Acreanos que nĂŁo conseguem sair da BolĂ­via estocam comida temendo greve

Por TIÃO MAIA, DO CONTILNET 22/10/2019 às 11:08 Atualizado: hå 7 anos

Aumentaram em muitos graus nas Ășltimas horas os nĂ­veis da temperatura polĂ­tica nas ruas da BolĂ­via, incluindo a Capital polĂ­tica, a gelada La Paz. Na fronteira com o Brasil, na regiĂŁo de RondĂŽnia, GuajarĂĄ Mirim, Costa Marques, e no Acre, em PlĂĄcido de Castro e Capixaba, na regiĂŁo do AbunĂŁ, e no Alto Acre, em EpitaciolĂąndia e Brasileia, que fazem fronteira com Cobija, a Capital de Pando, a tensĂŁo Ă© grande porque nessas regiĂ”es vivem muitos brasileiros.

Os bolivianos estão saindo às ruas em protesto pelo resultado das eleiçÔes que teriam reeleito o presidente Evo Morales para o quarto mandato consecutivo de cinco anos. Morales estå no poder desde 2006, após a vitória nas eleiçÔes presidenciais de dezembro de 2005, eleito com 53,74% dos votos, frente a 28,59% de seu principal opositor, Jorge Quiroga. Pela primeira vez na Bolívia um indígena chegaria ao poder mediante o voto popular por uma margem consideråvel sobre o segundo postulante.

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Morales Ă© apoiado pelos camponeses indĂ­genas do pobre Altiplano Andino, que falam idiomas autĂłctones como o quĂ©chua e o aimarĂĄ, enquanto seus adversĂĄrios sĂŁo os polĂ­ticos das provĂ­ncias das planĂ­cies, que fazem fronteira com Brasil, Paraguai e Argentina, e tĂȘm forte presença branca, concentrando historicamente o poder econĂŽmico do paĂ­s.

Em janeiro de 2009, referendo popular aprovou uma a nova Constituição do país. A partir da sua entrada em vigor, o país passou a se chamar Estado Plurinacional da Bolívia. Em dezembro de 2009, conforme previsto no texto, foram realizadas novas eleiçÔes gerais. O presidente Evo Morales foi o candidato mais votado, obtendo 64,2% dos votos.

Acreanos que nĂŁo conseguem sair da BolĂ­via estocam comida temendo greve

Protestos tiveram início na segunda-feira em diversas cidades bolivianas/foto: reprodução

Em 2013, um ano antes do tĂ©rmino do novo mandato presidencial de cinco anos, houve intensa discussĂŁo a respeito da possibilidade de o presidente concorrer mais uma vez ao cargo. Em abril daquele ano, o Tribunal Constitucional Plurinacional, ĂłrgĂŁo supremo do judiciĂĄrio boliviano, aprovou a terceira candidatura de Evo Morales, sob o argumento de que, apĂłs a publicação da Carta Magna de 2009, o paĂ­s foi “refundado” como um Estado Plurinacional e, por isso, Morales estaria cumprindo apenas seu primeiro mandato dessa nova fase da BolĂ­via.

As eleiçÔes gerais de 2014 apontaram Evo Morales como o candidato mais votado, com 61% dos votos. Em 2016, foi realizado novo referendo popular. A proposta sob avaliação eliminaria do texto constitucional as restriçÔes sobre o nĂșmero de mandatos presidenciais. O “nĂŁo”, pela manutenção do texto, portanto, alcançou 51,29% dos votos.

Ainda assim, em novembro de 2017, o Tribunal Constitucional Plurinacional acolheu um recurso de parlamentares governistas para declarar que a restrição constitucional a respeito do nĂșmero de mandatos nĂŁo sĂŁo compatĂ­veis com o Pacto de San JosĂ© da Costa Rica. O entendimento unĂąnime foi de que o tratado internacional estabelece normas de direitos humanos mais favorĂĄveis aos cidadĂŁos bolivianos e, por isso, deve prevalecer sobre a Constituição e legislação eleitoral. Resulta que, dessa forma, Evo Morales pode concorrer a mais um mandato presidencial.

Acreanos que nĂŁo conseguem sair da BolĂ­via estocam comida temendo greve

Manifestantes tomam as ruas bolivianas/Foto: reprodução

O que parecia normal para mais um mandato conquistado por Morales no Ășltimo domingo (20) levou a derramamento de sangue e colocou o paĂ­s sob ameaça de uma guerra civil. O opositor de Morales na atualidade Ă© Carlos Mesa, presidente da BolĂ­via no perĂ­odo de 2004 a 2005, e candidato nas eleiçÔes presidenciais realizadas no paĂ­s no Ășltimo domingo, cujo resultado foi questionado por ele e seus aliados. Num primeiro momento, nĂșmeros parciais da apuração davam conta que haveria um segundo turno contra o atual lĂ­der do paĂ­s. Em seguida, a corte eleitoral deixou de alimentar os dados e posteriormente proclamou que Morales havia vencido no primeiro turno mais uma vez, o que levou Mesa a questionar o resultado e convocar os protestos que atingiram todo o paĂ­s.

Num vídeo postado em redes sociais, Carlos Mesa denuncia o que disse ser manipulação do resultado e chamou a atenção da OEA (Organização dos Estados Americanos) para o que está acontecendo na Bolívia. “Não podemos aceitar que se trate de manipular um resultado que obviamente nos leva ao segundo turno”, disse Mesa em vídeo, o que levou a população a sair às ruas com o quebra-quebra. Em Cobija foram registradas mortes de populares nas ruas e o país está ameaçado de uma guerra civil.

No meio do fogo cruzado, estĂŁo muitos brasileiros, a maioria composta de estudantes que cursam medicina do outro lado da fronteira, principalmente nas cidades de Cobija, Cochabamba e Santa Cruz de La Sierra. Em EpitaciolĂąndia, do lado brasileiro, o prefeito TiĂŁo Flores (PSB) recomendou aos estudantes brasileiros que nĂŁo cruzem a fronteira por esses dias. O mesmo recomenda a prefeita de BrasilĂ©ia, Fernanda Hassem (PT). Alguns estudantes de medicina, como a funcionĂĄria pĂșblica Nadja Neri, jĂĄ pensam em desistir do curso.

VĂ­deos postados em redes sociais mostram estudantes brasileiros que nĂŁo conseguiram deixar o paĂ­s, que vivem em cidades como Cochabamba, Sucre, Santa Cruz e atĂ© mesmo La Paz comprando e estocando comida. Eles temem ficarem sem suprimentos diante da ameaça daquilo que os bolivianos chama de “Paro”, uma greve geral em que o comĂ©rcio costumar fechar as portas.

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Pelo Twitter, autoridades brasileiras do Itamaraty, o MinistĂ©rio das RelaçÔes Exteriores do Brasil, solicita que os brasileiros evitem a BolĂ­via nesses Ășltimos dias. A fronteira do Acre com a BolĂ­via estĂĄ fechada de PlĂĄcido de Castro, Capixaba, EpitaciolĂąndia e BrasilĂ©ia.

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