02/08/2026

Mapeamento a laser descobre civilização perdida de 3 milhões de pessoas na divisa do Acre

Levantamento publicado na revista Nature utilizou tecnologia de varredura a laser sobre a floresta

Por Fhagner Soares, ContilNet
Sociedade viveu na região entre 600 a.C. e 850 d.C. e causa do seu desaparecimento permanece em aberto/ Foto: Reprodução

Um mapeamento aéreo com tecnologia a laser revelou a existência de mais de 400 sítios cerimoniais construídos pela civilização Aquiry em um território de 183 mil quilômetros quadrados situado na divisa entre os estados do Acre e do Amazonas. O estudo, coautorado por cientistas brasileiros e publicado na revista científica Nature, aponta que a região abrigou uma população estimada entre 1,25 milhão e 3 milhões de habitantes entre os anos 600 a.C. e 850 d.C.

A descoberta revoluciona o conhecimento histórico sobre o povoamento da Amazônia. O nome dado ao povo ancestral deriva do termo indígena que batizou o rio Acre.

Os vestígios identificados consistem em geoglifos — figuras geométricas desenhadas no solo compostas por valas de metros de profundidade —, interligados por estradas retas. Os pesquisadores projetam que a região possa abrigar mais de 20 mil estruturas do gênero, superando estimativas anteriores para toda a bacia amazônica.

As estruturas sepultadas sob a vegetação foram identificadas por meio da tecnologia Lidar, equipamento de varredura a laser capaz de atravessar a copa das árvores e gerar modelos tridimensionais do relevo. A maior das áreas mapeadas cobre 50 hectares, dimensão equivalente a 70 campos de futebol.

“O que mais nos surpreendeu foi o número extraordinariamente elevado de geoglifos e outras construções de terra encontradas em uma área que representa menos de 3% da Grande Amazônia”, afirmou o arqueoantropólogo Martti Pärssinen, da Universidade de Helsinque (Finlândia), autor principal do artigo.

As evidências indicam que os Aquiry formavam uma rede de comunidades autônomas integradas, sem uma liderança centralizada única. Os espaços serviam para tomadas de decisões políticas, trocas entre grupos, banquetes, jogos e rituais. O antropólogo e indígena brasileiro Francisco Apurinã, participante da pesquisa, ressalta que seu povo no Acre reconhece esses monumentos como “kymyrury”, ou “casas para os espíritos”.

A pesquisa revelou também que os Aquiry alteraram profundamente a paisagem vegetal. A civilização realizava queimadas controladas em matas de bambu para o cultivo de culturas como milho, mandioca e abóbora, além de favorecer a propagação de espécies de árvores de interesse comunitário.

A despeito da dimensão do território e do impacto ambiental e cultural, o motivo do desaparecimento dessa sociedade permanece sem resposta conclusiva. Os indícios apontam que o declínio dos Aquiry ocorreu entre os anos 850 e 1000 d.C. — período contemporâneo ao colapso da civilização maia na América Central —, deixando em aberto as razões para o abandono dos centros cerimoniais.

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