Relatora de um dos projetos de reforma polĂtica debatidos na Câmara, a deputada Renata Abreu (Podemos-SP) apresentou na noite desta quarta-feira (4), horas antes da previsĂŁo de votação, mais uma versĂŁo de seu texto, desta vez com uma mudança que jamais foi objeto de debate pĂşblico relevante.
Em mais um dos inúmeros vaivéns dos projetos em debate na Câmara, Abreu agora propõe que, a partir das eleições de 2024, o eleitor vote em até cinco candidatos a presidente, governador ou prefeito, em ordem decrescente de preferência, acabando com o segundo turno.
Pegando o exemplo de 2018, por exemplo, o mesmo eleitor poderia votar em Jair Bolsonaro (entĂŁo no PSL), Fernando Haddad (PT), Ciro Gomes (PDT), Geraldo Alckmin (PSDB) e Henrique Meirelles (MDB), por exemplo.
O eleito sairia de uma intrincada combinação.
Seria considerado eleito o candidato que obtivesse a maioria absoluta das primeiras escolhas do eleitor. Se isso não ocorresse, o candidato indicado menos vezes na contagem seria eliminado da apuração e os votos dados a ele seriam transferidos para a escolha seguinte do eleitor.
As regras do novo relatĂłrio sĂŁo: 1) os votos em candidato eliminado cujos eleitores nĂŁo indicaram escolhas seguintes seriam considerados nulos; 2) quando a escolha do eleitor recaĂsse sobre candidato já eliminado ou fosse em branco ou nula, seria considerada a opção seguinte; 3) feita a redistribuição dos votos e caso nenhum dos candidatos obtivesse mais de 50% dos votos, os procedimentos seriam repetidos “atĂ© que algum candidato alcance a maioria absoluta dos votos válidos”.
Abreu relata projeto de alterações das regras eleitorais e polĂticas presentes na Constituição, em debate em uma comissĂŁo especial da Câmara. Essa Ă© uma das seis frentes instaladas no Congresso.
“É uma proposta importante que permite organizar as preferĂŞncias dos eleitores, ao invĂ©s de dar-lhes uma Ăşnica opção. Para isto, Ă© facultado ao eleitor no momento do voto indicar atĂ© cinco candidatos, em ordem de preferĂŞncia; na contagem de votos sĂŁo aferidas as opções dos eleitores atĂ© que algum candidato reĂşna a maioria absoluta dos votos. Assim, facilita-se a eleição dos que reĂşnem maior apoio e menor rejeição”, escreveu a relatora em sua justificativa.
A votação do texto na comissão estava marcada para o final da noite desta quarta. Se for aprovado, segue para o plenário.
O fim do segundo turno e a possibilidade de o eleitor escolher até cinco adversários na mesma disputa não foram as únicas mudanças no relatório da deputada.
Ela manteve a previsão de mudança do modelo de eleição de deputados e vereadores —do atual, o proporcional, que prioriza o voto partidário, para o chamado distritão, em que os mais votados são eleitos—, mas apenas para vigorar em 2022.
A partir de 2024, entraria em vigor uma mescla entre os dois, o “distritĂŁo misto”. Em seu relatĂłrio anterior, o segundo modelo era o distrital misto, uma junção do sistema proporcional com o voto distrital.
Há um porĂ©m: apesar de os mais votados serem eleitos no distritĂŁo, aqueles que pertencerem a partidos que nĂŁo reunirem um mĂnimo de votos (25% do resultado da divisĂŁo dos votos válidos do estado pelo nĂşmero de cadeiras em disputa) estariam fora.
Em seu novo relatĂłrio, Abreu tambĂ©m instituiu a possibilidade de partidos unirem-se em federações para atuarem conjuntamente durante toda a legislatura (quatro anos). Essa possibilidade fragiliza a cláusula de desempenho ao permitir que siglas nanicas que nĂŁo atingiram o patamar mĂnimo de votos se unam a outras para ter acesso a verbas pĂşblicas e propaganda.
A relatora tambĂ©m adotou uma mudança que tem o objetivo de incentivar os partidos a lançar negros e mulheres nas eleições. A medida estabelece que, para o cálculo da divisĂŁo das verbas pĂşblicas que serĂŁo distribuĂdas aos partidos, o voto dado a mulheres e negros valerá em dobro.
Além de apresentar o novo texto poucas horas antes da votação, a relatora incluiu uma outra mudança depois de ter apresentado a proposta: estabeleceu que para 2022 nenhum partido poderá receber mais do que 8% do Fundão Eleitoral, que por ora prevê recursos de R$ 5,7 bilhões para a campanha. A medida tende a prejudicar PT e PSL, partidos que têm maior fatia da verba, e beneficiar siglas do centrão, que hoje comanda a Câmara.​

