Cientistas desenvolvem exame de sangue capaz de detectar câncer precocemente

Por GLOBO.COM 21/07/2020

Pesquisadores da China e da Califórnia, nos Estados Unidos, desenvolveram um novo exame de sangue capaz de detectar 5 tipos de câncer de forma precoce, segundo pesquisa publicada nesta terça-feira (21).

O teste conseguiu detectar os cânceres colorretal, de estĂ´mago, esĂ´fago, pulmões e fĂ­gado atĂ© 4 anos antes que mĂ©todos convencionais. Os resultados do estudo foram publicados na revista “Nature Communications”, do grupo “Nature”, um dos mais importantes do mundo.

Chamado de “PanSeer”, o teste conseguiu detectar câncer em 95% das pessoas que foram diagnosticadas com a doença de 1 a 4 anos depois de fazer o exame, mas ainda nĂŁo tinham sintomas na Ă©poca da coleta.
O índice de acerto foi de 91% no câncer de esôfago, e chegou a 100% no câncer de fígado.

AlĂ©m disso, o exame tambĂ©m encontrou a doença em 88% das pessoas que já tinham um diagnĂłstico de câncer na Ă©poca do teste. O “PanSeer” foi capaz, ainda, de reconhecer amostras que nĂŁo tinham a doença em 95% dos casos.

Os cientistas alertaram, entretanto, que o teste não funciona para prever quem terá ou não câncer. O exame provavelmente identifica quem já têm algum tipo de tumor, mas continua assintomático para os métodos de detecção atuais, e mais estudos são necessários para confirmar a capacidade do teste de detectar a doença nesses casos.

Para o oncologista Fernando Maluf, da Beneficência Portuguesa e do Hospital Albert Einstein, ambos em São Paulo, a descoberta, se tiver a eficácia confirmada em outros testes, é bastante positiva.

“Quanto mais cedo diagnostica, melhor Ă© o prognĂłstico. O teste sĂł tem vantagem se se confirmar”, avalia. Esses cinco tumores sĂŁo muito graves, e sĂł um deles tem rastreamento. Nos outros, o rastreamento nunca foi tĂŁo interessante”, explica.
O único exame de rastreamento disponível é a colonoscopia a partir dos 45 anos, e, no caso dos superfumantes, a tomografia, explica Maluf. Para os outros tipos de câncer, o que normalmente ocorre é que o paciente, procurando outra doença, acaba achando o tumor.

“Se o teste se configurar Ăştil, provavelmente vao avaliar os mesmos mecanismos em outros tumores. Vai ser um dos maiores avanços possĂ­veis: conseguir detectar e diagnosticar um câncer de forma tĂŁo precoce que a chance de cura Ă© de quase 100%”, avalia.

Detecção precoce tem ressalvas

O primeiro autor do estudo, Kun Zhang, da Universidade da CalifĂłrnia em San Diego, explicou que o “objetivo final seria realizar exames de sangue como esse rotineiramente durante check-ups anuais, mas o foco imediato Ă© testar pessoas com maior risco, com base no histĂłrico familiar, idade ou outros fatores de risco conhecidos”.

Mas o oncologista Artur Katz, do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, alerta que a detecção precoce só é válida se vier junto com um tratamento que permita mudar o curso da doença.

“Esse tipo de informação passa a ter valor se vocĂŞ conseguir demonstrar claramente que, ao se antecipar, consegue curar mais gente ou aumentar o controle da doença. A simples detecção dessas cĂ©lulas – se vocĂŞ nĂŁo consegue saber onde está e como tratar – pode tornar a vida da pessoa um inferno”, pondera Katz.

O oncologista explica que, do ponto de vista cientĂ­fico, os resultados sĂŁo “extremamente relevantes e bem-vindos”, mas, para a prática clĂ­nica, precisam ajudar a salvar vidas.

“Existem, obviamente, vantagens no diagnĂłstico precoce. A questĂŁo Ă© o quĂŁo mais precoce”, lembra.
“Se o exame sugere que tem um tumor de mama, mas a ressonância nĂŁo vĂŞ, a tomografia nĂŁo vĂŞ, qual Ă© a conduta? Tirar as duas mamas? Se eu descobrir a doença um ano depois, será que nĂŁo conseguirĂ­amos o mesmo resultado com um procedimento cirĂşrgico menos agressivo?”, ressalva Katz.

Amostras chinesas
As amostras dos pacientes haviam sido coletadas como parte de um estudo maior, lançado pela Universidade Fudan, em Xangai, na China. A pesquisa reuniu amostras de mais de 120 mil pessoas, coletadas ao longo de dez anos, entre 2007 e 2017, e os pacientes passaram por exames regulares.

O teste foi desenvolvido por pesquisadores da Universidade Fudan, em Xangai, da Universidade da Califórnia em San Diego e da Singlera Genomics, uma start-up em ambos os países que pertence a alguns dos cientistas e agora quer comercializar os testes. A empresa já vinha trabalhando, ao longo dos anos, em exames capazes de diagnosticar precocemente o câncer.

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