Entenda como um turista foi parar na cadeia ao criticar resort na Tailândia

Por O GLOBO 10/10/2020

Um americano que vive na Tailândia não ficou nada satisfeito quando um resort quis lhe cobrar US$ 15 de taxa de rolha por ter levado a própria garrafa de gim para o restaurante. Discutiu com o gerente e depois fez o que se tornou hábito entre turistas insatisfeitos: postou uma resenha negativa on-line.

O Sea View Koh Chang, na ilha de Koh Chang, também ficou insatisfeito com o hóspede e com o que encarou como uma campanha solitária para manchar sua reputação. Sem conseguir entrar em contato com ele ou retirar suas postagens do TripAdvisor, o hotel deu queixa na polícia tailandesa, baseado na dura lei nacional de difamação.

Resultado: Wesley Barnes foi preso e passou um fim de semana de setembro de molho na cadeia. Se for condenado por detração criminosa, pode ter de cumprir uma pena de até dois anos.

Se o Sea View esperava recuperar o bom nome, o pedido de ajuda às autoridades foi um tiro que saiu pela culatra. A detenção de Barnes gerou uma enxurrada de críticas na internet, notícias com conotação negativa e uma série de más resenhas. Um dos gerentes revelou que funcionários do resort receberam ameaças de morte por parte de estrangeiros.

“Não sei bem como os gênios da administração acham que prender alguém por ‘manchar seu nome’ com uma crítica negativa mais que merecida vai ajudar a salvar sua reputação”, escreveu no Google uma pessoa que assina Wholesome Bot.

A prisão com base na lei da difamação também deixa mal a Tailândia, que procura desesperadamente recuperar o setor turístico, arrasado pela pandemia. Uma de suas estratégias é estimular a população a explorar o próprio país.

A Tailândia é um dos destinos de viagem mais populares do planeta, e o turismo responde por uma grande parte de sua economia. Para conter o coronavírus, porém, o governo proibiu a entrada de estrangeiros em abril e agora tenta encontrar uma maneira de reabrir de forma segura.

Há tempos, defensores dos direitos humanos criticam a legislação tailandesa, que pode levar a uma queixa-crime por denúncias e ser usada por empresas para silenciar os críticos.

A polêmica de Koh Chang ganhou destaque graças ao blogueiro de viagem Richard Barrow, que postou a história no Twitter. Depois que denunciou a prisão, tanto o Sea View quanto Barnes lhe enviaram os próprios relatos, que ele também postou.

O hóspede se disse “chocado” com a cobrança da taxa de rolha durante sua estada, em junho, e reclamou com o garçom. O gerente interveio e, depois de uma discussão na qual ambos se mostraram um tanto “alterados”, como o próprio Barnes reconhece, a exigência do pagamento foi cancelada.

No fim das contas, ele não publicou um post só, mas vários, no TripAdvisor e no Google, dando ao hotel as piores avaliações possíveis e criticando a gerência. O que realmente enfureceu a direção foi a que dizia: “Evite o lugar como se fosse o próprio coronavírus!”

O Sea View afirma que procurou Barnes para tentar resolver a situação de forma amigável, mas não recebeu resposta. E que só foi à polícia como último recurso para tentar estancar a enxurrada de críticas.

“Concordamos que o uso da lei de difamação pode ser visto como excessivo nesta situação. Entretanto, o hóspede não apenas se recusou a atender às nossas tentativas de comunicação como continuou insistindo na postagem de resenhas negativas e falsas de nosso estabelecimento”, diz o hotel em nota.

O TripAdvisor também se manifestou, dizendo que “é contra a ideia de que um viajante possa ser condenado por expressar sua opinião. Felizmente, em âmbito global, casos como esse são raros e milhões de pessoas podem se expressar livremente”. [Foto de capa: Sea View Koh Chang/Divulgação/Via The New York Times]

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