Marcada por tragédia, Velho Chico termina melancólica e sombria

O ator Antonio Fagundes em Velho Chico; loucura de Afrânio o leva ao desespero  - Reprodução/TV Globo

O ator Antonio Fagundes em Velho Chico; loucura de Afrânio o leva ao desespero – Reprodução/TV Globo

À beira da loucura, Afrânio (Antonio Fagundes) se atira no rio São Francisco em busca do filho Martin (Lee Taylor). Desesperado, começa a ter alucinações. Despido da polêmica peruca que o acompanhou durante quase toda Velho Chico, em uma sequência claramente quixotesca, o coronel trava uma batalha com o personagem de si mesmo, o Saruê, e termina lutando contra um gerador eólico, tal qual o moinho de vento de Dom Quixote no clássico de Miguel de Cervantes.

Marcada pela atuação irretocável de Fagundes, a cena exibida na terça-feira (27) diz muito sobre Velho Chico. De uma beleza única, talvez uma das coisas mais lindas já vistas na televisão, a sequência carregou, do começo ao fim, a melancolia típica da novela ao retratar o desespero do pai que tenta a todo custo o perdão do filho já morto.

Embora conte com uma direção visualmente incrível, Velho Chico marcou em sua trajetória um misto de tristeza, aridez e uma fatalidade que embaralhou a ficção e a realidade. Todo o encantamento da narrativa que existia na primeira fase da história foi aos poucos desfeito na transição para sua segunda parte. A melancolia ganhou espaço na reta final.

O amor proibido de Santo (Renato Góes/Domingos Montagner) e Maria Tereza (Julia Dalavia/Camila Pitanga) cedeu lugar à tristeza dos personagens separados por Afrânio (Rodrigo Santoro/Fagundes). A aridez da temática política e da questão ambiental, com o rio São Francisco cada vez mais seco e servindo também de personagem, contribuiu para a sensação de baixo astral da história de Benedito Ruy Barbosa.

Tal clima se deu, muito em partes, por conta da composição de seus personagens em meio a uma história épica no sertão. O rancor de Encarnação (Selma Egrei), a busca de Martin para reencontrar seus antepassados, o enclaustro de Iolanda (Christiane Torloni) em uma família marcada pela separação e pela distância de seus pares e as visões sobrenaturais de Ceci (Luci Pereira) são exemplos do quanto a novela pendeu para o sombrio.

Para piorar, não havia uma respiro cômico à história, concentrada na trama central de Santo e Tereza, encoberta pela disputa de poder e politicagens nos rincões nordestinos.

Domingos Montagner em cena na qual Santo foi encontrado após desaparecer no rio

Ironicamente, o rio que Velho Chico defende também foi o responsável por tirar de cena o ator que dava vida ao personagem mais pra cima da novela. Santo não teve uma vida fácil, viu o pai morrer para defender o amor do filho por Tereza, enfrentou as artimanhas do poder do coronel Saruê, mas conservava uma alegria quase que única na história central.

A tragédia da morte de Domingos Montagner deixou o que era para ser só ficção real demais. O drama da perda do ator misturou-se à narrativa e fez pesar sobre ela um dos momentos mais tristes da televisão brasileira. Velho Chico perdeu o encanto, e a partida repentina do protagonista abalou público e equipe.

Sem ele, a solução para dar continuidade às cenas que Montagner não chegou a gravar foi o uso de uma câmera subjetiva, com a qual o público pôde acompanhar a história sob a perspectiva de Santo, com falas retiradas de outros momentos da novela.

Foi uma maneira criativa e poética de homenageá-lo, mas também muito angustiante. O olhar de Camila Pitanga para a câmera, sem dúvida, foi o mais tocante: emocionante e verdadeiro, mas de uma tristeza singular.

Para compensar o peso da narrativa, a direção de Luiz Fernando Carvalho trouxe um colorido atemporal e atípico para a agrura do Nordeste retratado. Sofreu críticas pesadas ao figurino, mas é inegável a sensibilidade visual e artística do diretor. Sem isso, a novela poderia ser ainda mais sombria. A escolha da trilha sonora, uma das melhores dos últimos tempos, também contribuiu para elevar um pouco o clima do folhetim.

Fora isso, o elenco fez por merecer elogios. Selma Egrei esteve magnânima nas duas fases. Antonio Fagundes ganhou força no final e Christiane Torloni, apesar de subaproveitada durante boa parte da história, encontrou a composição correta para Iolanda, em uma atuação sensível e inédita para sua carreira na televisão.

Velho Chico escondeu um brilho dentro de uma história triste, na ficção e, principalmente, na vida real.

PUBLICIDADE

Bloqueador de anuncios detectado

Por favor, considere apoiar nosso trabalho desativando a extensão de AdBlock em seu navegador ao acessar nosso site. Isso nos ajuda a continuar oferecendo conteúdo de qualidade gratuitamente.