Caso Kadamoto Ă© terceira denĂșncia contra gurus feita este ano por grupo de acolhimento

Por O GLOBO 14/10/2020 Ă s 23:09

A denĂșncia de abuso sexual contra Harry Tadashi Kadomoto, guru de meditação que se tornou popular durante a pandemia, Ă© a terceira apresentada este ano pelo MinistĂ©rio PĂșblico de SĂŁo Paulo contra lĂ­deres religiosos e espirituais, com base em atendimento prestado pelo Projeto Acolhimento de VĂ­timas, AnĂĄlise e Resolução de Conflitos (Avarc). O grupo foi criado para dar apoio e atendimento psicolĂłgico Ă s vĂ­timas.

Tadashi Kadamoto é acusado por uma ex-paciente e ex-estagiåria por abusos sexuais cometidos por sete anos, durante um tratamento e treinamento oferecido pelo instituto que leva seu nome. Ele nega o crime e anunciou, pela internet, que vai suspender suas atividades até o fim do processo.

Em setembro, o MinistĂ©rio PĂșblico tambĂ©m levou Ă  Justiça denĂșncia contra um dos lĂ­deres da umbanda mais populares do paĂ­s, Heraldo Lopes GuimarĂŁes, o Pai GuimarĂŁes de Ogum. Ele foi acusado por abusos sexuais praticados contra seis mulheres entre os anos de 2011 e 2014, duas delas menores de idade na Ă©poca dos fatos.

Guimarães comanda o Templo de Umbanda Estrela Guia, no bairro do Ipiranga (SP), e a Associação Brasileira dos Religiosos de Umbanda, Candomblé e Jurema. O religioso nega as acusaçÔes.

Em março passado, a 3ÂȘ Promotoria de Justiça Criminal de SĂŁo Paulo anunciou investigaçÔes em torno da congregação religiosa Testemunhas de JeovĂĄ por crime sexual. Segundo a denĂșncia, alĂ©m abuso sexual contra crianças e adolescentes, a associação tambĂ©m Ă© investigada por tentar constranger as vĂ­timas, impedindo que elas denunciassem os crimes. Oito vitimas foram ouvidas.

A promotora Celeste Leite dos Santos, responsåvel pela investigação e gestora do Avarc, afirma que mais de um líder da religião estå envolvido nos crimes.

Segundo Celeste, atĂ© as denĂșncias envolvendo o caso de JoĂŁo de Deus, em Abadia de Goias, nĂŁo existia um canal direto do MinistĂ©rio PĂșblico com a sociedade.

— O projeto permite que não haja barreiras para ouvir as vítimas, que podem estar em qualquer lugar do país. Existe 90% de sub notificação nos casos de estupro porque as pessoas não se sentem confortáveis em procurar uma delegacia. Elas querem ser ouvidas sem julgamentos — diz a promotora.

O Avarc eliminou as barreiras territoriais, uma vez que as vĂ­timas podem falar com o MinistĂ©rio PĂșblico em diferentes estados do paĂ­s. AlĂ©m disso, elas sĂŁo acompanhadas por psicĂłlogos, o que permite maior segurança durante os depoimentos.

— As vĂ­timas sentem culpa pelo que aconteceu e imaginam que o promotor Ă© uma pessoa distante, a qual ela nĂŁo tem acesso.

Celeste afirma que as vĂ­timas, principalmente de abusos sexuais praticados por religiosos ou lĂ­deres espirituais, inicialmente nĂŁo tĂȘm consciĂȘncia de que estĂŁo sendo enganadas. Sentem que algo estĂĄ errado, mas mantĂ©m relacionamento com o algoz porque ele exerce poder sobre suas vĂ­timas. Quando conseguem perceber que foram abusadas, sentem culpa e vergonha.

A promotora afirma que mesmo depois que busca ajuda e denuncia, as vítimas ainda precisam de ajuda para alcançar paz interior.

— Precisamos ter polĂ­ticas pĂșblicas que ajudem a vĂ­tima, com tratamento de saĂșde adequado e mecanismos de reparação de dano. Muitas vezes ela tem custos mĂ©dicos e psicolĂłgicos altos e nem sempre consegue arcar com eles. Todas as vĂ­timas precisam de ajuda, e as vĂ­timas de abuso sĂŁo especialmente vulnerĂĄveis — diz Celeste. [Foto de capa: Edilson Dantas/AgĂȘncia O Globo]

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