SALVADOR, BA E RECIFE, PE (FOLHAPRESS) – Na famĂlia de Raquel Pessoa de Oliveira, 38, o legado se perpetuava em forma de frevo. Na de Odilon Padilha, 58, as tradiçÔes gaĂșchas passavam de geração em geração.
Raquel era conhecida pelo entusiasmo e mantinha uma loja de produtos para cabeleireiros em JaboatĂŁo dos Guararapes, regiĂŁo metropolitana do Recife. Odilon viveu cresceu entre os campos de SĂŁo JosĂ© dos Ausentes, na Serra GaĂșcha, e trabalhou como garçom atĂ© ter a prĂłpria lancheria em Gramado.
Odilon perdeu o pai, perdeu a mĂŁe trĂȘs dias depois e, no mesmo dia, tornou-se mais uma vĂtima da Covid-19. Com a mesma doença, Raquel fechou os olhos para sempre sem poder despedir-se dos pais. Estava intubada em uma unidade de terapia intensiva quando pai e mĂŁe morreram.
No momento em que o Brasil atinge a marca de 150 mil vĂtimas da Covid-19, famĂlias que foram devastadas pela pandemia enfrentam o luto e tentam retomar a vida em meio a um horizonte nebuloso.
SĂŁo famĂlias que perderam, trĂȘs, quatro, atĂ© cinco pessoas por complicaçÔes ligadas ao novo coronavĂrus e que nem ao menos puderam despedir-se decentemente dos seus.
Na periferia de JaboatĂŁo dos Guararapes, a famĂlia Oliveira foi devastada em quatro dias, com a morte de pai, mĂŁe e filha. Raquel era conhecida pelo entusiasmo e disposição para o trabalho. NĂŁo parava nem um minuto sequer.
Começou com um pequeno salão de beleza na parte de baixo de casa, no bairro de Curado IV, em Jaboatão. Depois, montou uma loja de produtos para cabeleireiros. Vez por outra, ainda cortava os cabelos dos clientes mais próximos.
A doença progrediu muito rĂĄpido. Inicialmente, Raquel sentiu falta de ar e febre. Foi encaminhada ao hospital no dia 19 de abril, mas apresentou piora significativa no quadro de saĂșde e precisou ser intubada um dia depois.
Ainda conseguiu resistir por uma semana. Morreu sem saber que os pais tinham tido o mesmo destino poucos dias antes.
“Ă uma situação trĂĄgica, uma luta com o invisĂvel. Devastou uma parte da minha famĂlia. Estamos destroçados”, afirma o professor Klebson Oliveira, primo de Raquel.
CristĂłvĂŁo Pessoa, 67, pai de Raquel, se sentiu mal quatro dias depois que a filha foi internada. Tinha os mesmos sintomas. Chegou ao hospital e morreu no mesmo dia em decorrĂȘncia da doença.
Ana LĂșcia Barros, 64, mulher de CristĂłvĂŁo, nĂŁo soube da morte do marido. Com bastante falta de ar, ela foi internada na mesma data e morreu um dia depois.
O casal era de Bom Jardim, no agreste de Pernambuco, mas sempre estava na casa da filha, no Recife, para cuidar do neto de 11 anos. A criança e o pai, socorrista em um hospital privado, também foram infectados, mas apresentaram sintomas leves e se recuperaram.
“O pai e o filho estĂŁo, na medida do possĂvel, seguindo a vida. Mas Ă© uma dor muito grande. A criança, evidentemente, precisou de um acompanhamento psicolĂłgico”, diz Klebson.
As trĂȘs mortes consolidaram a tragĂ©dia em uma famĂlia marcada pela alegria dos acordes do frevo. Ana era neta, e Raquel, bisneta, de Levino Ferreira (1890-1970), um dos mais famosos compositores de frevo de Pernambuco.
A milhares de quilĂŽmetros de JaboatĂŁo, na Serra GaĂșcha, a famĂlia Padilha tinha como centro o sĂtio em SĂŁo JosĂ© dos Ausentes, cidade de 3,5 mil habitantes onde moravam Solon Gonçalves Padilha, 88, e sua mulher, Leonor Alano Padilha, 84.
A famĂlia era grande: tinham 11 filhos, mais de 40 netos, alĂ©m de bisnetos. O sĂtio onde criavam gado era o ponto de encontro da famĂlia. A cada fim de semana, um dos filhos se revezava para ajudar os pais na lida do campo.
Em julho, surgiram os primeiros infectados pelo novo coronavĂrus na famĂlia, que teve um total de 12 pessoas contaminadas. As mortes vieram em sequĂȘncia. Solon nĂŁo resistiu Ă s complicaçÔes da Covid-19 e morreu em 16 de julho.
TrĂȘs dias depois, a famĂlia perdeu Leonor e o filho Odilon Padilha. Outros dois filhos do casal morreram nas semanas seguintes.
Com 58 anos, Odilon Padilha deixou São José dos Ausentes aos 22 anos e mudou-se para Gramado, onde construiu a vida no ramo gastronÎmico. Começou como garçom e progrediu até ter sua própria lancheria.
“Ele era um homem muito simples, uma pessoa muito dedicada ao trabalho”, afirma o filho de Odilon, Rodrigo Padilha. Ele conta que o pai continuou trabalhando na pandemia, mas tomava cuidados, como o uso de mĂĄscara e higienização das mĂŁos. “NĂŁo sei como ele se infectou.”
No inĂcio de julho, começou a sentir sintomas de gripe. Achou que seria um resfriado tĂpico do inverno e, por isso, demorou a buscar atendimento. Internado, ficou 12 dias na UTI, mas nĂŁo resistiu Ă doença. Morreu no mesmo dia que a mĂŁe, um baque para toda a famĂlia.
“Foi difĂcil. Sem dĂșvida, mexeu muito com o meu psicolĂłgico”, afirma Rodrigo, que nĂŁo teve tempo nem sequer para digerir a perda: teve que tomar a frente do negĂłcio do pai, no qual jĂĄ trabalhava, para garantir o sustento da famĂlia.
AlĂ©m do luto, ainda teve que lidar com comentĂĄrios maldosos de que a famĂlia teria se reunido em uma festa no sĂtio durante a pandemia. A Ășltima reuniĂŁo familiar, diz Rodrigo, havia acontecido no ano passado, quando comemoraram os 65 anos de casamento dos avĂłs.
Depois do pai e dos avĂłs, Rodrigo ainda perdeu dois tios, irmĂŁos de seu pai. Um deles, Francisco Padilha, atuava no mesmo ramo: era dono de um restaurante na cidade vizinha de Canela.
Casos semelhantes aconteceram em outros estados. Na cidade de CĂąndido Sales, sudoeste da Bahia, mĂŁe e duas filhas morreram em agosto em um intervalo de oito dias, contaminadas pelo novo coronavĂrus.
A mĂŁe tinha 79 anos e morreu apĂłs ter sido internada em um hospital na cidade vizinha VitĂłria da Conquista. As duas filhas morreram na prĂłpria cidade. Seus nomes foram preservados a pedido de familiares.
A cidade de Natal (RN) registrou uma situação parecida: mĂŁe e duas irmĂŁs morreram de Covid-19 em um perĂodo de dez dias. As irmĂŁs Maria JosĂ© da Silva, 55, e Maria Gorete da Silva, 49, morreram com uma diferença de horas apĂłs terem sido internadas em um hospital na capital potiguar.
A psicĂłloga Luciana Mazorra, do instituto especializado em luto Quatro EstaçÔes, alerta que as perdas mĂșltiplas podem resultar em um luto mais complicado para as famĂlias.
“Ă uma sobrecarga muito grande para este enlutado, que muitas vezes perde justamente as pessoas que estariam ao lado para dar suporte nesse momento difĂcil”, explica.
Quando as mortes acontecem em meio a uma pandemia como a da Covid-19, uma sĂ©rie de fatores torna a situação ainda mais difĂcil: o fator surpresa de uma morte prematura, a distĂąncia durante a internação e as limitaçÔes nos rituais de despedida, como velĂłrio, enterro ou cremação.
Para completar, o enlutado ainda enfrenta obstĂĄculos para retomar a vida, jĂĄ que a pandemia impede a proximidade fĂsica das redes de apoio.
Essas dificuldades foram enfrentadas pela famĂlia Oliveira, em JaboatĂŁo dos Guararapes. As restriçÔes para a realização do enterro, contudo, nĂŁo impediram uma homenagem a CristĂłvĂŁo, que assim como Levino Ferreira, tocava saxofone.
MĂșsicos do GrĂȘmio LĂtero Musical Bonjardinense, onde ele tocou na juventude, fizeram uma apresentação junto Ă casa da famĂlia.

