Faltam apenas noventa dias para o primeiro turno das eleições. É o momento em que as pesquisas eleitorais começam a perder protagonismo e cedem espaço ao verdadeiro julgamento popular. Levantamentos de intenção de voto são instrumentos importantes para medir o humor do eleitor em determinado momento, mas não representam uma sentença antecipada. A história política do Acre oferece inúmeros exemplos de candidatos que iniciaram campanhas em desvantagem e terminaram vitoriosos, assim como de favoritos que ficaram pelo caminho.
A eleição para a Prefeitura de Rio Branco, em 2024, reforçou essa lição. Ao longo da disputa, o cenário político passou por mudanças importantes, mas a definição só veio quando as urnas foram abertas. A reeleição de Tião Bocalom ainda no primeiro turno demonstrou, mais uma vez, que nenhuma pesquisa substitui o voto e que a campanha eleitoral continua sendo decisiva para a formação da vontade popular.
Há outro fator que torna qualquer comemoração antecipada ainda mais arriscada. Tudo indica que a disputa pelo Governo do Acre caminhará para um segundo turno. E segundo turno é uma nova eleição. Mudam as alianças, mudam os discursos, mudam as estratégias e, principalmente, muda o critério de avaliação do eleitor.
Nesse cenário, a governadora Mailza Assis enfrenta o desafio de transformar um mandato marcado por turbulências políticas em uma candidatura efetivamente competitiva. Quem ocupa o governo precisa responder diariamente pelos avanços, pelas dificuldades e pelos resultados da administração, e esse será um dos principais temas do debate eleitoral.
O senador Alan Rick, por sua vez, tem apresentado como uma de suas principais credenciais o volume de recursos destinados ao Acre por meio de emendas parlamentares. É um argumento legítimo de campanha. Mas, exatamente por se tratar de dinheiro público, é igualmente legítimo que a sociedade cobre transparência. As transferências secretas, conhecidas como “emendas Pix”, movimentaram dezenas de milhões de reais destinados ao estado e aos municípios. O eleitor tem o direito de saber onde esses recursos foram aplicados, quais obras foram executadas, quais serviços foram efetivamente entregues e quais benefícios concretos chegaram à população. Não basta anunciar valores; é preciso demonstrar resultados. A prestação de contas é parte indissociável da boa gestão dos recursos públicos e deve ocupar espaço central no debate eleitoral.
Já Tião Bocalom chega à disputa com uma característica que acompanha toda a sua trajetória política: nunca foi um candidato de gabinete. Tradicionalmente cresce durante a campanha, percorrendo o estado, conversando diretamente com a população e apoiando-se em lideranças locais. Soma a isso um currículo administrativo construído em três mandatos como prefeito de Acrelândia e dois como prefeito de Rio Branco. A continuidade das principais ações de sua gestão pelo prefeito Alysson Bestene — hoje seu principal ativo político na campanha — fortalece o discurso de que existe um projeto administrativo em execução na capital acreana.
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Os próximos noventa dias serão decisivos porque obrigarão todos os candidatos a responder perguntas que nenhuma pesquisa consegue responder. Que projeto cada um apresenta para o Acre? Como pretendem ampliar a geração de emprego e renda? Como enfrentar os desafios da saúde, da segurança, da infraestrutura e da educação? Que compromissos assumem com a transparência na aplicação dos recursos públicos? E, sobretudo, que alianças estão sendo construídas em torno de um projeto para o estado e quais atendem apenas a interesses eleitorais?
É justamente nesse momento que a campanha começa de verdade. O marketing passa a dividir espaço com a comparação entre biografias, realizações, propostas e capacidade de liderança. As pesquisas continuarão registrando tendências, mas a única pesquisa que decide uma eleição é aquela realizada no dia da votação. É na urna, e somente nela, que o eleitor acreano dará a resposta definitiva sobre quem considera mais preparado para conduzir o destino do estado pelos próximos quatro anos. Os próximos noventa dias não decidirão apenas quem vencerá a eleição. Decidirão qual projeto de desenvolvimento, de transparência e de futuro prevalecerá no Acre. Até lá, pesquisas continuarão alimentando o debate. Mas a única voz soberana continuará sendo a do eleitor.
*Por José Américo
