Desde o anĂșncio realizado no dia 12 deste mĂȘs, o projeto do Museu dos Povos Acreanos vem sendo alvo de diversas crĂticas nas redes sociais. O principal motivo Ă© a acusação dos internautas de que o Estado estaria se preocupando mais com esse museu do que com os investimentos nas ĂĄreas âmais importantesâ, como SaĂșde, Educação e Segurança PĂșblica.
A obra é resultado das negociaçÔes do Governo do Estado com as operaçÔes de crédito do Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (Bird), e veio da necessidade, divulgada pela equipe de Governo, de criar um novo equipamento de Cultura no qual a identidade acreana pudesse ser (literalmente) percorrida, sentida e apreendida de forma mais ampla.
As instalaçÔes do museu, com recurso de R$ 32 milhĂ”es, serĂŁo realizadas no antigo prĂ©dio do ColĂ©gio Meta, no Centro de Rio Branco. O imĂłvel, construĂdo na dĂ©cada de 1960, tambĂ©m chegou a sediar o ColĂ©gio dos Padres. JĂĄ em 1978, veio a inauguração do Centro Educacional e Cultural Meta. Em desuso, a edificação protegida pela Lei 1294/99 do Fundo de Pesquisa e Preservação do PatrimĂŽnio Cultural do Acre foi desapropriada em 2016 para ser transformada no museu.
Após toda essa situação, a equipe da ContilNet entrou em contato com a atual presidente da Fundação Elias Mansour (FEM), Karla Martins, para que ela explicasse e destacasse os principais pontos da importùncia que esse museu representa para o futuro e para os outros pontos culturais do Acre.
De acordo com Karla, as verbas para as açÔes da FEM estão avaliadas em mais de R$ 40 milhÔes, que integram o total de R$ 1,05 bilhão destinado a todos os setores do Acre. Dentro do valor destinado à fundação, estå o Programa de Valorização da Cultura, que irå revitalizar 20 espaços culturais acreanos.
Confira a entrevista:
HĂĄ quanto tempo a obra do Museu estĂĄ em andamento?
A construção do Museu dos Povos Acreanos estĂĄ nos planos de ação desde 2014, e desde o inĂcio esse lugar foi pensado no espaço do ColĂ©gio Meta. Durante nossos acordos com os Servos de Maria, nĂłs verificamos como se encontravam as dependĂȘncias do antigo ColĂ©gio Meta I, e estavam lĂĄ 32 moradores de rua. TambĂ©m tiramos mais de 10 caminhĂ”es com entulhos apĂłs o processo inicial de limpeza do espaço.

Karla: âO Museu dos Povos Acreanos serĂĄ sinĂŽnimo de interatividadeâ
Como funciona o conceito do ‘retrofit’ aplicado nessa construção?
Trata-se de um conceito que inclui a manutenção das caracterĂsticas originais em combinação com elementos arquitetĂŽnicos da edificação antiga, incluindo esquadrias, pisos e caracterĂsticas estruturais. A restauração sempre foi um elemento que nos interessou muito, pois cerca de 80, 90% daquele prĂ©dio estĂĄ intacto. E ainda Ă© um bĂŽnus tratar-se de um lugar que jĂĄ estĂĄ na memĂłria coletiva da cidade de Rio Branco, bem como nas memĂłrias afetivas de muitos acreanos que lĂĄ estudaram ou trabalharam.
O Museu serĂĄ o Ășnico ponto cultural beneficiado no Estado?
Ao passo que fomos estruturando o Museu dos Povos Acreanos, voltaram Ă roda de debate as revitalizaçÔes dos outros espaços de cultura e memĂłria do Acre. Sinceramente, nĂŁo entendo a razĂŁo para tantas crĂticas relacionadas Ă construção desse espaço, jĂĄ que nĂŁo estamos diminuindo nenhuma verba de outras ĂĄreas (como acusaram alguns comentĂĄrios nas redes sociais) para fazer esta obra.
Fora a construção do novo museu, quais outros pontos receberão as reformas e revitalizaçÔes?
NĂŁo apenas na Capital, mas em municĂpios como Brasileia, Xapuri, Sena Madureira e Cruzeiro do Sul, serĂŁo realizadas as reformas de espaços culturais que continuam a representar e integrar a identidade cultural do acreano. Entre os 20 pontos beneficiados, estĂŁo o Memorial Wilson Pinheiro (Brasileia), o Museu de Xapuri, o Museu de Sena Madureira, a Sociedade Recreativa Tentamem (Rio Branco), e as bibliotecas pĂșblicas estaduais Anselmo Marinho Lessa (TarauacĂĄ) e Elomar de Souza Braga (EpitaciolĂąndia).
O museu é pensado como uma integração entre as novas tecnologias e a ancestralidade que faz parte da história acreana, principalmente com os elementos da natureza?
O Museu dos Povos Acreanos serĂĄ sinĂŽnimo de interatividade. NĂŁo podemos nos fechar para as possibilidades do mundo digital, Ă© assim que pensamos os espaços desse museu: possibilidades da era digital para que os acreanos e os visitantes de outros Estados, ou de outros paĂses, possam imergir nessa cultura amazĂŽnica. Pois essa cultura Ă© um misto de novo, graças Ă tecnologia, e ancestral, graças ao elemento da natureza dentro do Acre.

Museu dos Povos Acreanos estĂĄ sendo construĂdo no espaço do antigo ColĂ©gio Meta
Como vocĂȘ avalia essas crĂticas feitas a essa nova aquisição cultural do Estado?
SĂŁo bastante negativas, e mostram como muitas pessoas ainda nĂŁo compreendem a real importĂąncia da Cultura. Os espaços de Cultura precisam estar vivos, pois eles sĂŁo nossa prĂłpria vida. Gera-se um certo equĂvoco quando se compreende âculturaâ exclusivamente como âexpressĂŁo artĂsticaâ. Realmente, a arte Ă© uma das partes do conceito de cultura â talvez a mais estimulante â, mas Ă© diferente de outras caracterĂsticas dos aspectos culturais. Por exemplo: a Ayahuasca. Ă um componente cultural do Acre. Se existem duas coisas que destacam o Acre nacional e internacionalmente, sĂŁo a Ayahuasca e Chico Mendes, duas vertentes da mitologia (e da cultura) acreana.
Essa falta de compreensĂŁo da importĂąncia cultural afeta diretamente a identidade cultural do Acre?
Com certeza! Como cidadĂŁ, eu tambĂ©m desejo SaĂșde de qualidade, Segurança, Educação… Mas eu tambĂ©m quero cultura! Quero que a identidade do nosso povo esteja acessĂvel para quem nĂŁo viveu nos primĂłrdios do Estado. Quero que as pessoas de outros Estados ou paĂses possam conhecer mais do Acre atravĂ©s desse museu. NĂŁo posso tirar essa vontade de mim nem dos outros. NĂŁo queremos tirar o brilho dos nossos outros pontos de Cultura, Ă© justamente por isso que a construção do Museu dos Povos Acreanos vem junto com a restauração de 20 pontos com memĂłria histĂłrica e memĂłria afetiva. Seria uma barbĂĄrie deixar que a Cultura de um povo se perdesse sem um centro que reĂșna as origens, o modo de vida, a expressĂŁo que Ă© tĂpica do acreano, seja na arte, na arquitetura, na culinĂĄria ou na produção da borracha. A cultura Ă© feita por nĂłs e representa parte de nossa histĂłria. Temos que celebrĂĄ-la e lembrar dela sempre.

