Livro narra “odisseia” de pesquisadores da USP no estudo das doenças tropicais no AC e RO

Por ASCOM 22/06/2021 às 12:25 Atualizado: há 5 anos
Nas dĂ©cadas de 70 e 80, a AmazĂ´nia sofria uma explosĂŁo de casos de malária, com um aumento de 75 vezes e concentrando 99% dos casos brasileiros da doença. O trabalho de pesquisadores do Instituto de CiĂŞncias BiomĂ©dicas da Universidade de SĂŁo Paulo (ICB-USP) foi importante para compreender e combater a malária e auxiliar no atendimento Ă  saĂşde da população. AtĂ© hoje, o Instituto conduz pesquisas nos estados de RondĂ´nia e Acre sobre doenças parasitárias, epidemiologia e estratĂ©gias de controle da malária, malária gestacional e placentária. Essa trajetĂłria Ă© contada no livro “ICB-USP na AmazĂ´nia: 30 anos de ciĂŞncia nas fronteiras do Brasil”, que será lançado no dia 30 de junho, Ă s 9 horas, durante reuniĂŁo da Congregação do ICB.
De autoria da jornalista MĂ´nica Teixeira, a obra começa relatando como o parasitologista Erney Plessmann de Camargo, um dos protagonistas desta histĂłria, em parceria com Luiz Hildebrando, na Ă©poca diretor do LaboratĂłrio de Biologia Experimental do Instituto Pasteur, uniu esforços no final da dĂ©cada de 80 para desenvolver estudos sobre a epidemiologia da malária, a resposta imunolĂłgica ao parasita e a biologia dos mosquitos que transmitem a doença. A equipe acompanhou os casos de malária ao longo do tempo em diferentes localidades, aplicou questionários Ă  população e realizou coletas de sangue para o diagnĂłstico e para exames sorolĂłgicos, com o objetivo de detectar a presença de anticorpos aos parasitas que causam a doença.Nesta fase, a descoberta mais importante foi a existĂŞncia de indivĂ­duos assintomáticos, que mudou o entendimento sobre o combate Ă  malária em regiões endĂŞmicas como a AmazĂ´nia, levantando a hipĂłtese de que as populações tradicionais que mantinham a transmissĂŁo da doença. “Ao longo da vida, os habitantes vĂŁo desenvolvendo um certo grau de imunidade como resultado da exposição constante ao parasita e, invisĂ­veis para o sistema de diagnĂłstico da doença, se constituem na reserva de plasmĂłdios que mantĂ©m a transmissĂŁo da malária”, informa trecho do livro.

Além dos casos assintomáticos, que dificultavam a identificação e consequente controle da transmissão, os maiores desafios vinham das condições precárias em que algumas populações viviam, especialmente as ribeirinhas: sem saneamento básico nem luz elétrica, casas cobertas de palha e mal vedadas.

Todo esse trabalho, destaca o professor Erney Camargo, nĂŁo teria sido possĂ­vel sem a colaboração do ICB, dos pesquisadores do Departamento de Parasitologia, da população local e dos dirigentes polĂ­ticos da regiĂŁo. “Para Hilderbrando e para mim, o grande marco foi a realização de uma tarefa que nĂłs herdamos do professor Samuel Pessoa: usar a ciĂŞncia a serviço da população. Isso foi muito importante para nĂłs”.

Presença consolidada – A atuação do Instituto se estendeu ao atendimento de pacientes com doenças tropicais. Sob a coordenação do mĂ©dico e professor LuĂ­s Marcelo Aranha, foi criado o ICB V, um Centro Avançado de Ensino, Pesquisa e ExtensĂŁo localizado na cidade de Monte Negro, em RondĂ´nia. Hoje, alĂ©m de prestar serviços Ă  população, as instalações sĂŁo dedicadas ao ensino de alunos de graduação e pĂłs-graduação do ICB e de outras unidades da USP.

Outro estado que recebeu os pesquisadores do ICB foi o Acre, inicialmente no município de Acrelândia, em 2004, que tinha a maior Incidência Parasitária Anual (IPA) do estado. Coordenados por Marcelo Urbano Ferreira, os pesquisadores investigaram as causas da perpetuação da malária e trabalharam formas de controlar a doença. A IPA, que era 104,2, hoje está em 3,0. Posteriormente, foi instalado em Cruzeiro do Sul um Laboratório Avançado voltado para o estudo da malária em comunidades urbanas e rurais.

Lá, o ICB-USP abriu uma nova linha de pesquisa, inédita no Brasil, sobre os impactos da malária na gestação, sob a liderança do professor Cláudio Marinho. Os estudos mostraram que não só a malária falciparum, tipo mais agressivo, mas também a malária vivax deve ser motivo de preocupação na gravidez e pode prejudicar tanto a mãe quanto o feto. A equipe estuda desde o modelo animal até o ser humano e busca medicamentos e testes para tratar e descobrir efeitos da malária nos fetos precocemente.

“O livro retrata histĂłrias de desbravadores e idealistas que vislumbraram um futuro melhor para as pessoas, a instituição e o paĂ­s. Uma histĂłria que inspira a todos que a conhecerem, sobretudo aqueles que darĂŁo continuidade a essa missĂŁo”, ressalta na apresentação da obra o professor LuĂ­s Carlos de Souza Ferreira, diretor do ICB.

A versão digital do livro será disponibilizada no site do ICB-USP: https://ww3.icb.usp.br

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