BRASĂLIA, DF (FOLHAPRESS) – O ministro Marco AurĂ©lio Mello afirmou que o presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Luiz Fux, “adentrou no campo da hipocrisia” ao suspender a soltura de AndrĂ© de Oliveira Macedo, conhecido como AndrĂ© do Rap, um importante chefe do PCC (Primeiro Comando da Capital).
Para Marco AurĂ©lio, a decisĂŁo do presidente da corte de revogar o habeas corpus concedido ao traficante Ă© “pĂ©ssima” para o Supremo.
O ministro afirma que a ação de Fux “Ă© um horror”. “Sob minha Ăłtica ele adentrou o campo da hipocrisia, jogando para turma, dando circo ao pĂșblico, que quer vĂsceras. Pelo pĂșblico nĂłs nem julgarĂamos, condenarĂamos e estabelecerĂamos pena de morte”, disse Ă reportagem.
O magistrado afirma que cumpriu sua obrigação de aplicar o trecho introduzido no CĂłdigo de Processo Penal pelo pacote anticrime que prevĂȘ a necessidade de o juiz renovar a prisĂŁo preventiva a cada 90 dias, o que nĂŁo ocorreu no caso.
“O juiz nĂŁo renovou, o MP nĂŁo cobrou, a polĂcia nĂŁo representou para ele renovar, eu nĂŁo respondo pelo ato alheio, vamos ver quem foi que claudicou”, disse.
Marco AurĂ©lio citou inclusive uma afirmação da deputada estadual JanaĂna Paschoal (PSL-SP), que cobrou uma aliada do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) por ter sancionado essa lei aprovada no Congresso.
“Hoje inclusive a deputada JanaĂna estĂĄ respondendo a uma deputada e estĂĄ dizendo: ‘Olha, seu presidente que sancionou essa lei, e se Ă© lei tem que ser cumprida, Ă© o preço que pagamos por viver em estado democrĂĄtico'”, diz.
O ministro afirma que Ă© terminantemente contra o trĂĄfico de drogas.
“Ă sĂł pegar minhas decisĂ”es sobre trĂĄfico de drogas, prisĂŁo preventiva, principalmente flagrante, quando o envolvido Ă© surpreendido praticando crime, vai ver que nĂŁo sou a favor do trĂĄfico, ao contrĂĄrio, acho que Ă© o pior crime que temos no dia de hoje, porque corre dinheiro e corre dinheiro dado pela sociedade, que Ă© quem compra a droga”, diz.
Segundo Marco Aurélio, a decisão de Fux é negativa para o STF.
“Essa autofagia jĂĄ ocorreu no passado, e Ă© pĂ©ssimo, pĂ©ssimo, pĂ©ssimo, nĂŁo Ă© ruim, Ă© pĂ©ssimo”, diz.
A discussĂŁo gira em torno do parĂĄgrafo Ășnico do artigo 316 do CPP, que diz o seguinte: “Decretada a prisĂŁo preventiva, deverĂĄ o ĂłrgĂŁo emissor da decisĂŁo revisar a necessidade de sua manutenção a cada 90 dias, mediante decisĂŁo fundamentada, de ofĂcio, sob pena de tornar a prisĂŁo ilegal”.
Marco AurĂ©lio diz que aplicou a legislação porque sua atuação Ă© vinculada Ă s normas legais. “Eu nĂŁo crio critĂ©rio de plantĂŁo e nĂŁo sou um justiceiro, nĂŁo parto para o justiçamento”, diz.
Macedo, 43, deixou a penitenciåria de Presidente Venceslau, no interior de São Paulo, na manhã deste såbado (10) após decisão de Marco Aurélio, que havia considerado que ele estava preso desde o final de 2019 sem uma sentença condenatória definitiva, excedendo o limite de tempo previsto na legislação brasileira.
A defesa de André do Rap afirmou que ele iria de Presidente Venceslau para Guarujå (SP), onde poderia ser encontrado.
De acordo com o Jornal Nacional, da TV Globo, ele foi seguido por investigadores e, em vez de seguir para o litoral, foi para MaringĂĄ (PR), de onde autoridades acreditam que ele fugiu para o Paraguai.
Ao suspender a determinação de seu colega no STF, Fux destacou que a soltura do chefe do PCC compromete a ordem pĂșblica e que se trata de uma pessoa “de comprovada altĂssima periculosidade”.
“Com efeito, compromete a ordem e a segurança pĂșblicas a soltura de paciente
1) de comprovada altĂssima periculosidade,
2) com dupla condenação em segundo grau por tråfico transnacional de drogas,
3) investigado por participação de alto nĂvel hierĂĄrquico em organização criminosa (Primeiro Comando da Capital – PCC),
4) com histĂłrico de foragido por mais de 5 anos”, escreveu Fux.
“Consideradas essas premissas fĂĄticas e jurĂdicas, os efeitos da decisĂŁo liminar proferida no HC 191.836, se mantida, tem o condĂŁo de violar gravemente a ordem pĂșblica, na medida em que o paciente Ă© apontado lĂder de organização criminosa de trĂĄfico transnacional de drogas”, concluiu.
Ao decidir pela prisĂŁo de AndrĂ© do Rap, Fux atendeu a um pedido da Procuradoria-Geral da RepĂșblica. O chefe do PCC havia sido preso em setembro do ano passado, apĂłs meses de investigaçÔes, em um condomĂnio de luxo em Angra dos Reis (RJ).

