
âMartĂrio de Tiradentesâ (Ăłleo sobre tela de Francisco AurĂ©lio, 1893)
Celebrado nacionalmente em 21 de abril, o feriado de Tiradentes foi instituĂdo hĂĄ 52 anos atravĂ©s da Lei nÂș 4.897, durante a presidĂȘncia do marechal Castelo Branco (1897 â 1967) na primeira fase do regime militar no Brasil (1964-1985).
NĂŁo apenas instituiu-se o feriado por meio desta lei, mas tambĂ©m declarou Joaquim JosĂ© da Silva Xavier (1746-1792), popularmente conhecido como âTiradentesâ, patrono cĂvico da Nação Brasileira.
O atual patrono cĂvico do Brasil tornou-se, anos apĂłs sua morte, o mĂĄrtir da InconfidĂȘncia Mineira, rebeliĂŁo abortada pelo governo colonial em 1789, durante o ciclo do ouro, na entĂŁo capitania de Minas Gerais.
Origem da InconfidĂȘncia
No final do sĂ©culo XVIII, o Brasil ainda era uma colĂŽnia de Portugal, sofrendo com abusos polĂticos e cobranças de altas taxas e impostos, alĂ©m de prejudicar, com uma sĂ©rie de leis, o desenvolvimento industrial e comercial brasileiro.
Na regiĂŁo de Minas Gerais, com a grande extração de ouro, os brasileiros que encontravam o material eram obrigados a pagar o âquintoâ (20% de todo outro encontrado), que acabava indo para os cofres portugueses.
Isso resultou em uma diminuição do ouro nas minas â mas nĂŁo das cobranças portuguesas, tendo sido criada nesta Ă©poca a âderramaâ, quando cada regiĂŁo deveria pagar 100 arrobas de ouro (1500 quilos) por ano para a metrĂłpole. Quando a regiĂŁo nĂŁo conseguia cumprir estas exigĂȘncias, soldados da Coroa entravam nas casas das famĂlias para retirarem os pertences atĂ© completar o valor devido.
Gerando uma insatisfação popular, principalmente na classe de proprietĂĄrios rurais, intelectuais, clĂ©rigos e militares mineiros, teve inĂcio a conspiração para conquistar a liberdade definitiva e implantar o sistema de governo republicano no paĂs, ou pelo menos em Minas Gerais, inspirado pelos ideais iluministas e pela IndependĂȘncia dos Estados Unidos (1776).
Entretanto, a conspiração foi descoberta em 1789 com a traição de Joaquim SilvĂ©rio dos Reis (1756-1819), que traiu os inconfidentes para quitar suas dĂvidas com a coroa portuguesa. Os lĂderes do movimento foram detidos e enviados para o Rio de Janeiro.
Durante o inquĂ©rito judicial, todos negaram participação no movimento, menos o alferes Joaquim JosĂ© da Silva Xavier, que assumiu a responsabilidade de chefia. Em 18 de abril de 1792 foi lida a sentença no Rio de Janeiro: os 12 inconfidentes foram condenados Ă morte. Contudo, em audiĂȘncia no dia seguinte, por decreto de Maria I de Portugal, todos (menos Tiradentes) tiveram as penas alteradas.

Tiradentes esquartejado (Pedro Américo, 1893).
Em 21 de abril do mesmo ano, apĂłs percorrer uma procissĂŁo pelas ruas do Rio de Janeiro, Tiradentes foi executado e esquartejado, tendo ele e sua descendĂȘncia sido declarados âinfamesâ.
âPara que comemorar?â
225 anos apĂłs a execução pĂșblica de Tiradentes, a figura histĂłrica tornou-se mĂĄrtir da InconfidĂȘncia Mineira. Esquecido ao longo do perĂodo imperial, ele foi relembrado durante o perĂodo republicano pelos positivistas, que, ao personificarem nele uma identidade republicana brasileira, criaram a imagĂ©tica tradicional de Joaquim: barba, cabelo comprido e camisolĂŁo branco â imagem que remete Ă figura de Jesus Cristo.
O escritos francĂȘs Marcel Jouhandeau (1888-1979) destaca que: âPara suportar a prĂłpria histĂłria, cada um acrescenta-lhe um pouco de lendaâ, pois Ă© exatamente nesse quesito que entram diĂĄlogos entre historiadores sobre a InconfidĂȘncia, Tiradentes e o real motivo do feriado de 21 de abril.
Historiadores como Francisco de Assis Cintra (1897-1953) e o brasilianista Kenneth Maxwell procuram diminuir a importĂąncia de Tiradentes, enquanto autores mineiros como Oilian JosĂ© (1921-2017) e Waldemar de Almeida Barbosa (1907-2000) procuram ressaltar a sua importĂąncia histĂłrica e seus feitos, baseando-se, especialmente, em documentos no Arquivo PĂșblico Mineiro.
Daniel Klein, historiador e professor do curso de História da Universidade Federal do Acre (Ufac) hå oito anos (desde 2009), também levanta o questionamento sobre o processo de mistificação histórica.
âA chamada InconfidĂȘncia Mineira Ă© uma sublevação que nĂŁo foi um movimento isolado: existiram vĂĄrias revoltas contra o poder colonial, e eu diria atĂ© que essas sublevaçÔes continuaram no Brasil ImpĂ©rio. Qual o motivo de nĂŁo haver tanto destaque, por exemplo, para Pernambuco e a Revolução Praieira (1848-1850)?â, questiona Daniel.
Com o histórico de rebeliÔes do Brasil, por que celebra-se uma em detrimento de outras? A resposta aponta para a criação de um mito, celebrado por vårios anos e que esconde, entre as camadas de ressignificação histórica, certos meandros de poder.
A mitificação tambĂ©m Ă© criticada pelo historiador, pois surge de um processo no qual nĂŁo hĂĄ uma apuração precisa das informaçÔes: âAo transformar pessoas em herĂłis, vocĂȘ acaba retirando parte da prĂłpria histĂłria delas. A prĂłpria alcunha âTiradentesâ vem de uma margem em apenas um documento. Quando devassaram a casa dele, descobriram alguns boticĂ”es para extração dentĂĄria. E quando os oficiais fizeram a descrição de bens, supĂŽs-se algo sem uma real verificaçãoâ.
Daniel explica que Ă© preciso pesquisar e analisar para entendermos o real significado da InconfidĂȘncia: âEnquanto evento, ele ficou muito restrito, tendo em vista o prĂłprio poder colonial que se abateu nos inconfidentes, uma destruição feroz. E a pergunta que se faz Ă©: o movimento inconfidente realmente apontou para uma RepĂșblica no Brasil? Eles realmente queriam criar uma RepĂșblica no Brasil? Hoje, comemora-se o âprimeiro movimento republicanoâ do Brasil. Mas serĂĄ mesmo?â

