Auxílio emergencial e perda de renda dos mais ricos fazem classe C avançar

Por O GLOBO 08/10/2020

O auxílio emergencial e a queda de renda das famílias de classe média alta fizeram a população no meio da pirùmide de renda, a chamada Classe C, chegar ao seu maior patamar histórico. Segundo estudo do economista Marcelo Neri, diretor da FGV Social, chegou a 63% da população, ou 133,5 milhÔes de pessoas. O melhor momento tinha sido em 2014, quando alcançou 55,10%.

— Aumentou muito o auxĂ­lio emergencial, com uma dose cavalar de transferĂȘncia. Em nove meses, representa nove anos do Bolsa FamĂ­lia. Com isso, 15 milhĂ”es de pessoas saĂ­ram da pobreza.

Outro motivo citado pelo economista é que 4,8 milhÔes de pessoas da classe média alta (que tem rendimento per capita a partir de dois salårios mínimos) perderam renda e desceram para Classe C:

— Essa classe mĂ©dia baixa, identificada com classe C, foi alimentada por boas notĂ­cias dos pobres e mĂĄs notĂ­cias de quem estava acima.

Ian Prates, sociĂłlogo do Centro Brasileiro de Pesquisa e Planejamento (Cebrap), aponta outro motivo para o aumento da Classe C. Pequenos empresĂĄrios sofreram muito com a crise provocada pela pandemia e esse grupo estava acima da Classe C:

— Donos de pequenos negĂłcios, pequenos empregadores foram muito afetados. No inĂ­cio da pandemia, houve dificuldade para o crĂ©dito chegar aos pequenos empresĂĄrios.

Pelo estudo, 21,4 milhÔes de pessoas entraram na Classe C de 2019 até agosto. Foram 15 milhÔes que deixaram a pobreza, mais 4,8 milhÔes da classe média que perderam renda e engordaram a faixa intermediåria e mais 1,6 milhão de aumento populacional.

Pobreza continua caindo

Mas é um efeito artificial, alerta Neri. Se o auxílio emergencial acabar no fim do ano, 15 milhÔes voltam para a pobreza:

— Representa meia Venezuela. VĂŁo para pobreza e ainda com as cicatrizes do mercado de trabalho e os efeitos mais permanentes da pandemia. Saberemos como esses indicadores vĂŁo se comportar em setembro, mĂȘs que o valor do auxĂ­lio foi cortado pela metade.

Segundo Prates, em metade dos domicĂ­lios da Classe C hĂĄ algum morador recebendo auxĂ­lio emergencial.

— A Classe C sem o auxílio seria 10 pontos percentuais menor (53% da população) . Mas a redução deve ser ainda maior. Muitos perderam o emprego, e a retomada deve ser lenta e puxada pelo mercado informal.

O reaquecimento da economia com a flexibilização da quarentena ajudou a pobreza cair ainda mais. Tinham saído da pobreza 13,1 milhÔes de pessoas de 2019 até julho. Em agosto, foi mais 1,9 milhão, subindo para 15 milhÔes:

— Um pouco o efeito do reaquecimento da economia ainda com auxílio total — diz Neri.

Houve tambĂ©m volta para a classe mĂ©dia alta, os que tĂȘm renda per capita de dois salĂĄrios mĂ­nimos. AtĂ© julho, tinham descido 5,8 milhĂ”es para a Classe C. Em agosto, um milhĂŁo voltou ao topo.

Segundo Lucas Assis, economista da TendĂȘncias Consultoria que estuda o movimento das classes sociais, as perspectivas para 2021 nĂŁo sĂŁo positivas:

— Em 2021, a massa de renda ampliada (a soma dos rendimentos de trabalho e outras fontes como as transferĂȘncias do governo) deve apresentar uma forte ressaca com o fim dos repasses emergenciais.

Segundo Assis, mesmo com a reestruturação do Bolsa Família em um novo programa social, a massa ampliada deve diminuir 4,3%.

— A gradual retomada do mercado de trabalho no prĂłximo ano nĂŁo serĂĄ suficiente para garantir a manutenção dos rendimentos no mesmo patamar de 2020. A expectativa Ă© que o nĂșmero de domicĂ­lios das Classes D e E nĂŁo deve reduzir a mĂ©dio prazo. A mobilidade social no Brasil deve ser lenta nos prĂłximos anos.

Estagnação na economia

Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, diz que hĂĄ um dilema forte em relação ao auxĂ­lio emergencial, que estĂĄ tirando as pessoas da pobreza, aumentando a Classe C, mas estĂĄ deteriorando as contas pĂșblicas. Por isso, as previsĂ”es de crescimento para 2021 começam a cair:

— É um efeito artificial e localizado em 2020. Esses 65 milhĂ”es que estĂŁo recebendo R$ 600 vĂŁo diminuir de forma significativa, talvez para a casa dos 25 milhĂ”es, com valor bem abaixo dos R$ 600. Teremos o efeito rebote, reverso do que estamos vendo agora. Foi uma camisa de força que foi colocada e o governo se aproveita politicamente.

Segundo Vale, a retirada do estímulo também vai afetar o varejo (que chegou ao maior patamar de vendas em agosto, conforme divulgou o IBGE ontem). Ele estå prevendo alta de 2,2% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2021. Porém, serå mais um efeito estatístico. A queda forte de quase 10% no segundo trimestre deste ano vai ajudar na comparação com o ano que vem.

— Tirando o efeito do segundo trimestre, voltaremos a crescer 1%, como vínhamos antes da pandemia. E isso deve acontecer de novo em 2022, com o risco fiscal.

— Não tem solução fácil. Precisa ajudar as pessoas, mas, pelo montante, a situação fiscal ficou muito deteriorada. O cenário para cñmbio e bolsa não são muito positivos.

Neri defende que o Bolsa Família seja turbinado, dobrando o gasto para R$ 70 bilhÔes.

— Vamos ter de descobrir o caminho do meio. Manter o auxĂ­lio nos nĂ­veis atuais nĂŁo Ă© possĂ­vel. JĂĄ estamos vendo instabilidade no mercado e fuga de capitais do paĂ­s. O auxĂ­lio foi muito generoso, focado nos mais pobres e ajudou a manter as rodas da economia girando. Acho que chegar aos R$ 70 bilhĂ”es seria factĂ­vel. Um Bolsa FamĂ­lia 2.0.

O auxĂ­lio foi o que compensou a perda de renda de Daina Mendonça. Com a quarentena, o salĂŁo em que trabalhava suspendeu as atividades e ela deixou de ganhar os dois salĂĄrios mĂ­nimos que recebia. No auge da pandemia, ela e os trĂȘs filhos sobreviveram apenas com o benefĂ­cio. Com a reabertura do salĂŁo, sĂł 30% do salĂĄrio foi recuperado.

— EstĂĄ tudo muito incerto. Temos que tentar driblar o receio dos clientes que nĂŁo voltaram a frequentar os salĂ”es. NĂŁo tenho dĂșvidas de que vou ter que buscar mais bicos para complementar a renda. [Foto de capa: Gabriel de Paiva/AgĂȘncia O Globo]

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