O nĂșmero de venezuelanos que solicitaram refĂșgio em Roraima cresceu 22.122% nos Ășltimos trĂȘs anos, revelam dados divulgados pela PolĂcia Federal no estado. SĂł no ano de 2016, mais de 2 mil venezuelanos foram Ă sede da PF em Boa Vista para pedir a condição de refĂșgio.

Venezuelanos aguardam atendimento em frente Ă PF em Boa Vista (Foto: Emily Costa/ G1 RR)
A PolĂcia Federal diz que em 2014 foram sĂł nove solicitaçÔes, enquanto que em 2015 o Ăndice foi para 230 e chegou a 2.230 em 2016. O aumento no nĂșmero de pedidos coincide com o agravamento da crise econĂŽmica no paĂs governado por NicolĂĄs Maduro.
Neste ano, o Ăndice de solicitaçÔes ainda deve dobrar: atĂ© março a PF jĂĄ tinha agendado 4 mil atendimentos de pedidos de refĂșgio atĂ© outubro. A polĂcia diz que quase 100% desses agendamentos foram feitos a venezuelanos.
O refĂșgio Ă© uma proteção legal para estrangeiros que sofram perseguição em seu paĂs de origem por motivos de raça, religiĂŁo, nacionalidade, grupo social ou opiniĂ”es polĂticas, ou ainda, que estejam sujeitos Ă grave e generalizada violação de direitos humanos.
Segundo a PF, apenas cinco das 2.230 solicitaçÔes feitas em 2016 foram analisadas e arquivadas pelo ComitĂȘ Nacional para os Refugiados (Conare), que decide pela concessĂŁo ou nĂŁo do refĂșgio. O G1 tentou contato com a assessoria do comitĂȘ, mas nĂŁo obteve retorno.
Os nĂșmeros sĂŁo fiĂ©is Ă realidade. Na sede da SuperintendĂȘncia da PolĂcia Federal em Boa Vista as filas de venezuelanos sĂŁo diĂĄrias e começam logo nas primeiras horas do dia.
A polĂcia estima que atĂ© 70 estrangeiros compareçam por dia na unidade no intuito de fazer o pedido. Desses, 98% sĂŁo venezuelanos que querem ficar no Brasil.
Na quinta-feira (8) Ă s 7h, jĂĄ era possĂvel ver mesmo de longe um extenso grupo de venezuelanos Ă espera da abertura do portĂŁo da sede da polĂcia, que ocorre sĂł Ă s 8h.
Ăs vezes, famĂlias inteiras vĂŁo ao local para solicitar o refĂșgio. Nos relatos deles, a crise econĂŽmica e a consequente falta de comida na Venezuela sĂŁo fatores comuns.
Uma venezuelana de 21 anos, a filha dela de 3 e a mĂŁe de 48 foram Ă PF na quinta-feira solicitar refĂșgio para permanecer em Roraima.
Antes moradores da cidade de Anaco, no estado AnzoĂĄtegui, Nordeste do paĂs, elas querem ficar em Roraima atĂ© que a crise venezuelana se amenize.
“Eu e minha filha de 3 anos estamos aqui hĂĄ quatro meses. Meu marido veio antes de nĂłs para trabalhar como mecĂąnico e depois nos trouxe. JĂĄ a minha mĂŁe veio tem 15 dias. Queremos morar em Roraima atĂ© que a situação melhore na Venezuela”, explica a jovem, que nĂŁo quis ter o nome divulgado.
A mĂŁe dela, que era cabeleireira no paĂs natal, diz que a falta de comida e o desemprego sĂŁo os fatores que mais tĂȘm feito os venezuelanos deixarem suas casas em busca de refĂșgio no Brasil.
“Estamos trocando de paĂs para comer. Queremos uma vida melhor”, desabafa. Ela conta que jĂĄ encontrou trabalho em Roraima e que pretende solicitar tambĂ©m a carteira de trabalho. “SĂł voltaremos para a Venezuela quando tudo voltar ao normal.”
Companheiro de fila, um venezuelano de 33 anos Ă© rĂĄpido em dizer porque veio para Roraima em busca de emprego.
“Eu era soldador em uma petrolĂfera venezuelana hĂĄ seis meses. Um dia meu salĂĄrio atrasou e eu disse ao meu patrĂŁo que nĂŁo dava mais para comer na Venezuela. Ele me demitiu de imediato. LĂĄ nĂŁo se pode falar mal do governo, mas a verdade Ă© que no governo Maduro tudo se acabou”, afirma. Ele tambĂ©m nĂŁo quis ter a identidade divulgada.
Hoje, vendendo flores em um sinal de Boa Vista, ele diz que quer se regularizar no Brasil para trazer, em breve, para Roraima, a mulher e os dois filhos que continuam morando em Caracas, capital do paĂs.
“Eu tinha casa e dois carros na Venezuela, mas quando fui demitido tive de vender um dos meus veĂculos para conseguir vir para o Brasil. SĂł voltarei para Caracas se um dia a vida lĂĄ melhorar”, finaliza.
Fronteira entre Brasil e Venezuela
A fronteira entre Brasil e Venezuela fica no Norte de Roraima e, desde o agravamento da crise econÎmica venezuelana, o estado vive um boom de imigração considerado histórico.
O trĂĄfego entre os dois paĂses Ă© praticamente livre. No final do ano passado, no entanto, o acesso foi fechado por ordem de Maduro no intuito de combater as mĂĄfias que fazem contrabando de bolĂvares.
Com o bloqueio da estrada que liga os dois paĂses, centenas de pessoas estavam cruzando a fronteira a pĂ© de forma clandestina, tanto para comprar comida em Pacaraima, cidade brasileira, quanto para fugir da Venezuela. A fronteira foi reaberta em 7 de janeiro deste ano.
AlĂ©m de buscarem postos formais de trabalho em Roraima, muitos imigrantes sobrevivem de trabalhos informais ou atĂ© pedindo esmolas. Alguns vĂȘm apenas em busca de tratamento mĂ©dico, o que levou o estado a decretar emergĂȘncia na SaĂșde.
Devido ao elevado nĂșmero de venezuelanos morando nas ruas de Boa Vista, um abrigo foi improvisado pelo governo e agora o estado tenta integrar Ăndios da etnia venezuelana Warao com grupos indĂgenas nativos.

