Um relatório da Polícia Federal (PF) revelou a existência de registros de conversas diretas entre o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, antigo controlador do Banco Master. As mensagens interceptadas na investigação mostram que o parlamentar intercedeu junto ao operador financeiro para solicitar a liberação de um empréstimo bancário no valor de R$ 22 milhões destinado à empresa de sua cunhada, Bianca Medeiros.
De acordo com as investigações, obtidas originalmente pelo jornal O Estado de S. Paulo, as negociações eletrônicas em torno do repasse financeiro milionário para a irmã da esposa do deputado ocorreram em março de 2024.
Procurado formalmente pela reportagem da CNN para se posicionar sobre o teor do pedido de crédito, o presidente da Câmara dos Deputados não enviou resposta até o fechamento desta edição. Em entrevista concedida ao Estadão, Motta evitou confirmar explicitamente se formalizou a solicitação em favor da familiar, mas argumentou que a eventual gestão por uma linha de crédito não configuraria ato ilícito. Segundo o deputado, a transação seria legal por envolver uma empresa privada dotada de lastro financeiro compatível.
Os desdobramentos das apurações da PF detalham também uma rede de mimos e facilidades corporativas custeadas pelo ex-banqueiro a lideranças políticas do Congresso Nacional durante uma viagem oficial à Europa. Hugo Motta admitiu publicamente que aceitou uma “carona” no jatinho particular de Daniel Vorcaro para deslocar-se até Portugal, onde participou do Fórum de Lisboa em junho de 2024.
O congressista justificou a aceitação do transporte privado alegando ter recebido o convite para o evento jurídico-político de última hora. Inicialmente, ele não planejava viajar ao exterior devido às agendas das festas juninas em sua base eleitoral na Paraíba.
“O Daniel Vorcaro ofereceu uma carona, o Ciro Nogueira [senador, PP-PI] estava indo com ele e me chamou para ir junto. Não vejo problema nenhum. Ele [Vorcaro] não me pediu nada em troca. Realmente é uma carona de quem decidiu ir de última hora para o evento. E eu não fiquei esses dias todos que estão dizendo aí que eu fiquei em hotel. Voltei no mesmo dia do encontro”, declarou Motta à CNN.
A versão de uma passagem relâmpago, contudo, é confrontada pelos relatórios técnicos da Polícia Federal. Mensagens extraídas dos aparelhos de intermediários do esquema indicam que Vorcaro ordenou, em 18 de junho de 2024, a reserva de acomodações de alto padrão para si e para os parlamentares no hotel Four Seasons, em Lisboa.
Em uma das respostas anexadas ao inquérito, o operador logístico Léo Serrano confirmou o sucesso das reservas com a mensagem: “Ciro e Hugo cada um tem uma JR. Suite”. Preocupado com o sigilo das tratativas, Vorcaro orientou em áudio que a frente do hotel também fosse isolada ou reservada para impedir que terceiros visualizassem o teor das reuniões.
A perícia da PF obteve os comprovantes financeiros das despesas em euros efetuadas na capital portuguesa. Os documentos discriminam que foram despendidos R$ 91,2 mil apenas para cobrir as cinco diárias atribuídas ao senador Ciro Nogueira — o que representa um custo diário de R$ 18.256,12 por aposento. Os arquivos analisados até o momento não trazem a especificação individualizada dos valores gastos com a hospedagem de Hugo Motta, embora a corporação aponte a existência de “elementos coincidentes” que vinculam o pagamento global ao período em que os políticos estiveram no local.
Os relatórios sigilosos da PF foram tornados públicos pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). A abertura dos dados ocorreu logo após o ministro Gilmar Mendes incluir em pauta o julgamento sobre os pedidos de prisão de Henrique e Felipe Vorcaro, respectivamente pai e primo de Daniel Vorcaro, envolvidos nas investigações de fraudes do grupo financeiro.
