Meio século após fazer história nas telas nacionais, um dos maiores marcos do cinema brasileiro inicia uma nova jornada no circuito comercial. O longa-metragem Xica da Silva (1976), dirigido por Cacá Diegues, volta a ser exibido nos cinemas de todo o país a partir desta quinta-feira (16) em uma inédita versão restaurada em altíssima definição (4K).
A iniciativa integra o projeto Sessão Vitrine Petrobras, que tem como propósito reinserir no circuito de exibição produções fundamentais para a história da cinematografia brasileira, permitindo o acesso de novas gerações a clássicos restaurados.
Lançado originalmente em 1976, o filme de Cacá Diegues revolucionou a representação cinematográfica da personagem histórica Chica da Silva. Mulher negra escravizada no século 18, ela conquistou sua alforria e ascendeu a uma posição de inédito prestígio na sociedade do Distrito Diamantino, em Minas Gerais.
Além do sucesso crítico e de representar o país em festivais internacionais, o longa-metragem arrastou mais de 3,1 milhões de espectadores aos cinemas na década de 1970 e consolidou definitivamente a atriz Zezé Motta como um dos principais nomes do audiovisual no Brasil.
A nova cópia em 4K foi apresentada ao público na noite de segunda-feira (14), na Sala José Wilker, no Rio de Janeiro. A pré-estreia foi marcada por homenagens a Cacá Diegues, falecido no ano passado, e contou com a presença da protagonista Zezé Motta, muito aplaudida e ovacionada pelos presentes.
“A minha emoção é muito grande. Quero agradecer a presença de todos. É muito bom saber que, 50 anos depois, todo mundo continua interessado nesse filme”, declarou a atriz.
A produtora Renata Almeida Magalhães, primeira mulher eleita presidente da Academia Brasileira de Cinema e viúva do cineasta, recordou o impacto de assistir ao longa pela primeira vez aos 15 anos. Ela destacou a atemporalidade da narrativa:
“Ele continua sendo um filmaço, um filme totalmente atual sobre o Brasil e suas ambiguidades. O Cacá o definia como o ‘filme escola de samba’ de sua carreira por ser popular, algo que ele adorava”, lembrou.
A coordenação técnica do restauro digital ficou a cargo da pesquisadora Débora Butruce. De acordo com a especialista, o processo minucioso buscou reverter as marcas de desgaste físico da película original sem interferir na essência artística do filme.
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O conceito da restauração: “Restaurar não é melhorar a obra. É recuperar o que o tempo e as más condições de preservação causaram, trazendo de volta toda a potencialidade estética original”, explicou Butruce.
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Fim do preconceito: A coordenadora defende ainda que a exibição de cópias recuperadas ajuda a combater o estigma sobre as produções nacionais. “Essas restaurações mostram os filmes da mesma forma como foram exibidos há 50 anos e desconstroem a ideia de que o cinema brasileiro clássico é tecnicamente precário.”
Durante o evento, os realizadores recordaram a ligação umbilical de Xica da Silva com os desfiles de Carnaval. A ideia do filme nasceu em 1963, quando Cacá Diegues assistiu ao célebre desfile do Acadêmicos do Salgueiro em homenagem à personagem histórica.
A relação ganhará um novo capítulo na Marquês de Sapucaí: a escola de samba confirmou que voltará a adotar Chica da Silva como enredo oficial para o desfile de 2027. Integrantes do Salgueiro participaram da pré-estreia e prestaram homenagens a Zezé Motta na sala de cinema.
