A CĂşpula da AmazĂ´nia, encontro de chefes de Estado dos oito paĂses amazĂ´nicos reunidos para debater medidas de proteção do bioma, começa nesta terça-feira (8), em BelĂ©m (PA), e vai enfrentar, de cara, um problema que afeta diretamente o Acre.Â

O evento receberá presidentes de paĂses latinos e governadores da AmazĂ´nia Legal. Foto: Cláudio Kbene/PR
Como a maioria dos rios que banham o territĂłrio acreano, nascem na selva peruana ou nos Andes, no caso dos demais rios da AmazĂ´nia, os peixes dos mananciais amazĂ´nicos estĂŁo afetados por mercĂşrio, produto quĂmico utilizado em larga escala no Peru na exploração mineral.  Â
Em busca de ouro e outros metais preciosos com a utilização do mercĂşrio, os garimpeiros peruanos estĂŁo poluindo todos os rios da AmazĂ´nia, aponta um estudo realizado em seis estados e 17 municĂpios.Â
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O estudo revelou que, em mĂ©dia, 21,3% dos peixes comercializados nas localidades que chegam Ă mesa das famĂlias na regiĂŁo AmazĂ´nica apresentam nĂveis de contaminação por mercĂşrio acima do limite aceitável estabelecido pela Organização Mundial da SaĂşde (OMS), maior ou igual a 0,5 µg/g.
O dado é de uma pesquisa inédita da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), Greenpeace, Iepé, Instituto Socioambiental e WWF-Brasil.
Os piores Ăndices estĂŁo em Roraima, onde 40% dos peixes analisados apresentaram nĂveis de mercĂşrio acima do limite. O Acre vem logo na sequĂŞncia com 35,9%. Já os menores indicadores estĂŁo no Pará, com 15,8%, e no Amapá, com 11,4%.
Na análise por municĂpios, o Amazonas ganha destaque, já que em cidades como Santa Isabel do Rio Negro e SĂŁo Gabriel da Cachoeira o Ăndice sobe para 50%. As coletas de amostras de peixes foram realizadas no perĂodo de março de 2021 a setembro de 2022. Foram avaliados 1.010 exemplares de peixes, de 80 espĂ©cies distintas, comprados em mercados, feiras e diretamente de pescadores, simulando o dia a dia dos consumidores locais.
Para os especialistas, a contaminação tem relação com o avanço de garimpos ilegal e os indicadores encontrados durante o estudo reforçam o alerta para um assunto já conhecido, mas não resolvido, que é o risco à segurança alimentar na região amazônica gerado pelo uso de mercúrio na atividade garimpeira.
“É preocupante que a principal fonte de proteĂna do territĂłrio, se ingerida sem controle, provoque danos Ă saĂşde por estar contaminada”, ressalta Decio Yokota, coordenador do Programa de GestĂŁo da Informação do IepĂ©.
“Estamos diante de um problema de saĂşde pĂşblica. Sabemos que a contaminação Ă© mais grave para as mulheres grávidas, já que o feto pode sofrer distĂşrbios neurolĂłgicos, danos aos rins e ao sistema cardiovascular. Já as crianças podem apresentar dificuldades motoras e cognitivas, incluindo problemas na fala e no processo de aprendizagem. De forma geral, os efeitos sĂŁo perigosos, muitas vezes irreversĂveis, os sintomas podem aparecer apĂłs meses ou anos seguidos de exposição. É urgente a criação de polĂticas pĂşblicas para atender as pessoas já afetadas pela contaminação por mercĂşrio e medidas preventivas, de controle de uso”, alerta Paulo Basta, pesquisador da Fiocruz.
Na CĂşpula da AmazĂ´nia,que contará com a participação de membros do Governo do Peru, o problema será apresentado. AlĂ©m do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, estĂŁo em BelĂ©m (PA) os presidentes da BolĂvia, ColĂ´mbia, Guiana, do Peru e da Venezuela. Equador e Suriname optaram por enviar representantes.
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Do encontro resultará a Declaração de BelĂ©m, um documento conjunto que estipulará compromissos socioambientais para os Estados-membros da Organização do Tratado de Cooperação AmazĂ´nica (OTCA), alĂ©m de estabelecer medidas para o fortalecimento institucional da OTCA. O documento deverá ser divulgado nesta terça-feira (8).Â
O consenso entre os paĂses deverá ser evitar o “ponto de nĂŁo retorno” da AmazĂ´nia – quando o bioma estará tĂŁo degradado que nĂŁo terá mais condições de se regenerar.
Outro ponto que deve constar da declaração final Ă© a institucionalização do Parlamento AmazĂ´nico, que já vem se reunindo desde 2020.Â
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O tratado internacional deve deixar de fora pontos sensĂveis aos movimentos sociais que compareceram aos Diálogos AmazĂ´nicos, evento que precedeu a CĂşpula, tambĂ©m realizado em BelĂ©m. Entre eles, a exploração de combustĂveis fĂłsseis, que causam o aquecimento global, e a demarcação de terras indĂgenas, tĂłpicos que dividem os paĂses membros da OTCA.Â
A CĂşpula da AmazĂ´nia termina na quarta-feira (9), quando os chefes de Estado encontram mandatários e representantes de paĂses em desenvolvimento com florestas tropicais de outras regiões do mundo. Entre eles estĂŁo a RepĂşblica Democrática do Congo, RepĂşblica do Congo, IndonĂ©sia, alĂ©m de SĂŁo Vicente e Granadinas, paĂs do Caribe que preside a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac).
Nas reuniões, o Itamaraty pretende explorar convergências e começar a construir posições que poderão ser objeto de acordos multilaterais, como a COP-28.
