OpiniĂŁo: Reforma da PrevidĂȘncia pode acabar com polĂ­tica que reduz pobreza no campo

Por Por: Leonardo Sakamoto 17/05/2017

A ”força tarefa” pela aprovação da Reforma da PrevidĂȘncia – que envolve governo federal e sua base aliada no Congresso Nacional, mas tambĂ©m membros do Poder JudiciĂĄrio e parte do grande empresariado nacional – elencou como objetivo fazer a população acreditar que as mudanças servirĂŁo para salvar o futuro dos mais pobres. O problema Ă© que a proposta farĂĄ exatamente o contrĂĄrio: acabarĂĄ com um dos maiores programas de distribuição de renda do paĂ­s.

Neste sĂĄbado (13), por exemplo, o ministro do Supremo Tribunal Federal LuĂ­s Roberto Barroso afirmou, em evento em Londres, que o atual sistema previdenciĂĄrio ”envolve uma imensa transferĂȘncia de renda dos setores mais pobres para os mais abastados”.

OpiniĂŁo: Reforma da PrevidĂȘncia pode acabar com polĂ­tica que reduz pobreza no campo

Foto: Reprodução

Claro que certos servidores pĂșblicos aposentados, como ministros do STF ou mesmo Michel Temer (que se aposentou aos 55 anos), tĂȘm direito a R$ 30 mil mensais ou mais de pensĂŁo. E poderĂ­amos rediscutir isso. Mas a PrevidĂȘncia Social tambĂ©m possui um dos maiores programas de distribuição de renda do mundo. E muito antes do Bolsa FamĂ­lia.

Hoje, famĂ­lias que comprovarem que trabalharam no campo por, pelo menos 15 anos, conseguem o direito Ă  aposentadoria rural. SĂŁo milhĂ”es de pessoas pobres beneficiadas com um salĂĄrio mĂ­nimo por mĂȘs apĂłs 60 anos (homens) e 55 (mulheres), impedindo o aumento do ĂȘxodo rural, fomentando a economia de pequenas cidades e garantindo soberania alimentar (uma vez que a agricultura familiar fornece boa parte dos alimentos que consumimos).

Pequenos produtores familiares, coletoras de babaçu, pescadores artesanais, entre outros, conforme previsto na Reforma da PrevidĂȘncia, terĂŁo que pagar individualmente 180 parcelas mensais de um carnĂȘ com uma contribuição que, por enquanto, estima-se ser igual ao do microempresarial individual (5% do salĂĄrio mĂ­nimo). Hoje, eles recolhem 2,1% de imposto no momento da venda de sua produção – que pode ser anual, por conta da safra.

Considerando que essas famílias não ganham dinheiro todos os meses e que muitas delas se mantém com recursos do Bolsa, elas não conseguirão se aposentar.

TerĂŁo que esperar atĂ© os 68 anos para pleitear uma pensĂŁo para idosos pobres do BenefĂ­cio de Prestação Continuada (BPC) – ou seja, oito anos a mais para os homens e 11 anos a mais para as mulheres (o Congresso Nacional quer aumentar a idade mĂ­nima das mulheres do campo para 57 anos).

A aposentadoria especial rural é deficitåria de acordo com a metodologia utilizada pelo governo federal, que desconsidera o valor que o próprio governo deveria aportar e também recursos do sistema de Seguridade Social. Mas consideremos que esse é a situação. Então, isso representaria, de acordo com dados do Ministério da Fazenda, cerca de R$ 103,39 bilhÔes, em 2016.

Ou seja, uma grande transferĂȘncia de renda dos que tĂȘm mais para os que tĂȘm menos. Ao contrĂĄrio do que disse Barroso. É um preço pequeno a pagar para manter um mĂ­nimo de dignidade no interior do paĂ­s.

Se o ministro Barroso estĂĄ preocupado com a ”imensa transferĂȘncia de renda dos setores mais pobres para os mais abastados”, deveria defender em palestras a taxação dos dividendos recebidos de empresas por pessoas fĂ­sicas. Ou uma mudança no imposto de renda, isentando os pobres e a maior parte da classe mĂ©dia e cobrando mais dos que mais tĂȘm, com alĂ­quotas de atĂ© 40%. Ou ainda aumentar as alĂ­quotas de nossos impostos sobre heranças e taxar realmente grandes fortunas.

Repito o que jå escrevi aqui: muita gente estå querendo ganhar a disputa no grito, falando em nome dos mais pobres. Quando eles, na verdade, seguem bestializados com a percepção de um país que explora seu trabalho na juventude e os abandona na velhice.

SugestĂŁo: Que tal combatermos as aposentadorias privilegiadas que certas categorias de servidores pĂșblicos, o que inclui o JudiciĂĄrio, tĂȘm direito e, ao mesmo tempo, manter a mĂ­nima dignidade conquistada pelos poucos mecanismos de distribuição de renda que funcionam no paĂ­s?

Por: Leonardo Sakamoto
Fonte: RepĂłrter Brasil

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