Em um movimento que contraria uma das regras mais tradicionais do pragmatismo eleitoral, o governador de Goiás e candidato à Presidência da República, Ronaldo Caiado (União Brasil), quebrou a praxe de neutralidade antecipada e anunciou publicamente que apoiará o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em um eventual segundo turno na corrida presidencial deste ano. O aceno ocorre no momento em que Caiado tenta se consolidar nacionalmente como uma terceira via competitiva diante da polarização entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o próprio clã Bolsonaro.
A declaração foi dada na noite desta terça-feira (26) em entrevista ao canal SBT News. Ao ser questionado sobre o cenário em que ficaria fora da reta final da disputa, o polĂtico goiano nĂŁo hesitou em escolher um lado, ignorando a máxima partidária de que candidatos ao Planalto evitam admitir a derrota precoce ou fechar portas antes da abertura das urnas.
O posicionamento de Caiado ganha contornos de forte relevância polĂtica por ocorrer em meio ao desgaste sofrido por Flávio Bolsonaro, implicado em relatĂłrios sigilosos da PolĂcia Federal que investigam fraudes bilionárias e o suposto recebimento de propina envolvendo o Banco Master.
— Os problemas devem ser respondidos por cada um daqueles que venham amanhã a ser colocados em xeque ou na necessidade de se explicar. Agora, o fato pessoal não pode ser um fator que inviabilize esse ponto de convergência que nós temos — justificou o presidenciável do União Brasil.
O governador evitou emitir juĂzo de valor sobre as transações financeiras e o elo entre Flávio e o banqueiro Daniel Vorcaro, articulador do Banco Master. Para Caiado, os desdobramentos da apuração policial e jurĂdica devem ficar restritos Ă esfera individual do senador fluminense, sem contaminar o bloco de oposição ao governo federal.
— A nossa oposição é exatamente o PT. Agora, se realmente alguém dentro do nosso grupo tem problemas, que ele se explique. Isso não pode ser usado, em hipótese alguma, como motivo para uma ruptura entre nós — complementou.
A manifestação funciona como um colchĂŁo de amortecimento polĂtico para Flávio Bolsonaro, que, no mesmo perĂodo, precisou lidar com o desgaste da circulação de imagens falsas criadas por inteligĂŞncia artificial simulando suas agendas em Washington. A declaração de Caiado garante ao parlamentar do PL que, apesar das denĂşncias de corrupção, as pontes com a direita tradicional e o agronegĂłcio permanecem preservadas.
Aos 76 anos, Ronaldo Caiado carrega um dos currĂculos mais extensos do tabuleiro polĂtico nacional. MĂ©dico ortopedista formado pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UFRJ), casado e pai de quatro filhos, o goiano ostenta o selo de pertencer Ă direita ideolĂłgica muito antes de o espectro polĂtico voltar a ganhar contornos de massa no Brasil.
Sua trajetória institucional acumula cinco mandatos como deputado federal (20 anos de atuação na Câmara), uma passagem pelo Senado Federal (8 anos) e duas eleições consecutivas para o governo do estado de Goiás.
Sua estreia na busca pelo Palácio do Planalto ocorreu em 1989, no primeiro pleito direto após o término da ditadura militar. Naquela ocasião, com uma plataforma de forte teor conservador e simbolizada por aparições montado em um cavalo branco, Caiado terminou a apuração em décimo lugar, angariando apenas 0,72% do total de votos válidos. Quase quatro décadas depois, ele joga suas fichas na tese de que a união total da direita é a única cartada capaz de derrotar o Partido dos Trabalhadores.



