Valéria, que tinha 42 anos, estava internada em decorrência de complicações da covid-19.
Em um hospital pĂşblico de Esteio, municĂpio do Rio Grande do Sul, ela passou seus Ăşltimos dias de vida em meio ao caos ligado Ă falta de leitos em diversas regiões do paĂs, em razĂŁo do aumento de casos do novo coronavĂrus no Brasil.
O último contato da comerciante com a filha mais velha, por meio do WhatsApp, foi compartilhado pela jovem de 23 anos no Twitter horas após a morte de Valéria, na terça-feira (02/03).
“Essa foi a Ăşltima mensagem que tive da minha mĂŁe (…) Usem máscara, nĂŁo saiam se nĂŁo for necessário, por favor”, escreveu Giulia na publicação, que já teve mais de 125 mil curtidas e mais de 13 mil compartilhamentos na rede.
A situação vivida por ValĂ©ria ilustra o caos vivido no paĂs em decorrĂŞncia da covid-19 — nos Ăşltimos dias, o Brasil registrou sucessivos recordes de mortes e se aproximou de 2 mil Ăłbitos pelo novo coronavĂrus em 24 horas.
Internação e falta de UTI

Valéria com a filha mais velha: comerciante teve Giulia aos 18 anos — Foto: Arquivo pessoal
A famĂlia relata que ValĂ©ria sempre adotou os cuidados necessários para que nĂŁo fosse infectada pelo coronavĂrus.
Os parentes acreditam que ela, que era dona de uma sorveteria na cidade de Esteio, tenha sido infectada pelo coronavĂrus enquanto atendia algum cliente.
“As pessoas pouco se importavam. A minha mĂŁe cansou de brigar com clientes (para que usassem máscara)”, relata Giulia.
Os primeiros sintomas da comerciante começaram por volta de 14 de fevereiro, quando ela passou a tossir muito. Dias depois, fez um teste que apontou que ela e o marido estavam com o novo coronavĂrus. O casal ficou isolado.
Giulia, que mora com a avĂł em outra casa, relata que a mĂŁe chegou a ir algumas vezes ao hospital, mas logo era liberada.
“Os hospitais estavam cheios, entĂŁo os profissionais de saĂşde viam alguma melhora nela e a liberavam para que outra pessoa pudesse ser atendida tambĂ©m”, relata a jovem.
Em 20 de fevereiro, a situação se agravou. ValĂ©ria, que tinha diabetes e asma, teve os pulmões duramente comprometidos pelo coronavĂrus. Ela foi internada na área de emergĂŞncia de uma unidade de saĂşde pĂşblica.
“Ela sempre mandava mensagens para a gente porque podia ficar com o celular enquanto estava internada. PorĂ©m, ninguĂ©m podia visitá-la, sĂł o meu pai que podia ir para levar algo que ela precisasse”, relembra a jovem.
No último sábado, o quadro de Valéria se agravou ainda mais. Os médicos orientaram que ela fosse encaminhada para uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Mas diante do cenário de falta de leitos no Rio Grande do Sul, ela não conseguiu.
Como em diversas partes do Brasil, a atual situação da pandemia no Rio Grande do Sul é considerada extremamente preocupante. O cenário é o pior desde os primeiros registros de covid-19. Há fila de espera por um leito de UTI.
O governo do Estado avalia o aluguel de contĂŞineres refrigerados para acomodar um eventual excesso de corpos.
“Ela precisava disso (um leito de UTI). Ligamos para hospitais, atĂ© do litoral, inclusive particulares, e nada. Havia um leito em um hospital de Santa Maria, mas era a cinco hora de viagem e os mĂ©dicos avisaram que ela nĂŁo aguentaria o trajeto”, diz Giulia Ă BBC News Brasil.

Publicação de jovem viralizou no Twitter e teve mais de 125 mil curtidas — Foto: Reprodução/Twitter
“A falta de UTI se dá pelo colapso da rede de saĂşde, como já haviam dito que aconteceria desde o ano passado, mas ninguĂ©m levou a sĂ©rio”, acrescenta a jovem.
Quando soube da situação da mãe, Giulia mandou as mensagens para saber como ela estava.
“MĂŁe, eu tĂ´ torcendo por ti. Eu te amo muito”, escreveu a jovem. “Tu tem que ser firme. Tem que me ver formar”, acrescentou a filha para a mĂŁe, nas mensagens por WhatsApp. Foi o Ăşltimo contato entre elas.
“A saturação dela ficou muito baixa e ela precisou ser intubada. O mĂ©dico disse ao meu pai que o quadro dela era grave e explicou que o problema era a asma dela e um quadro de pneumonia”, relata.
Sem leito de UTI, a comerciante permaneceu na área de emergĂŞncia. “O hospital fez o possĂvel para equipar o leito dela (na emergĂŞncia). Mesmo com ajuda do respirador, a saturação dela nĂŁo melhorava”, relata Giulia.
“Foi tudo muito terrĂvel e muito rápido”, lamenta Giulia. Na terça-feira, a comerciante teve uma parada cardiorrespiratĂłria e nĂŁo resistiu.
“Eu fico muito frustrada. Se nĂŁo fossem as aglomerações e falta de posicionamento decente dos governos, minha mĂŁe poderia estar aqui ainda”, diz a jovem.
Conscientização
Depois da morte da mĂŁe, Giulia decidiu compartilhar em seu perfil no Twitter as Ăşltimas mensagens trocadas entre elas para tentar conscientizar outras pessoas sobre a gravidade da covid-19.
“Fiquei em choque em como (a publicação) viralizou. A postagem foi, acima de tudo, um desabafo”, diz a jovem Ă BBC News Brasil.
Depois da repercussĂŁo, ela recebeu inĂşmeras mensagens de carinho. A jovem agradeceu as manifestações na rede social. “NĂŁo estou conseguindo responder as pessoas porque nĂŁo tenho forças”, escreveu no Twitter.
“Uma das piores partes Ă© que ninguĂ©m pode ou quer vir me ver e dar um abraço, por causa da covid-19. VocĂŞs nĂŁo tĂŞm noção de como Ă© solitário”, desabafou Giulia na rede social — ela está com suspeita de covid-19 e aguarda o resultado do exame.
Por meio do Twitter, a jovem recebeu diversos relatos de pessoas que tambĂ©m perderam parentes para a covid-19, que já matou mais de 260,9 mil pessoas no paĂs.
Nas mensagens, muitos relataram a tristeza apĂłs a morte do ente querido em decorrĂŞncia do coronavĂrus.

Valéria e o marido, Carlos Abreu: casal estava junto havia mais de duas décadas — Foto: Arquivo pessoal
“Sinto muito pela sua perda. Essa foi a Ăşltima mensagem com a minha mĂŁe antes de ela ir pra UTI. Depois ela sĂł foi piorando. Hoje sĂł restam a saudade e um aperto no coração”, escreveu o universitário Kayk Cezarino, de 27 anos.
Na postagem, ele compartilhou mensagens de setembro passado, nas quais diz para a mãe que a ama e que a situação dela irá melhorar. Ela morreu dias depois, em decorrência da covid-19.
“Senti sua dor daqui! Perdi meu pai tambĂ©m (em razĂŁo da covid-19), vai fazer um mĂŞs! DĂłi muito, muito. É avassalador!”, escreveu uma outra jovem.
AlĂ©m de Giulia, ValĂ©ria tambĂ©m deixa outras duas filhas, uma jovem de 22 e uma garota de oito anos. “A minha mĂŁe era o meu porto seguro. NĂłs teremos que aprender a caminhar sem a segurança de ter alguĂ©m como ela para nos acolher”, lamenta a filha.
“Eu escolhi o caixĂŁo mais bonito que tinha para ela. Espero que ninguĂ©m mais tenha que passar por essa dor tĂŁo cedo na vida”, escreveu a jovem no Twitter.
(Foto: Reprodução)


