Rio Branco, Acre,


Especial Dia da Mulher: Conheça Francisca Freitas, uma professora que teve a vida transformada pela educação

Sua grande motivação em permanecer trabalhando na educação é acreditar que para algumas crianças a educação é o único caminho para uma conscientização social e para a busca de igualdade entre as pessoas

Muitas histórias de mulheres guerreiras são veiculadas pela mídia. Algumas que precisam dar tudo de si para alimentar os filhos, mantê-los na escola e outras que trabalham 24 horas por dia para conseguir sustentar uma família inteira ou conquistar sua independência. São diversas as histórias e também as razões que fazem uma mulher ter garra para seguir em frente. Pensando nisso, nós aqui do ContilNet vamos contar, durante este mês especial do Dia da Mulher, celebrado nesta sexta-feira, 08 de março, histórias de mulheres incríveis que são exemplos de superação.

Nossa primeira personagem é uma professora, que não escolheu a sala de aula, mas precisou seguir a profissão pois era a única alterativa para ela na época. Contudo, hoje, a educação virou sua bandeira. “Ser professora não foi uma escolha, mas a única opção, pois é a formação superior em que podemos nos encaixar enquanto pobres. No entanto, sou entusiasta da educação. Acredito e amo o que faço”, disse.

A história inspiradora de hoje é da Maria Francisca Freire de Freitas. Vamos conhecê-la!

Infância

Filha de agricultores, Maria Francisca, a sexta filha de sete irmãos, nasceu e viveu boa parte de sua infância no ramal Santa Luzia, região onde hoje é o município do Bujari, no Acre. Como muitos acreanos, ela teve uma infância difícil com muitas privações. Devido a problemas de saúde do pai, precisou sair da colônia e veio morar na cidade. Com o pai diarista e a mãe desempregada, as dificuldades financeiras logo bateram à porta. Durante esse tempo que permaneceram na cidade, precisaram vender a casa e tiveram o dinheiro da venda bloqueado pelo banco, não restando outra opção senão voltar para a zona rural. Dois anos mais tarde a família conseguiu adquirir um pequeno lote, onde com muito esforço e trabalho, organizaram a chácara onde residem.

Maria Francisca com os pais na sua formatura/Foto Arquivo pessoal

“Minha infância foi permeada de bons e ruins momentos. Desde de muito cedo tivemos que assumir responsabilidade de adultos. As brincadeiras eram voltadas para atender as necessidades coletivas: pescar, caçar com baladeiras e arapucas, limpar casa, buscar água na cacimba, ajudar na lida do roçado utilizando enxada, terçado e outros instrumentos conforme o trabalho que fosse realizar. Tive muito pouco tempo para o brincar na infância”, contou.

Escola

Fran (como vamos chama-la, algumas vezes), ingressou na escola aos cinco anos, mas havia sido pré-alfabetizada pela mãe e quando chegou na sala de aula já conhecia as primeiras sílabas. “Sofri muito na chegada na escola. Sempre fui uma criança tímida e com dificuldade de socialização. Chorei durante todo o primeiro ano para poder me adaptar. Meu ensino fundamental I estudei em escolas multisseriado. Tive meu processo de alfabetização bem precário, apesar de nunca apresentar dificuldade de aprendizado”.

Quando concluiu o quarto ano, Maria precisou parar de estudar por três anos. Não havia escola para ensino fundamental II e nem a sua família tinha condições de envia-la para estudar na cidade. Somente depois que os pais decidiram brigar pela implantação dessa modalidade de ensino, junto a secretaria de educação, foi que conseguiu continuar os estudos. “Com muita luta conseguimos. Mas o sossego demorou pouco tempo, pois os filhos da diretora, “marginais” assumidos, decretou que as meninas só iriam estudar em paz durante um ano, e foi isso que ocorreu. No segundo ano, começou a perseguição e tivemos que sair da escola”.

Alem da formação em História, Francisca é também graduada em Pedagogia e cursa Direito na Ufac/Foto: Arquivo pessoal

Após ser obrigada a deixar a escola por causa de perseguição contra meninas por parte de alunos homens, os pais decidiram se unir para lutar pela implantação do ensino fundamental na escola da comunidade e acabaram conseguindo professores e um galpão onde as aulas pudessem funcionar. No entanto, Francisca precisou entrar em outro embate, dessa vez, contra a secretaria de Educação que não queria reconhecer o funcionamento da escola. Depois de muita briga, conseguiu finalizar o fundamental e acabou fazendo o Provão 2000 para antecipar a conclusão do ensino médio.

Educação que transforma

Segundo Francisca, a educação transformou a sua vida. A maior transformação foi quando ingressou, por meio de processo seletivo, no curso Técnico Florestal da Escola Roberval Cardoso, antigo Colégio Agrícola. Foi fazendo esse curso, que ela diz ter conseguido ver as possibilidades que a educação pode trazer para a vida das pessoas. “Terminei o ensino médio e fiquei sem estudar até 2007, quando fiz processo seletivo para o curso técnico florestal e fui aprovada. Foi uma porta aberta para fazer o que sempre gostei: estudar”, garante.

A partir daí, Fran não parou mais de estudar. Após terminar o curso prestou vestibular para Universidade Federal do Acre (Ufac) e foi aprovada no curso de História Licenciatura. Concluiu o curso em 2013, embora tenha tido muitas dificuldades devido à falta de emprego para custear os gastos na universidade. Em 2009 foi convocada pela prefeitura de Rio Branco para assumir o cargo de merendeira numa creche, de um concurso que havia feito em 2007. Já no ano seguinte, após assumir o cargo, ela passou a trabalhar como coordenadora administrativa e a ter uma vida mais corrida.

“Trabalhar foi o que me ajudou a permanecer na faculdade. Mas depois que assumi como coordenadora a correria aumentou. Trabalhava o dia todo e estudava a noite. Nem sempre era possível jantar, as vezes comia algo quando chegava em casa. O tempo para leitura acontecia de meia noite as duas da manhã, dormia um pouco e tinha que levantar pra trabalhar”, destacou.

Vida de Professora

Francisca conta que ser professora não foi uma escolha. De acordo com ela, pessoas pobres dificilmente conseguem ingressar em outros cursos que não sejam licenciaturas, justamente, pelo ensino básico que é precário e pela dificuldade que os alunos têm em permanecer na escola, muitas vezes tendo que estudar e trabalhar ao mesmo tempo.

Ainda de acordo com a professora, a vida desses profissionais não é fácil. Dificuldades essas que estão relacionados aos baixos salários, as intensas cargas horárias que precisam cumprir e a falta de apoio das secretarias. “Há uma cobrança constante em cima do professor pela qualidade da educação e nem sempre temos apoio necessário para isso, principalmente, com relação a material didático, que muitas vezes para fazer uma atividade diferenciada é necessário tirar do nosso bolso ou trabalhar material reciclado”, desabafa.

Professora comemora aniversário com os alunos/Foto: Arquivo pessoal

A sua grande motivação em permanecer trabalhando na educação é acreditar que para algumas crianças a educação é o único caminho, não para a riqueza, como ela destaca, mas para uma conscientização social e para a busca de igualdade entre as pessoas.

Feminismo

Enquanto mulher, Francisca diz que há um grande desconhecimento da maioria das pessoas sobre o que é o feminismo. Para ela, ser feminista é uma necessidade de lutar para mudar aquilo que está posto na sociedade de que o papel da mulher é de submissão. Estudar, trabalhar, ser independente e ter relacionamentos onde haja respeito é, segundo ela, papel de uma mulher ativa, que busca ter voz e vez na sociedade.

“Sou da zona rural, onde o machismo comanda, e onde as meninas são preparadas para casar-se até os 15 ou 16 anos e ter um homem que as sustente. Sempre tive uma visão diferente e sempre lutei por igualdade de direito dentro de nossa própria casa. Foram anos de luta por esse direito de meninos e meninas terem os mesmos direitos e deveres. Durante nossa adolescência sofremos muito com essas desigualdades pois nossos pais priorizava o direito dos meninos de ter mais liberdade, enquanto as meninas tinham que ficar restritas ao lar. Hoje, isso já mudou bastante e até as tarefas domésticas e não domésticas são tratadas com menos divisão de gênero”, analisa.

Luta contra o câncer

Em 2013, quando tinha 29 anos, Francisca descobriu que estava com câncer de mama. Uma notícia que para ela foi muito dolorosa. “Todo o tratamento foi acompanhado pela minha família, que sempre esteve ao meu lado. As quimioterapias, as radioterapias e a própria mastectomia é um abalo na vida da mulher, e isso comigo não foi diferente. Fiquei abalada, mas não depressiva. Neste mesmo período fui abandonada pelo meu namorado da época. Mesmo assim, nunca perdi a esperança de cura”, enfatizou.

Fran disse que o câncer lhe trouxe muitos ensinamentos. “Me ensinou que a vida é hoje, e que nosso corpo é uma máquina que precisa ser ouvida, conhecida e cuidada. Eu esqueci de cuidar do meu corpo na busca de ter uma “vida melhor”. Ela considera sua história uma história de superação. Desde que soube do câncer seguiu lutando pelos seus objetivos e passou em dois concursos públicos para o cargo de professora. Além de ser formada em História, Francisca se formou em Pedagogia e hoje é acadêmica do curso de Direito na Ufac. Possui, ainda, quatro especializações.

Quando questionada sobre o que espera para o futuro, ela é incisiva. “O que esperar do futuro, hoje já não sei. Em 2018, seis anos após o primeiro câncer, tive reincidência da doença com metástase em outras partes do corpo. Estou de volta ao tratamento quimioterápico, mas para a medicina, já é apenas tratamento paliativo. Vivo um dia por vez”, finalizou.

Francisca é uma mulher comum que, como muitas outras, batalha diariamente para alcançar seu lugar na sociedade. Ela acredita que a força de vontade vem, além do desejo de mudanças, do apoio de amigos e familiares. Alguns que ela faz questão de destacar. “Além do crescimento profissional, a vida me trouxe boas amigas, que estiveram comigo em todo trajeto de sucesso e de fraquezas: Carina Bernardete, Elza Abreu, Charlene Fabiana e a minha família.

Sobre quem ela é hoje, Fran finaliza dizendo o seguinte. “Francisca hoje é uma mulher que reflete muito acerca da vida em sociedade, que sonha com um país melhor, pra mim e para os outros. Mas que tem noção da realidade hipócrita em que a maioria das pessoas vivem hoje”.

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