O auxĂlio emergencial e a queda de renda das famĂlias de classe mĂ©dia alta fizeram a população no meio da pirĂąmide de renda, a chamada Classe C, chegar ao seu maior patamar histĂłrico. Segundo estudo do economista Marcelo Neri, diretor da FGV Social, chegou a 63% da população, ou 133,5 milhĂ”es de pessoas. O melhor momento tinha sido em 2014, quando alcançou 55,10%.
â Aumentou muito o auxĂlio emergencial, com uma dose cavalar de transferĂȘncia. Em nove meses, representa nove anos do Bolsa FamĂlia. Com isso, 15 milhĂ”es de pessoas saĂram da pobreza.
Outro motivo citado pelo economista Ă© que 4,8 milhĂ”es de pessoas da classe mĂ©dia alta (que tem rendimento per capita a partir de dois salĂĄrios mĂnimos) perderam renda e desceram para Classe C:
â Essa classe mĂ©dia baixa, identificada com classe C, foi alimentada por boas notĂcias dos pobres e mĂĄs notĂcias de quem estava acima.
Ian Prates, sociĂłlogo do Centro Brasileiro de Pesquisa e Planejamento (Cebrap), aponta outro motivo para o aumento da Classe C. Pequenos empresĂĄrios sofreram muito com a crise provocada pela pandemia e esse grupo estava acima da Classe C:
â Donos de pequenos negĂłcios, pequenos empregadores foram muito afetados. No inĂcio da pandemia, houve dificuldade para o crĂ©dito chegar aos pequenos empresĂĄrios.
Pelo estudo, 21,4 milhÔes de pessoas entraram na Classe C de 2019 até agosto. Foram 15 milhÔes que deixaram a pobreza, mais 4,8 milhÔes da classe média que perderam renda e engordaram a faixa intermediåria e mais 1,6 milhão de aumento populacional.
Pobreza continua caindo
Mas Ă© um efeito artificial, alerta Neri. Se o auxĂlio emergencial acabar no fim do ano, 15 milhĂ”es voltam para a pobreza:
â Representa meia Venezuela. VĂŁo para pobreza e ainda com as cicatrizes do mercado de trabalho e os efeitos mais permanentes da pandemia. Saberemos como esses indicadores vĂŁo se comportar em setembro, mĂȘs que o valor do auxĂlio foi cortado pela metade.
Segundo Prates, em metade dos domicĂlios da Classe C hĂĄ algum morador recebendo auxĂlio emergencial.
â A Classe C sem o auxĂlio seria 10 pontos percentuais menor (53% da população) . Mas a redução deve ser ainda maior. Muitos perderam o emprego, e a retomada deve ser lenta e puxada pelo mercado informal.
O reaquecimento da economia com a flexibilização da quarentena ajudou a pobreza cair ainda mais. Tinham saĂdo da pobreza 13,1 milhĂ”es de pessoas de 2019 atĂ© julho. Em agosto, foi mais 1,9 milhĂŁo, subindo para 15 milhĂ”es:
â Um pouco o efeito do reaquecimento da economia ainda com auxĂlio total â diz Neri.
Houve tambĂ©m volta para a classe mĂ©dia alta, os que tĂȘm renda per capita de dois salĂĄrios mĂnimos. AtĂ© julho, tinham descido 5,8 milhĂ”es para a Classe C. Em agosto, um milhĂŁo voltou ao topo.
Segundo Lucas Assis, economista da TendĂȘncias Consultoria que estuda o movimento das classes sociais, as perspectivas para 2021 nĂŁo sĂŁo positivas:
â Em 2021, a massa de renda ampliada (a soma dos rendimentos de trabalho e outras fontes como as transferĂȘncias do governo) deve apresentar uma forte ressaca com o fim dos repasses emergenciais.
Segundo Assis, mesmo com a reestruturação do Bolsa FamĂlia em um novo programa social, a massa ampliada deve diminuir 4,3%.
â A gradual retomada do mercado de trabalho no prĂłximo ano nĂŁo serĂĄ suficiente para garantir a manutenção dos rendimentos no mesmo patamar de 2020. A expectativa Ă© que o nĂșmero de domicĂlios das Classes D e E nĂŁo deve reduzir a mĂ©dio prazo. A mobilidade social no Brasil deve ser lenta nos prĂłximos anos.
Estagnação na economia
Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, diz que hĂĄ um dilema forte em relação ao auxĂlio emergencial, que estĂĄ tirando as pessoas da pobreza, aumentando a Classe C, mas estĂĄ deteriorando as contas pĂșblicas. Por isso, as previsĂ”es de crescimento para 2021 começam a cair:
â Ă um efeito artificial e localizado em 2020. Esses 65 milhĂ”es que estĂŁo recebendo R$ 600 vĂŁo diminuir de forma significativa, talvez para a casa dos 25 milhĂ”es, com valor bem abaixo dos R$ 600. Teremos o efeito rebote, reverso do que estamos vendo agora. Foi uma camisa de força que foi colocada e o governo se aproveita politicamente.
Segundo Vale, a retirada do estĂmulo tambĂ©m vai afetar o varejo (que chegou ao maior patamar de vendas em agosto, conforme divulgou o IBGE ontem). Ele estĂĄ prevendo alta de 2,2% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2021. PorĂ©m, serĂĄ mais um efeito estatĂstico. A queda forte de quase 10% no segundo trimestre deste ano vai ajudar na comparação com o ano que vem.
â Tirando o efeito do segundo trimestre, voltaremos a crescer 1%, como vĂnhamos antes da pandemia. E isso deve acontecer de novo em 2022, com o risco fiscal.
â NĂŁo tem solução fĂĄcil. Precisa ajudar as pessoas, mas, pelo montante, a situação fiscal ficou muito deteriorada. O cenĂĄrio para cĂąmbio e bolsa nĂŁo sĂŁo muito positivos.
Neri defende que o Bolsa FamĂlia seja turbinado, dobrando o gasto para R$ 70 bilhĂ”es.
â Vamos ter de descobrir o caminho do meio. Manter o auxĂlio nos nĂveis atuais nĂŁo Ă© possĂvel. JĂĄ estamos vendo instabilidade no mercado e fuga de capitais do paĂs. O auxĂlio foi muito generoso, focado nos mais pobres e ajudou a manter as rodas da economia girando. Acho que chegar aos R$ 70 bilhĂ”es seria factĂvel. Um Bolsa FamĂlia 2.0.
O auxĂlio foi o que compensou a perda de renda de Daina Mendonça. Com a quarentena, o salĂŁo em que trabalhava suspendeu as atividades e ela deixou de ganhar os dois salĂĄrios mĂnimos que recebia. No auge da pandemia, ela e os trĂȘs filhos sobreviveram apenas com o benefĂcio. Com a reabertura do salĂŁo, sĂł 30% do salĂĄrio foi recuperado.
â EstĂĄ tudo muito incerto. Temos que tentar driblar o receio dos clientes que nĂŁo voltaram a frequentar os salĂ”es. NĂŁo tenho dĂșvidas de que vou ter que buscar mais bicos para complementar a renda. [Foto de capa: Gabriel de Paiva/AgĂȘncia O Globo]

