conteĂșdo de qualidade gratuitamente.