AuxĂ­lio emergencial: governo planeja retomar benefĂ­cio apĂłs o carnaval

Por Marina, ContilNet 10/02/2021 Ă s 09:35

Pressionado pelo Congresso e pela ala política do governo, o presidente Jair Bolsonaro deve anunciar depois do carnaval a prorrogação do auxílio emergencial, que passaria a vigorar a partir de março.

A ideia Ă© que o custo com a extensĂŁo do benefĂ­cio fique fora do teto de gastos, regra fiscal que impede que as despesas pĂșblicas cresçam mais que a inflação do ano anterior.

De acordo com o plano em estudo, a nova rodada de repasses — trĂȘs parcelas de R$ 200 — seria restrita a cerca de metade dos trabalhadores atendidos no ano passado pelo programa.

A equipe econÎmica, no entanto, ainda defende que qualquer medida seja compensada por açÔes de ajuste fiscal.

A estratĂ©gia Ă© bancar o novo auxĂ­lio por meio de crĂ©ditos extraordinĂĄrios, espĂ©cie de liberação de dinheiro pĂșblico que nĂŁo Ă© sujeita ao teto.

O mecanismo foi o mesmo adotado no ano passado para fazer frente às despesas emergenciais do combate à pandemia, inclusive os R$ 294 bilhÔes gastos com a medida em 2020.

Uma solução para o retorno do benefício, na avaliação de auxiliares, serå importante para a campanha de reeleição do presidente Jair Bolsonaro.

O Ministério da Cidadania, que controla o Bolsa Família e operacionaliza o auxílio emergencial, estå sob o comando de Onyx Lorenzoni. O ministro serå transferido pela Secretaria-Geral. Anteriormente, prevista para o dia 19, a posse foi adiada para o dia 24 de fevereiro.

Nos Ășltimos dias, lĂ­deres do Congresso tĂȘm defendido a prorrogação dos repasses, em meio ao agravamento da situação da pandemia.

Na segunda-feira, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), afirmou que uma solução para o impasse poderia ser alcançada nesta semana e que o pagamento da ajuda aos trabalhadores informais não poderia depender da aprovação de medidas de ajuste fiscal.

Custo de R$ 18 bilhÔes
Essa avaliação vai de encontro à da equipe econîmica. Na terça-feira, o presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, disse que há “pouco ou nenhum” espaço fiscal para nova rodada do programa. Ele afirmou que ampliar gastos sem apresentar contrapartidas seria uma sinalização ruim para o mercado.

— NĂłs pensamos que hĂĄ pouco ou nenhum espaço para mais transferĂȘncias fiscais sem contrapartidas. É necessĂĄrio ter certeza de que vocĂȘ estĂĄ falando para o mercado que vocĂȘ tem a necessidade de gastar um pouco mais, mas estĂĄ tomando medidas para frear um crescimento de despesas no futuro — disse ele, em evento virtual.

Os riscos no horizonte fiscal, diante das pressÔes para um novo auxílio, preocuparam os investidores. Mesmo com duas intervençÔes do BC após o dólar se aproximar de R$ 5,45, a moeda americana fechou em alta de 0,22%, a R$ 5,38. Jå a Bolsa encerrou em queda de 0,19%, aos 119.471 pontos.

Apesar do alerta de Campos Neto, integrantes do governo defendem que, ao dar início à aprovação de medidas econÎmicas, como a reforma administrativa e a autonomia do BC, o Executivo começa a sinalizar compromisso com o ajuste fiscal. Assim, a expectativa é de compreensão em relação ao furo do teto.

Outra fonte do alto escalĂŁo avalia ainda que espera sensibilidade do mercado com o fato de que a flexibilização tem o objetivo de bancar o auxĂ­lio — um motivo especĂ­fico e emergencial — e nĂŁo de aumentar os gastos pĂșblicos.

Formato final ainda Ă© incerto
O formato final da nova fase do benefĂ­cio ainda Ă© incerto. HĂĄ um receio no governo de que a proposta da equipe econĂŽmica de pagar trĂȘs parcelas de R$ 200 mude no Congresso — como ocorreu no ano passado —, e a conta fique muito mais salgada, alĂ©m dos R$ 18 bilhĂ”es inicialmente estimados.

O valor pode subir para R$ 300, podendo chegar a R$ 600 com aumento tambĂ©m no nĂșmero de parcelas, por ação de parlamentares interessados em renovar seus mandatos em 2022.

O presidente da Cùmara, Arthur Lira (PP-AL), eleito com o apoio do Planalto, sempre defendeu abertamente o auxílio emergencial. Agora, terå de mostrar força para que o Executivo não sofra uma reviravolta no Parlamento.

Cortes de despesas
Na avaliação de uma fonte, o ideal seria pagar o auxĂ­lio, de forma definitiva, apenas para um universo de quatro milhĂ”es de famĂ­lias, identificadas entre os chamados invisĂ­veis — grupo de trabalhadores informais sem capacidade de gerar renda e fora do Bolsa FamĂ­lia.

Segundo esse interlocutor, com um benefício emergencial para 30 milhÔes de pessoas, muita gente que não precisa da ajuda acabaria recebendo.

A equipe econĂŽmica ainda resiste a gastar fora do teto e tenta negociar cortes de despesas para acomodar o novo auxĂ­lio.

Mesmo se o gasto for feito fora dessa regra, os técnicos terão de compatibilizar o novo gasto à meta fiscal, que é a diferença entre receitas e despesas do governo.

Para este ano, a previsĂŁo Ă© de rombo de R$ 247 bilhĂ”es nas contas pĂșblicas. Qualquer nova despesa — mesmo fora do teto — precisa se encaixar nessa meta, seja por corte de outros gastos ou aumento de receitas.

A equipe econĂŽmica, porĂ©m, descarta aumento de impostos e tambĂ©m nĂŁo quer alterar a meta fiscal para acomodar os novos gastos. Por isso, a insistĂȘncia em cortar despesas.

No Legislativo, soluçÔes para o impasse fiscal também estão em anålise. Ontem, durante reunião de líderes do Senado, parlamentares discutiram possibilidades, como prorrogar o Orçamento de Guerra.

A possível criação de um tributo emergencial também é vista como pouco provåvel. (Colaboraram Manoel Ventura, Gabriel Shinohara, Julia Lindner e João Sorima Neto)

ConteĂșdo Original / Fonte: O GLOBO

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