Quem foi Tiradentes: mito histĂłrico ou herĂłi inconfidente?

Por ASTORIGE CARNEIRO, DA CONTILNET 21/04/2017 Atualizado: hĂĄ 9 anos

 

Quem foi Tiradentes: mito histĂłrico ou herĂłi inconfidente?

“MartĂ­rio de Tiradentes” (Ăłleo sobre tela de Francisco AurĂ©lio, 1893)

Celebrado nacionalmente em 21 de abril, o feriado de Tiradentes foi instituĂ­do hĂĄ 52 anos atravĂ©s da Lei nÂș 4.897, durante a presidĂȘncia do marechal Castelo Branco (1897 – 1967) na primeira fase do regime militar no Brasil (1964-1985).

NĂŁo apenas instituiu-se o feriado por meio desta lei, mas tambĂ©m declarou Joaquim JosĂ© da Silva Xavier (1746-1792), popularmente conhecido como “Tiradentes”, patrono cĂ­vico da Nação Brasileira.

O atual patrono cĂ­vico do Brasil tornou-se, anos apĂłs sua morte, o mĂĄrtir da InconfidĂȘncia Mineira, rebeliĂŁo abortada pelo governo colonial em 1789, durante o ciclo do ouro, na entĂŁo capitania de Minas Gerais.

Origem da InconfidĂȘncia

No final do século XVIII, o Brasil ainda era uma colÎnia de Portugal, sofrendo com abusos políticos e cobranças de altas taxas e impostos, além de prejudicar, com uma série de leis, o desenvolvimento industrial e comercial brasileiro.

Na região de Minas Gerais, com a grande extração de ouro, os brasileiros que encontravam o material eram obrigados a pagar o “quinto” (20% de todo outro encontrado), que acabava indo para os cofres portugueses.

Isso resultou em uma diminuição do ouro nas minas – mas nĂŁo das cobranças portuguesas, tendo sido criada nesta Ă©poca a “derrama”, quando cada regiĂŁo deveria pagar 100 arrobas de ouro (1500 quilos) por ano para a metrĂłpole. Quando a regiĂŁo nĂŁo conseguia cumprir estas exigĂȘncias, soldados da Coroa entravam nas casas das famĂ­lias para retirarem os pertences atĂ© completar o valor devido.

Gerando uma insatisfação popular, principalmente na classe de proprietĂĄrios rurais, intelectuais, clĂ©rigos e militares mineiros, teve inĂ­cio a conspiração para conquistar a liberdade definitiva e implantar o sistema de governo republicano no paĂ­s, ou pelo menos em Minas Gerais, inspirado pelos ideais iluministas e pela IndependĂȘncia dos Estados Unidos (1776).

Entretanto, a conspiração foi descoberta em 1789 com a traição de Joaquim Silvério dos Reis (1756-1819), que traiu os inconfidentes para quitar suas dívidas com a coroa portuguesa. Os líderes do movimento foram detidos e enviados para o Rio de Janeiro.

Durante o inquĂ©rito judicial, todos negaram participação no movimento, menos o alferes Joaquim JosĂ© da Silva Xavier, que assumiu a responsabilidade de chefia. Em 18 de abril de 1792 foi lida a sentença no Rio de Janeiro: os 12 inconfidentes foram condenados Ă  morte. Contudo, em audiĂȘncia no dia seguinte, por decreto de Maria I de Portugal, todos (menos Tiradentes) tiveram as penas alteradas.

Quem foi Tiradentes: mito histĂłrico ou herĂłi inconfidente?

Tiradentes esquartejado (Pedro Américo, 1893).

Em 21 de abril do mesmo ano, apĂłs percorrer uma procissĂŁo pelas ruas do Rio de Janeiro, Tiradentes foi executado e esquartejado, tendo ele e sua descendĂȘncia sido declarados “infames”.

“Para que comemorar?”

225 anos apĂłs a execução pĂșblica de Tiradentes, a figura histĂłrica tornou-se mĂĄrtir da InconfidĂȘncia Mineira. Esquecido ao longo do perĂ­odo imperial, ele foi relembrado durante o perĂ­odo republicano pelos positivistas, que, ao personificarem nele uma identidade republicana brasileira, criaram a imagĂ©tica tradicional de Joaquim: barba, cabelo comprido e camisolĂŁo branco – imagem que remete Ă  figura de Jesus Cristo.

O escritos francĂȘs Marcel Jouhandeau (1888-1979) destaca que: “Para suportar a prĂłpria histĂłria, cada um acrescenta-lhe um pouco de lenda”, pois Ă© exatamente nesse quesito que entram diĂĄlogos entre historiadores sobre a InconfidĂȘncia, Tiradentes e o real motivo do feriado de 21 de abril.

Historiadores como Francisco de Assis Cintra (1897-1953) e o brasilianista Kenneth Maxwell procuram diminuir a importĂąncia de Tiradentes, enquanto autores mineiros como Oilian JosĂ© (1921-2017) e Waldemar de Almeida Barbosa (1907-2000) procuram ressaltar a sua importĂąncia histĂłrica e seus feitos, baseando-se, especialmente, em documentos no Arquivo PĂșblico Mineiro.

Daniel Klein, historiador e professor do curso de História da Universidade Federal do Acre (Ufac) hå oito anos (desde 2009), também levanta o questionamento sobre o processo de mistificação histórica.

“A chamada InconfidĂȘncia Mineira Ă© uma sublevação que nĂŁo foi um movimento isolado: existiram vĂĄrias revoltas contra o poder colonial, e eu diria atĂ© que essas sublevaçÔes continuaram no Brasil ImpĂ©rio. Qual o motivo de nĂŁo haver tanto destaque, por exemplo, para Pernambuco e a Revolução Praieira (1848-1850)?”, questiona Daniel.

Com o histórico de rebeliÔes do Brasil, por que celebra-se uma em detrimento de outras? A resposta aponta para a criação de um mito, celebrado por vårios anos e que esconde, entre as camadas de ressignificação histórica, certos meandros de poder.

A mitificação tambĂ©m Ă© criticada pelo historiador, pois surge de um processo no qual nĂŁo hĂĄ uma apuração precisa das informaçÔes: “Ao transformar pessoas em herĂłis, vocĂȘ acaba retirando parte da prĂłpria histĂłria delas. A prĂłpria alcunha ‘Tiradentes’ vem de uma margem em apenas um documento. Quando devassaram a casa dele, descobriram alguns boticĂ”es para extração dentĂĄria. E quando os oficiais fizeram a descrição de bens, supĂŽs-se algo sem uma real verificação”.

Daniel explica que Ă© preciso pesquisar e analisar para entendermos o real significado da InconfidĂȘncia: “Enquanto evento, ele ficou muito restrito, tendo em vista o prĂłprio poder colonial que se abateu nos inconfidentes, uma destruição feroz. E a pergunta que se faz Ă©: o movimento inconfidente realmente apontou para uma RepĂșblica no Brasil? Eles realmente queriam criar uma RepĂșblica no Brasil? Hoje, comemora-se o ‘primeiro movimento republicano’ do Brasil. Mas serĂĄ mesmo?”

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