Ao mesmo tempo em que uma parcela significativa da população faz vistas grossas para a epidemia do novo coronavĂrus que assola o Brasil, famĂlias inteiras estĂŁo sendo dizimadas.
E isso pode ocorrer em um curto perĂodo de tempo, nĂŁo dando chance para que os familiares que ficam vivam seus lutos.
Esse Ă© o caso da famĂlia Bonaldi, do municĂpio de Cruz Alta (RS), a 350 km de Porto Alegre. Em seis dias, cinco familiares morreram vĂtimas da covid-19.
“Quando a gente estaria fazendo a missa de sĂ©timo dia de um, nĂłs estávamos enterrando o outro”, lamenta Jorge Luis CorrĂŞa Bonaldi.
A morte mais recente foi a de Sergio Correa Bonaldi, 47 anos. Ele estava internado desde o dia 12, no Hospital SĂŁo Vicente de Paulo, e teve o Ăłbito confirmado ontem.
Sergio já estava inconsciente na semana passada quando seu irmĂŁo, Paulo Ricardo CorrĂŞa Bonaldi, 62, morreu na quarta-feira (17). No dia seguinte, o outro irmĂŁo, Achiles AtĂlio Bonaldi, 58, faleceu.
Já na sexta-feira, Maria Vergilia Corrêa Bonaldi, 83, a matriarca, e Salete Ribeiro da Silva Bonaldi, 61, mulher de Paulo, foram declaradas mortas.
Segundo familiares, eles tinham comorbidades e contraĂram o vĂrus no Ăşltimo mĂŞs. Os sete filhos de Maria Vergilia ficaram doentes. Quatro passam bem.
“Eles adoeceram há mais ou menos 24 dias. Tinham comorbidades, especialmente diabetes. A mĂŁe ficava na casa do meu irmĂŁo, ambos meio que isolados. A gente já tinha esse cuidado, porque a sabĂamos da gravidade disso”, conta Jorge.
Ele lembra que há dois meses adoeceu junto com o filho, mas não precisaram ser hospitalizados.
“Em mim deu forte, mas nĂŁo atingiu os pulmões. Deu dor de cabeça, perdi olfato, diarreia, todos os sintomas clássicos. Mas nĂŁo precisamos ser internados.”
Jorge explica que, segundo os mĂ©dicos, uma variante do vĂrus, mais nociva, acometeu seus familiares.
“Quando eu e meu filho pegamos, foi um tipo de cepa. Agora, o mĂ©dico nos relatou que uma variante infectou minha mĂŁe e meus irmĂŁos. A agressividade dela dá para se ver pela tomografia dos pulmões. De um dia para o outro eles vĂŁo se deteriorando. É um inimigo invisĂvel que te deixa impotente”, diz.
Os Bonaldi sĂŁo uma famĂlia tradicional e muito unida de Cruz Alta. Há 40 anos o patriarca, Eurico Bonaldi, instalou no bairro Jardim AmĂ©rica uma oficina mecânica que funciona atĂ© hoje. Ao redor do estabelecimento, moram todos os irmĂŁos.
“Meus trĂŞs irmĂŁos estavam sendo medicados em casa. Mas, na sexta-feira (12), o Paulo começou a saturar mal. EntĂŁo uma equipe da prefeitura levou os trĂŞs para a UPA. Lá, decidiram internar eles no hospital. Eles foram hospitalizados juntos. Todos precisaram de intubação. Cinco dias depois, na quarta-feira, o Paulo morreu. Depois o Achiles, a mulher do Paulo e a nossa mĂŁe”, narra Jorge. Nessa terça foi a vez de Sergio, 47.
Jorge conta que nĂŁo foi permitido fazer velĂłrio dos parentes. “Por medidas de precaução, tĂnhamos apenas quatro horas para liberar os corpos no hospital e enterrar.”
Muito abalado pelas perdas, mas ao mesmo tempo um pouco mais aliviado, já que seus outros trĂŞs irmĂŁos foram liberados do hospital, Jorge deixa uma mensagem: “Tivemos um pedaço arrancado de uma famĂlia muito unida.
Mas peço que as pessoas se cuidem. Porque só nós sabemos tudo aquilo que estamos passando nesse momento.
Quando se perde alguĂ©m já Ă© difĂcil, agora perder cinco pessoas, trĂŞs irmĂŁos, uma cunhada e a mĂŁe em uma semana, Ă© inexplicável. Eles sĂŁo arrancados de vocĂŞ por um inimigo invisĂvel, o que te deixa impotente”.
(Imagem: Acervo pessoal)


