Antes de ser morto, delator detalhou extorsão milionária de policiais

Vídeo inédito mostra depoimento de Antônio Vinícius Gritzbach ao Gaeco

Por Fhagner Soares, ContilNet 28/06/2026 às 13:27
Audiência gravada ocorreu quatro meses antes do assassinato do corretor no aeroporto/ Foto: Reprodução

Quatro meses antes de ser assassinado no Aeroporto de Guarulhos, o corretor de imóveis Antônio Vinícius Gritzbach detalhou a promotores do Ministério Público de São Paulo (MPSP) uma suposta estrutura de extorsão operada por agentes públicos. Acusado de lavar dinheiro para a facção Primeiro Comando da Capital (PCC), ele prestou o depoimento em 16 de julho de 2024 ao Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco).

A audiência gravada em vídeo, obtida com exclusividade pelo portal Metrópoles, integrou o acordo de colaboração premiada homologado pela Justiça em abril daquele ano. Gritzbach acabou executado a tiros em novembro de 2024, logo após desembarcar no terminal internacional, em um crime cometido diante de dezenas de testemunhas. O relato em vídeo converteu-se em peça central nas investigações sobre a infiltração de policiais em esquemas de corrupção e lavagem de capitais ligados ao crime organizado.

O depoimento concentrou-se em um anexo da delação dedicado à corrupção policial. Questionado pelos promotores se houvera pedido de propina durante as investigações conduzidas pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), Gritzbach apontou diretamente o delegado Fábio Baena e o chefe dos investigadores, Eduardo Monteiro. O inquérito tratava dos homicídios de Anselmo Becheli Santa Fausta, conhecido como “Cara Preta”, e de Antônio Corona Neto, o “Sem Sangue”, ambos integrantes da cúpula da facção.

De acordo com o corretor, a indicação de seu então advogado, Ivelson Saloto, partiu do próprio delegado titular enquanto ele cumpria prisão temporária em fevereiro de 2022. Dias depois, Saloto teria transmitido a exigência financeira de Baena e Monteiro: uma quantia estimada entre R$ 30 milhões e R$ 40 milhões. A alegação dos policiais para estipular o valor seria a posse de um pendrive com chaves de acesso a criptomoedas, dispositivo que Gritzbach negou possuir.

Diante do desgaste da prisão, o delator admitiu aos promotores ter autorizado uma contraproposta de R$ 2 milhões a R$ 3 milhões, utilizando o saldo de suas contas correntes para tentar barrar a prorrogação da custódia. Segundo o relato, a oferta foi recusada sob o argumento de que “nem se pagar os 30” a situação seria resolvida, pois os agentes alegavam já ter recebido repasses de terceiros.

Gritzbach afirmou também que os policiais se apropriaram de parte de seu patrimônio pessoal durante as diligências do DHPP. Entre os bens retidos e não registrados oficialmente estavam quatro relógios da marca Hublot, avaliados em R$ 180 mil, que sumiram do montante de 14 peças apreendidas em sua residência. Conforme o depoimento, as dez unidades devolvidas foram entregues informalmente pelo delegado ao advogado, enquanto as restantes teriam ficado guardadas no armário pessoal do chefe dos investigadores e, posteriormente, oferecidas no mercado ilegal.

Outro ponto envolveu um sítio em Biritiba Mirim, na Grande São Paulo, avaliado em R$ 1,5 milhão. Embora o imóvel estivesse registrado em nome do dentista Roberto Vioto, Gritzbach alegou ser o verdadeiro comprador e possuir a documentação comprobatória. O contrato de aquisição teria sido localizado pela equipe policial em uma busca domiciliar e omitido dos autos para viabilizar a posterior comercialização da propriedade por Rogério de Almeida Felício, o “Rogerinho”, agente de telecomunicações integrado à equipe.

O conjunto de provas entregue pelo corretor — composto por gravações de áudio, escrituras, comprovantes bancários e relatórios — fundamentou uma operação conjunta realizada pela Polícia Federal e pelo MPSP em 17 de dezembro de 2024.

O delegado Fábio Baena e o investigador Eduardo Monteiro foram presos preventivamente. Rogério de Almeida Felício, o “Rogerinho”, permaneceu foragido por seis dias antes de se entregar à Corregedoria da Polícia Civil em Santos, no litoral paulista.

Situação processual atual: Os investigados respondem pelos crimes de organização criminosa, corrupção passiva e ativa, além de ocultação de capitais. Em 31 de março deste ano, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), revogou a prisão preventiva de Fábio Baena, impondo medidas cautelares como o uso de tornozeleira eletrônica, pagamento de fiança de R$ 100 mil e o afastamento definitivo de suas funções públicas.

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