Peritos investigam se ponte caiu por movimentação de terra ou falha estrutural

Polícia Civil terá 10 dias após a entrega dos exames de laboratório para apontar as causas do desabamento

Por Fhagner Soares, ContilNet 06/06/2026 às 14:18
Polícia Civil faz teste de esclerometria para medir resistência de pilar que cedeu/ Foto: Gleison Junior/ Orna Audiovisual

Uma equipe técnica do Instituto de Criminalística da Polícia Civil do Estado do Acre iniciou a varredura de campo nos escombros da ponte Padre Paolino Baldassari, em Sena Madureira, para coletar as provas que vão compor o laudo pericial oficial sobre o colapso da estrutura. Em entrevista concedida diretamente do local do acidente, os peritos criminais Halley Márcio Vilas Boas da Costa e João Thiago detalharam os primeiros procedimentos da engenharia legal e destacaram o método de trabalho adotado na cena.

Peritos investigam se ponte caiu por movimentação de terra ou falha estrutural

Perito identifica 27 vestígios e investiga se concreto fraco derrubou ponte no Acre/ Foto: Gleison Junior/ Orna Audiovisual

De acordo com Halley Márcio, a triagem técnico-científica preliminar resultou no isolamento de dezenas de elementos materiais na área afetada.

“De acordo com a filtragem técnica, dentre os 27 vestígios que nós levantamos e com a condicionamento de laudos e de análises laboratoriais, que é a esclerometria e a questão do laudo geotécnico e a parte estrutural da ponte, nós vamos estudar essas duas linhas investigativas”, explicou o perito criminal.

A primeira constatação visual realizada pelos peritos aponta que, das duas pilastras centrais de sustentação da ponte, apenas uma apresentou deslocamento físico em seu bloco de coroamento — a estrutura de concreto que une a parte superior das estacas fundadas no solo.

“Nós sabemos que, das duas pilastras, somente uma teve um deslocamento do seu bloco de coroamento. Aí esses laudos vão balizar para nós, esses a análise laboratoriais e análise estruturais e de projeto, a gente já saber se esse deslocamento foi devido ao recalque diferencial da margem do rio ou foi por questão de falha estrutural na execução da ponte”, detalhou Halley Márcio.

Para decifrar o que causou o colapso, o Instituto de Criminalística submeterá a estrutura a ensaios não destrutivos, método que preserva a integridade física atual das peças e pilares de concreto para a realização de exames de compressão.

“É por isso que a gente vai pedir os ensaios não destrutivos. Por que que a gente vai usar o não destrutivo? Porque nós vamos preservar a integridade do pilar como ele foi estabelecido e vamos fazer exames através de uma parceira, que que vamos convidá-las, para fazer essa essa análise. O perito vai acompanhar e a gente vai fazer um ensaio não destrutivo para saber a resistência do concreto”, afirmou o investigador.

O perito detalhou a lógica matemática que guiará a equipe para atestar a qualidade dos materiais empregados na obra de R$ 36 milhões:

Peritos investigam se ponte caiu por movimentação de terra ou falha estrutural

Halley Márcio detalha o uso de exames não destrutivos para checar se a estrutura cumpria as metas de resistência/ Foto: Gleison Junior/ Orna Audiovisual

“Se for balizado, concluído a resistência inferior ao de projeto, nós temos a primeira linha de investigação, que seria a falha estrutural. Se não foi essa questão da compressão, da resistência do concreto, nós temos os laudos geotécnicos, laudos de sondagem, que nós temos todos aqui, vamos analisar essa movimentação se ela interferiu na parte estrutural. Mas, das duas pilastras, nós temos certeza, 100%, de que não o bloco de coroamento de uma estava estável, não houve recenticidade de movimentação para aquele bloco. O outro bloco é que fica dentro dessas duas linhas de investigações que vão finalizar com essas análises geotécnicas dentro da engenharia legal do Instituto de Criminalística pelos peritos criminais.”

O papel dos peritos será avaliar como a carga do tabuleiro da ponte — projetada para suportar o tráfego urbano e de veículos pesados — comportou-se diante do estresse físico que antecedeu o colapso.

“Nós sabemos que aqui nós temos o tabuleiro da ponte onde ela tem tem uns tráfegos. Tráfego de veículos, tráfego de carretas, de de veículos, de pessoas? Então dá aquela carga. Então aquela carga, ela é uma carga de projeto. Essa carga de projeto tem que ser, através das vigas com o consolo, o tabuleiro joga nos pilares. Esses pilares têm que estar dimensionados junto com a fundação, que é o bloco de coroamento, estaca, eles têm que estar dimensionados para suportar essa carga. Aí o projeto vai dar, por exemplo, 40 MPa e, no ensaio de esclerometria, ele der 20 MPa, então a gente sabe que houve uma falha estrutural. Mas se foi 40 de projeto e, pelo ensaio de esclerometria, que é um ensaio não destrutivo, der 40 ou superior, então a gente descarta essa possibilidade e vamos mais a fundo na questão geotécnica, questão de solo”, argumentou Halley Márcio.

Peritos investigam se ponte caiu por movimentação de terra ou falha estrutural

Polícia Civil terá 10 dias após a entrega dos exames de laboratório para apontar as causas/ Foto: Gleison Junior/ Orna Audiovisual

A equipe relembrou que a dinâmica geográfica da região é um fator conhecido na região Norte, visto que as margens costumam apresentar instabilidade natural.

“Nós sabemos que realmente há um movimento significativo de terra aqui na nas margens…Por ser um rio de formação nova… Está em formação ainda. Consequentemente, a gente não descarta essa possibilidade, mas vamos, de forma científica, saber o que essa movimentação, possível movimentação de terra, interferiu na parte estrutural, sabendo que é bloco de coroamento com estacas.”

Os investigadores não descartam que fatores técnicos e dinâmicas ambientais tenham agido em conjunto para sobrecarregar a estrutura.

“Exatamente, a gente pode chegar no meio do percurso técnico-científico e a gente ver que uma concorreu para a outra, não é isso? Então a gente não descarta. Mas as duas linhas de investigações são essas, e nós temos análises pontuais da origem do evento. Que a gente a chama até de de incidente. Que a gente não sabe se foi acidente, mas foi um incidente. A gente vai analisar qual foi a causa: se foi a causa humana, causa natural ou a causa técnica, como a gente fala no meio técnico-científico”, acrescentou.

O prazo legal estabelecido para a entrega do laudo conclusivo com a dinâmica do incidente dependerá do retorno dos exames laboratoriais encomendados.

“É, nós precisamos, necessitamos desses dessas análises laboratoriais, em conjunto com a perícia, para que nós, eh, desaguemos, essa esses laudos, essas análises laboratoriais com a perícia. Chegou, a gente tem 10 dias para entregar o laudo respectivo com a conclusão, com a dinâmica, qual foi a causa ou causas para o evento”, finalizou o perito criminal.

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