Desabamento de ponte em Sena Madureira: veja o que se sabe até agora

ContilNet foi até o município acompanhar os desdobramentos

Por Maria Fernanda Arival, ContilNet 06/06/2026 às 17:10

Parecia uma sexta-feira comum, mas o que aconteceu no início da noite mudou o rumo da vida de milhares de pessoas, principalmente aquelas mais afetadas pelo ocorrido. Em Sena Madureira, no interior do Acre, a ponte Frei Paolino Baldassari, inaugurada no final de 2023, que estava interditada desde quinta-feira (4), cedeu.

O barulho, o tremor da terra e as notícias assustaram moradores da cidade, do Acre e do Brasil. Com as informações oficiais, foi confirmado que quatro pessoas ficaram feridas: o juiz aposentado Edinaldo Muniz dos Santos, 54 anos; o engenheiro e irmão de Edinaldo, Ednei Muniz dos Santos, 51 anos; e moradores da região Antonio Morais Lima Filho, 36 anos; e Weverton Murieta, 34 anos.

Assim que soube do acontecido, a governadora Mailza Assis se deslocou para o município, junto com diversos secretários de Estado, para acompanhar de perto a situação. O ContilNet também foi até Sena Madureira e, em entrevista ao portal, a governadora explicou que a empresa responsável pela construção da ponte deverá ser responsabilizada pelo desabamento da estrutura ocorrido no início da noite.

“A empresa é totalmente responsável pela obra. A obra está em período de garantia”, declarou Mailza. — Foto: ContilNet

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Durante entrevista concedida após o acidente, a governadora destacou que a obra ainda estava dentro do período de garantia e que a construtora já foi acionada para acompanhar a situação e adotar as providências necessárias.

Ponte maria

Novo ângulo mostra destruição após queda de ponte/Foto: Gleison Junior/ Orna Audiovisual

Vítimas

Após o resgate, as quatro vítimas foram encaminhadas ao hospital. Weverton foi atendido no Hospital João Câncio Fernandes, em Sena Madureira, enquanto os demais foram transferidos para Rio Branco. O juiz aposentado Edinaldo Muniz precisou ser intubado.

Confira o último boletim de saúde enviado na manhã deste sábado:

  • Edinaldo Muniz dos Santos, 54 anos – Permanece internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Pronto-Socorro de Rio Branco. O paciente apresenta quadro gravíssimo, em pós-operatório de cirurgia para correção de fratura pélvica, além de traumatismo cranioencefálico grave. Segue sob ventilação mecânica e monitoramento contínuo da equipe multiprofissional.
  • Ednei Muniz dos Santos, 51 anos – Apresenta quadro clínico estável, em ar ambiente. O paciente, que se encontra internado no Pronto-Socorro de Rio Branco, sofreu fratura de antebraço e segue internado, com programação cirúrgica em andamento.
  • Antônio Morais Lima Filho, 36 anos – Apresenta quadro clínico estável, em ar ambiente. O paciente sofreu fratura de fêmur e permanece sob acompanhamento das equipes assistenciais do Pronto-Socorro, com programação cirúrgica em andamento.
  • Weverton Murieta, 34 anos – Após avaliação médica, realização de exames e atendimento dos ferimentos apresentados, recebeu alta hospitalar neste sábado, 6, por apresentar quadro clínico estável.

Moradores de Sena Madureira

Após o desabamento, o presidente do bairro Segundo Distrito, Raimundo Nonato, conhecido como Louro do 2º Distrito, denunciou neste sábado (6), em entrevista ao ContilNet, que a catraia disponibilizada pela Prefeitura para garantir a travessia dos moradores pelo Rio Iaco estaria em condições precárias.

A ponte já havia sido interditada um dia antes do desabamento e, assim que a interdição ocorreu, a situação foi comunicada à administração municipal.

“Quando aconteceu esse problema, eu comuniquei ao secretário da Sensur e ele colocou uma catraia provisória. Só que a catraia está bastante deteriorada, está quebrada, está furada, não está funcionando direito”, afirmou.

Presidente I

Raimundo Nonato/Foto: Gleison Junior/ Orna Audiovisual

De acordo com Louro, três pessoas são necessárias para operar a embarcação: uma para retirar a água que entra na catraia, outra responsável pelo motor e uma terceira para auxiliar na travessia durante a noite.

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Além disso, moradores do Segundo Distrito de Sena Madureira cobram a instalação de uma balsa para garantir a travessia após o desabamento da ponte. A comunidade afirma que pode fechar a BR-364 caso não haja uma solução emergencial para o problema.

O presidente do bairro, Raimundo Nonato, disse que a população ficou revoltada com a situação e voltou a enfrentar dificuldades de locomoção entre o Segundo e o Primeiro Distrito.

Ponte que liga o Primeiro ao Segundo Distrito de Sena caiu na última sexta-feira/Foto: Gleison Junior/Orna Audiovisual

“Sonho foi por água abaixo”

A queda da ponte mudou drasticamente a rotina de moradores do Segundo Distrito e voltou a expor problemas antigos da região, como o risco de deslizamentos e a vulnerabilidade de famílias que vivem às margens do rio.

Ponte Frei Paolino Baldassari/Foto: Gleison Junior/Orna Audiovisual

Um dos moradores mais antigos da comunidade, Toinho Apolinário, o “Toninho”, acompanhou de perto os impactos da tragédia e se emocionou ao falar sobre a situação. Ele afirma que a ponte representava um sonho antigo da população local, agora interrompido, mas diz que a comunidade não pretende desistir de lutar por melhorias.

“Nós não vamos desistir de lutar por dias melhores para nossa geração futura, para nossos filhos e para a população em geral, que são mais de 2 mil famílias do bairro de Niterói, do São Francisco, do Quintal Florestal e de centenas de comunidades vizinhas. Estamos nessa situação novamente, voltamos para a antiga catraia e torcemos para que as nossas autoridades tomem as devidas providências. Aqui ninguém está atrás de culpados. O que nós queremos é que a solução seja resolvida, porque essa ponte ainda está na garantia”, completou.

Toinho

Toinho Apolinário/Foto: Reprodução

Após a queda da ponte, uma nova fissura nas proximidades da cabeceira da ponte tem causado preocupação nos moradores da região.

Toinho destacou que já havia denunciado a situação. “Eu sei esse solo daqui. Aqui fez uma lua, a terra aqui quebrou e levou todo esse peso desse barro da estrutura para cima da ponte. É tanto que a ponte foi para o lado do Primeiro Distrito, jogou para lá. Eu gostaria que as nossas autoridades viessem aqui, Corpo de Bombeiro, Defesa Civil, viesse aqui no Segundo Distrito, olhasse para as família que estão em risco”, disse o morador.

Toinho explicou que casas da região próxima a ponte tiveram os esteios arrancados. “Casas estão aqui penduradas, pessoas, famílias que não tem para onde ir. Estão correndo o mesmo risco que essa ponte correu e pior é que são vidas que estão em jogo. De ontem para cá, ela aumentou mais ainda a rachadura e está desmoronando, só que a natureza vai lentamente. Esse solo aqui é muito frágil”, explicou.

Casas na região da ponte em Sena correm risco

Casas na região da ponte em Sena correm risco/Foto: Gleison Junior/Orna Audiovisual

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Imagens registradas pelo ContilNet mostram a situação das casas após a estrutura da ponte cair. “Que a Defesa Civil, e governo do estado, prefeitura venha aqui, faça o levantamento, tire esse pessoal antes que o pior aconteça. Tem canto aqui que dá mais de 50 cm de queda do barranco, desmoronou, desmoronou tudo isso aqui e ainda está se agravando, tá caindo ainda, o barranco está cedendo”, disse.

Rachaduras aumentaram após queda da ponte em Sena

Rachaduras aumentaram após queda da ponte em Sena/Foto: Gleison Junior/Orna Audiovisual

O forte estrondo e a movimentação repentina da área provocaram pânico e deixaram um rastro de medo na comunidade.

Entre as testemunhas está Maria José, 68 anos, moradora do local há 39 anos. Há menos de dois anos, ela construiu um bar ao lado da ponte, onde estava no momento do desabamento. Ela relata que ouviu um barulho muito forte e, em seguida, viu a estrutura cair, o que gerou correria e desespero entre clientes e moradores.

Maria

Maria José, 68 anos, moradora do local há 39 anos/Foto: Gleison Junior/ Orna Audiovisual

“Quando eu ouvi a zoada, pensei que era alguém aqui do bar até brigando, assim, né, uma briga. Mas era a ponte, eu só vi o fumaceiro. Aí eu só fiz gritar e fiquei. Aí vieram meus filhos que estavam ali na frente, minha nora também. Aí ficou todo mundo desesperado. O pessoal ficava tudo gritando aqui, né? Foi aquele momento de choque, né? Pra todo mundo, aquele momento de choque”, disse.

Investigação

Uma equipe técnica do Instituto de Criminalística da Polícia Civil do Estado do Acre iniciou a varredura de campo nos escombros da ponte Padre Paolino Baldassari, em Sena Madureira, para coletar as provas que vão compor o laudo pericial oficial sobre o colapso da estrutura.

Em entrevista concedida diretamente do local do acidente, os peritos criminais Halley Márcio Vilas Boas da Costa e João Thiago detalharam os primeiros procedimentos da engenharia legal e destacaram o método de trabalho adotado na cena.

Ponte desabou na noite de sexta/Foto: Gleison José/ContilNet

 

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De acordo com Halley Márcio, a triagem técnico-científica preliminar resultou no isolamento de dezenas de elementos materiais na área afetada.

“De acordo com a filtragem técnica, dentre os 27 vestígios que nós levantamos e com a condicionamento de laudos e de análises laboratoriais, que é a esclerometria e a questão do laudo geotécnico e a parte estrutural da ponte, nós vamos estudar essas duas linhas investigativas”, explicou o perito criminal.

Peritos investigam se ponte caiu por movimentação de terra ou falha estrutural

Polícia Civil faz teste de esclerometria para medir resistência de pilar que cedeu/ Foto: Gleison Junior/ Orna Audiovisual

Segundo o perito, uma outra parte da ponte tem riscos de cair.

“Como nós temos uma estrutura homogênea, onde ela é sólida, então toda movimentação que teve no tabuleiro inicial do Segundo Distrito e no tabuleiro central, fez com que houvesse alteração nas pilastras do Primeiro Distrito, que estão fissuradas, mostrando que há possibilidade de também colapsar para o leito do rio”, explicou.

Equipes do Departamento de Estradas de Rodagem, Infraestrutura Hidroviária e Aeroportuária (Deracre), Corpo de Bombeiros Militar do Acre (CBMAC) e de outras áreas também foram para Sena Madureira. No município, a presidente do Deracre, Sula Ximenes, destacou que a região deve receber novas sinalizações.

“Isso oferece todo o risco, primeiro pedimos que as pessoas tenham consciência e isolem essa parte, esqueçam essa passagem por enquanto”, disse Sula.

Sula, presidente do Deracre, em Sena Madureira/Foto: Gleison Junior/Orna Audiovisual

A presidente do Deracre explicou que novos tapumes serão colocados para fechar os dois lados.

“Nós vamos colocar tapumes, vamos fechar completamente tanto esse lado como o outro e vamos colocar sinalização também no rio dos dois lados para que não aconteça nenhum acidente naquele bloco de concreto que caiu ali no meio do rio”, destacou.

A ponte estava interditada quando desabou/Foto: Gleison Junior/Orna Audiovisual

Sula também explicou que a empresa responsável pela construção da ponte deve chegar ao município na próxima segunda-feira (8) para realizar uma vistoria técnica e iniciar a apuração das causas do acidente.

Com o desabamento da estrutura, os destroços da ponte ficaram no Rio Iaco, bloqueando o tráfego de embarcações. Em entrevista ao ContilNet, Sula disse que a autarquia pediu urgência na retirada dos destroços.

A ponte desabou na última sexta-feira | Foto: Gleison Junior/Orna Audiovisual

“Nessa reunião que nós vamos ter na terça-feira, nós já vamos poder passar para a população todas as providências que serão tomadas com relação a essa ponte que é de grande utilidade para Sena Madureira”, disse.

O Ministério Público do Acre (MPAC) instaurou procedimentos nas esferas criminal e administrativa para apurar eventuais responsabilidades pelo desabamento da ponte. A informação foi confirmada neste sábado (6) pela promotora de Justiça Júlia Fernandes, em entrevista ao ContilNet.

Júlia é promotora do MPAC/Foto: Gleison José/ContilNet

Segundo a representante do MP, além da investigação sobre as causas da queda da estrutura, a principal preocupação das autoridades neste momento é garantir a segurança dos moradores, já que ainda há risco nas áreas próximas às cabeceiras da ponte.

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