Coronavírus devasta famílias e multiplica luto de parentes

Por NOTÍCIAS AO MINUTO 12/10/2020

SALVADOR, BA E RECIFE, PE (FOLHAPRESS) – Na famĂ­lia de Raquel Pessoa de Oliveira, 38, o legado se perpetuava em forma de frevo. Na de Odilon Padilha, 58, as tradiçÔes gaĂșchas passavam de geração em geração.

Raquel era conhecida pelo entusiasmo e mantinha uma loja de produtos para cabeleireiros em JaboatĂŁo dos Guararapes, regiĂŁo metropolitana do Recife. Odilon viveu cresceu entre os campos de SĂŁo JosĂ© dos Ausentes, na Serra GaĂșcha, e trabalhou como garçom atĂ© ter a prĂłpria lancheria em Gramado.

Odilon perdeu o pai, perdeu a mĂŁe trĂȘs dias depois e, no mesmo dia, tornou-se mais uma vĂ­tima da Covid-19. Com a mesma doença, Raquel fechou os olhos para sempre sem poder despedir-se dos pais. Estava intubada em uma unidade de terapia intensiva quando pai e mĂŁe morreram.

No momento em que o Brasil atinge a marca de 150 mil vĂ­timas da Covid-19, famĂ­lias que foram devastadas pela pandemia enfrentam o luto e tentam retomar a vida em meio a um horizonte nebuloso.

SĂŁo famĂ­lias que perderam, trĂȘs, quatro, atĂ© cinco pessoas por complicaçÔes ligadas ao novo coronavĂ­rus e que nem ao menos puderam despedir-se decentemente dos seus.

Na periferia de Jaboatão dos Guararapes, a família Oliveira foi devastada em quatro dias, com a morte de pai, mãe e filha. Raquel era conhecida pelo entusiasmo e disposição para o trabalho. Não parava nem um minuto sequer.

Começou com um pequeno salão de beleza na parte de baixo de casa, no bairro de Curado IV, em Jaboatão. Depois, montou uma loja de produtos para cabeleireiros. Vez por outra, ainda cortava os cabelos dos clientes mais próximos.

A doença progrediu muito rĂĄpido. Inicialmente, Raquel sentiu falta de ar e febre. Foi encaminhada ao hospital no dia 19 de abril, mas apresentou piora significativa no quadro de saĂșde e precisou ser intubada um dia depois.

Ainda conseguiu resistir por uma semana. Morreu sem saber que os pais tinham tido o mesmo destino poucos dias antes.

“É uma situação trĂĄgica, uma luta com o invisĂ­vel. Devastou uma parte da minha famĂ­lia. Estamos destroçados”, afirma o professor Klebson Oliveira, primo de Raquel.

CristĂłvĂŁo Pessoa, 67, pai de Raquel, se sentiu mal quatro dias depois que a filha foi internada. Tinha os mesmos sintomas. Chegou ao hospital e morreu no mesmo dia em decorrĂȘncia da doença.

Ana LĂșcia Barros, 64, mulher de CristĂłvĂŁo, nĂŁo soube da morte do marido. Com bastante falta de ar, ela foi internada na mesma data e morreu um dia depois.

O casal era de Bom Jardim, no agreste de Pernambuco, mas sempre estava na casa da filha, no Recife, para cuidar do neto de 11 anos. A criança e o pai, socorrista em um hospital privado, também foram infectados, mas apresentaram sintomas leves e se recuperaram.

“O pai e o filho estĂŁo, na medida do possĂ­vel, seguindo a vida. Mas Ă© uma dor muito grande. A criança, evidentemente, precisou de um acompanhamento psicolĂłgico”, diz Klebson.

As trĂȘs mortes consolidaram a tragĂ©dia em uma famĂ­lia marcada pela alegria dos acordes do frevo. Ana era neta, e Raquel, bisneta, de Levino Ferreira (1890-1970), um dos mais famosos compositores de frevo de Pernambuco.

A milhares de quilĂŽmetros de JaboatĂŁo, na Serra GaĂșcha, a famĂ­lia Padilha tinha como centro o sĂ­tio em SĂŁo JosĂ© dos Ausentes, cidade de 3,5 mil habitantes onde moravam Solon Gonçalves Padilha, 88, e sua mulher, Leonor Alano Padilha, 84.

A família era grande: tinham 11 filhos, mais de 40 netos, além de bisnetos. O sítio onde criavam gado era o ponto de encontro da família. A cada fim de semana, um dos filhos se revezava para ajudar os pais na lida do campo.

Em julho, surgiram os primeiros infectados pelo novo coronavĂ­rus na famĂ­lia, que teve um total de 12 pessoas contaminadas. As mortes vieram em sequĂȘncia. Solon nĂŁo resistiu Ă s complicaçÔes da Covid-19 e morreu em 16 de julho.

TrĂȘs dias depois, a famĂ­lia perdeu Leonor e o filho Odilon Padilha. Outros dois filhos do casal morreram nas semanas seguintes.

Com 58 anos, Odilon Padilha deixou São José dos Ausentes aos 22 anos e mudou-se para Gramado, onde construiu a vida no ramo gastronÎmico. Começou como garçom e progrediu até ter sua própria lancheria.

“Ele era um homem muito simples, uma pessoa muito dedicada ao trabalho”, afirma o filho de Odilon, Rodrigo Padilha. Ele conta que o pai continuou trabalhando na pandemia, mas tomava cuidados, como o uso de mĂĄscara e higienização das mĂŁos. “NĂŁo sei como ele se infectou.”

No início de julho, começou a sentir sintomas de gripe. Achou que seria um resfriado típico do inverno e, por isso, demorou a buscar atendimento. Internado, ficou 12 dias na UTI, mas não resistiu à doença. Morreu no mesmo dia que a mãe, um baque para toda a família.

“Foi difĂ­cil. Sem dĂșvida, mexeu muito com o meu psicolĂłgico”, afirma Rodrigo, que nĂŁo teve tempo nem sequer para digerir a perda: teve que tomar a frente do negĂłcio do pai, no qual jĂĄ trabalhava, para garantir o sustento da famĂ­lia.

AlĂ©m do luto, ainda teve que lidar com comentĂĄrios maldosos de que a famĂ­lia teria se reunido em uma festa no sĂ­tio durante a pandemia. A Ășltima reuniĂŁo familiar, diz Rodrigo, havia acontecido no ano passado, quando comemoraram os 65 anos de casamento dos avĂłs.

Depois do pai e dos avĂłs, Rodrigo ainda perdeu dois tios, irmĂŁos de seu pai. Um deles, Francisco Padilha, atuava no mesmo ramo: era dono de um restaurante na cidade vizinha de Canela.

Casos semelhantes aconteceram em outros estados. Na cidade de CĂąndido Sales, sudoeste da Bahia, mĂŁe e duas filhas morreram em agosto em um intervalo de oito dias, contaminadas pelo novo coronavĂ­rus.

A mĂŁe tinha 79 anos e morreu apĂłs ter sido internada em um hospital na cidade vizinha VitĂłria da Conquista. As duas filhas morreram na prĂłpria cidade. Seus nomes foram preservados a pedido de familiares.

A cidade de Natal (RN) registrou uma situação parecida: mãe e duas irmãs morreram de Covid-19 em um período de dez dias. As irmãs Maria José da Silva, 55, e Maria Gorete da Silva, 49, morreram com uma diferença de horas após terem sido internadas em um hospital na capital potiguar.

A psicĂłloga Luciana Mazorra, do instituto especializado em luto Quatro EstaçÔes, alerta que as perdas mĂșltiplas podem resultar em um luto mais complicado para as famĂ­lias.

“É uma sobrecarga muito grande para este enlutado, que muitas vezes perde justamente as pessoas que estariam ao lado para dar suporte nesse momento difĂ­cil”, explica.

Quando as mortes acontecem em meio a uma pandemia como a da Covid-19, uma série de fatores torna a situação ainda mais difícil: o fator surpresa de uma morte prematura, a distùncia durante a internação e as limitaçÔes nos rituais de despedida, como velório, enterro ou cremação.

Para completar, o enlutado ainda enfrenta obstĂĄculos para retomar a vida, jĂĄ que a pandemia impede a proximidade fĂ­sica das redes de apoio.

Essas dificuldades foram enfrentadas pela família Oliveira, em Jaboatão dos Guararapes. As restriçÔes para a realização do enterro, contudo, não impediram uma homenagem a Cristóvão, que assim como Levino Ferreira, tocava saxofone.

MĂșsicos do GrĂȘmio LĂ­tero Musical Bonjardinense, onde ele tocou na juventude, fizeram uma apresentação junto Ă  casa da famĂ­lia.

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