Biden evita questão sobre a Suprema Corte e ataca Trump sobre açÔes na pandemia

Por O GLOBO 15/10/2020 Ă s 21:14

Ao invĂ©s do segundo embate contra Donald Trump, o candidato democrata Ă  PresidĂȘncia, Joe Biden, teve diante de si nesta quinta-feira um estĂșdio com eleitores indecisos, o apresentador da ABC, George Stephanopoulos — e muitas perguntas sobre seus planos para o paĂ­s. O duelo foi cancelado por conta da infecção de Donald Trump pelo novo coronavĂ­rus, que tambĂ©m nĂŁo aceitou um embate virtual. AlĂ©m dos ataques ao republicano, Biden fugiu de uma questĂŁo sobre uma eventual expansĂŁo da Suprema Corte, tema que circula entre o meio polĂ­tico desde o anĂșncio de que Trump iria indicar um nome para o tribunal antes da eleição.

Talvez no momento mais tenso do programa de uma hora e meia de duração, seguiu o roteiro das Ășltimas semanas e evitou responder se levaria adiante um plano para aumentar o nĂșmero de juĂ­zes. Reconhecendo temer retrocessos sociais com a indicação da juĂ­za conservadora Amy Coney Barrett ao tribunal, disse que hĂĄ grande preocupação na sociedade como um todo — para ele, o prĂłprio processo de sucessĂŁo Ă© “incoerente com a Constituição” por ocorrer em meio a uma eleição, quando muitos americanos jĂĄ votaram.

Por isso, disse que nĂŁo era exatamente um fĂŁ da expansĂŁo, mas sugeriu que o modelo atual deve ser reavaliado “diante do que acontecer agora”. Mesmo assim, prometeu uma posição definitiva sobre o tema “atĂ© o dia da eleição”.

CoronavĂ­rus

Sem correr grandes riscos nas respostas, como era esperado de um candidato com folgada vantagem nas pesquisas nacionais e estaduais, o ex-vice de Barack Obama foi confrontado com uma questĂŁo que surgiu no primeiro debate e que faz parte de quase todas entrevistas das quais participou: o que faria se fosse o presidente nesse perĂ­odo de pandemia?

Criticando a demora de Trump para agir, mesmo sabendo da gravidade da doença no começo do ano, Biden reconheceu que só passou a defender medidas mais incisivas, como o distanciamento social, em março, diante das recomendaçÔes de cientistas. Para ele, foi um erro a maneira como a Casa Branca delegou aos estados a estratégia da linha de frente do combate à covid-19, enquanto ele, segundo o democrata, adotava uma linha negacionista e até isolacionista.

— NĂŁo me lembro de um presidente que, em um momento de crise, nĂŁo tenha ligado para as lideranças do Congresso, dos dois partidos, em busca de um acordo — afirmou, lembrando do grande nĂșmero de mortos pela doença nos EUA.

Biden recebeu ainda a mesma pergunta que sua companheira de chapa, a senadora Kamala Harris, ouviu no debate dos candidatos a vice, na semana passada: vocĂȘ tomaria uma vacina recomendada pelo presidente Donald Trump?

Tal qual como a senadora, disse que os cientistas derem o sinal verde, seria imunizado sem problemas, mas que o presidente diz “muitas coisas loucas” sobre a vacina, e que provavelmente ela nĂŁo estarĂĄ disponĂ­vel atĂ© o começo do ano que vem.

Sem defender a vacinação obrigatĂłria, afirmou ser necessĂĄrio trabalhar em um plano para distribuir as imunizaçÔes e, enquanto isso nĂŁo ocorrer, defender o uso de mĂĄscaras — algo que nĂŁo Ă© feito pelo republicano.

— As palavras de um presidente importam. Se um presidente nĂŁo usa uma mĂĄscara, as pessoas podem achar que nĂŁo Ă© tĂŁo importante. —afirmou. — Importa muito o que nĂłs dizemos.

Economia

Uma das maiores preocupaçÔes dos eleitores nos EUA Ă© com a recuperação econĂŽmica pĂłs-Covid, e Biden defendeu a eliminação dos benefĂ­cios fiscais Ă  parcela mais rica da população, com o dinheiro sendo usado para açÔes voltadas Ă  sociedade como um todo. O democrata voltou a defender seu plano fiscal, apresentado hĂĄ algumas semanas, que tem como foco manter as empresas americanas dentro dos EUA, gerando empregos de forma local. Mas ressaltou que Ă© necessĂĄrio dialogar com o Congresso antes de qualquer ação do gĂȘnero.

— Algumas coisas vocĂȘ faz atravĂ©s de consenso, nĂŁo atravĂ©s de ordens executivas. NĂŁo somos uma ditadura.

Justiça social

Um dos temas centrais do debate polĂ­tico nos EUA em 2020, Biden defendeu que a melhor forma de melhorar a vida da população negra nos EUA passa pelo aumento de oportunidades educacionais, de trabalho e mesmo pelo acesso ao sistema financeiro. Biden citou uma polĂ­tica chamada de “redlining”, que sistematicamente evita que boa parte dos americanos de baixa renda tenham uma conta bancĂĄria ou crĂ©dito.

Sobre segurança pĂșblica, afirmou ser contra cortar a verba para as forças policiais, mas diss e ser necessĂĄria uma mudança de estratĂ©gia, com a polĂ­cia mais integrada Ă  sociedade, ao invĂ©s de forças de repressĂŁo. Sinalizou ainda que seu apoio a açÔes para descriminalizar o uso de drogas.

— Não acredito que as pessoas tenham que ser presas por uso de drogas, mas sim que sejam mandadas para um tratamento obrigatório — declarou, dizendo ser necessário mudar o sistema, passando da punição para a reabilitação.

Meio-ambiente

Em um estado onde a exploração de combustíveis fósseis tem uma participação na economia, Biden evitou defender o fim do fracking, uma atividade vista como nociva ao meio-ambiente. Ao mesmo tempo, apresentou propostas para elevar o investimento em energias limpas, como a solar, um dos pontos centrais de seu plano de governo. Voltou a citar a AmazÎnia, dizendo que ela absorve mais carbono em um ano do que os EUA emitem no mesmo período, e afirmou que isso mostra como o país deve se mover na direção da energia limpa, especialmente veículos menos poluentes.

PolĂ­tica externa

Nos momentos finais, Biden foi questionado se Trump merecia algum elogio pela sua atuação na polĂ­tica externa. Para ele, os EUA estĂŁo “mais isolados que nunca” e que a polĂ­tica de “EUA em primeiro lugar” significam “EUA sozinhos” no mundo. Apesar de sugerir que o recente acordo envolvendo Israel, Emirados Árabes Unidos e Bahrein foi benĂ©fico, afirmou que o paĂ­s estĂĄ sem credibilidade no exterior, citando algumas crises internacionais nas quais, segundo ele, Washington se absteve.

O próximo debate presidencial está previsto para o dia 22, e o ex-vice-presidente se disse disposto a participar e a seguir as regras determinadas pela comissão organizadora — incluindo com a realização de testes para a covid-19. [Foto de capa: Tom Brenner/Reuters]

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