Pandemia deve reforçar poder chinês na economia

Por NOTÍCIAS AO MINUTO 25/10/2020 às 20:10

A recessão global causada pela covid-19 tende a acelerar o deslocamento do dinamismo da economia mundial para a Ásia, onde, com a China à frente, um melhor controle da pandemia jå começa a resultar numa retomada mais råpida e vigorosa do que em outras regiÔes. Além da China, Vietnã, Taiwan e Coreia do Sul são exemplos de países que terão desempenho econÎmico acima da média mundial, pelas projeçÔes do Fundo Monetårio Internacional (FMI).

Esse movimento aponta para a continuidade das tensĂ”es comerciais entre China e Estados Unidos e para a manutenção da alta demanda chinesa por matĂ©rias-primas produzidas pelo Brasil, como soja, minĂ©rio de ferro, celulose e carne. O crescimento de 4,9% do Produto Interno Bruto (PIB) chinĂȘs no terceiro trimestre, na comparação com igual perĂ­odo de 2019, reforçou esse cenĂĄrio. A recuperação da China Ă© marcada por medidas concentradas no crĂ©dito e no apoio Ă s empresas, ao passo que a pandemia, segundo especialistas, parece contida.

Com isso, o FMI espera avanço de 1,9% na economia do paĂ­s este ano, ante retração de 4,4% no PIB global. Como os EUA deverĂŁo registrar retração de 4,3%, a chegada da China ao posto de maior economia do mundo, ultrapassando a americana, poderĂĄ ocorrer em 2028, segundo estudo da agĂȘncia de classificação de risco Austin Rating, feito a pedido do Broadcast/EstadĂŁo. A agĂȘncia extrapolou as estimativas do Fundo atĂ© 2031.

Pelo estudo, a economia dos EUA, que em 1990 era 15 vezes maior que a chinesa, hoje equivale a apenas 1,4 vez o PIB da China. Quando se considera o cĂąmbio por paridade do poder de compra (PPC), cĂĄlculo que leva em conta nĂ­veis de preços e o poder de compra na conversĂŁo de moedas, o PIB chinĂȘs jĂĄ estĂĄ acima do americano desde 2017.

E tudo indica que a retomada chinesa veio para ficar. Segundo Fabiana D’Atri, economista do Bradesco e diretora econĂŽmica do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), diversos dados da economia chinesa vĂȘm surpreendendo de forma positiva nos Ășltimos meses.

Em setembro, o destaque foi o inĂ­cio da recuperação do consumo, trajetĂłria que parece ter se mantido este mĂȘs – na Golden Week, semana completa de feriados que ocorre todo ano em outubro no paĂ­s, em torno de 600 milhĂ”es de chineses viajaram, conforme a agĂȘncia de notĂ­cias oficial Xinhua.

Incentivos. O fato de a recuperação do consumo chinĂȘs sĂł ter começado em setembro chama a atenção. No Ocidente, incluindo Brasil e EUA, o consumo e as vendas do varejo puxam a retomada. Na China, porĂ©m, a produção industrial, as exportaçÔes e os investimentos em infraestrutura e no mercado imobiliĂĄrio vieram na frente. Para Fabiana, a opção do governo local por nĂŁo adotar transferĂȘncias de renda para mitigar a crise segue a tradição de sempre concentrar as medidas de estĂ­mulo no lado da oferta.

AlĂ©m de seguir a tradição, essa opção tende a dar maior sustentabilidade Ă  retomada da economia na China, lembra a economista do Bradesco. Isso porque os investimentos em infraestrutura tendem a manter a roda girando enquanto as obras sĂŁo executadas. JĂĄ a recuperação do consumo serĂĄ puxada por maior segurança das famĂ­lias em relação ao controle da pandemia e ao mercado de trabalho – no Ocidente, a retirada das transferĂȘncias diretas poderĂĄ provocar um “soluço” no consumo.

Conforme as projeçÔes do FMI e a anĂĄlise de economistas, a recuperação de diversos paĂ­ses seguirĂĄ por 2021. De 2022 em diante, Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, prevĂȘ que a China retomarĂĄ o ritmo de crescimento entre 5% e 6% ao ano, enquanto os EUA devem voltar ao patamar anual de crescimento em torno de 2%.

Com a aproximação da China do posto de maior economia do mundo, o clima de confronto com os EUA – que começou com uma guerra comercial – tende a continuar, pois o governo americano vĂȘ a ascensĂŁo chinesa como uma perda histĂłrica de protagonismo, diz Agostini.

Mesmo sem Trump, tensĂŁo deve continuar

Para Lia Vals, pesquisadora do Ibre/FGV, as tensĂ”es tendem a continuar mesmo se o presidente Donald Trump perder a eleição em novembro. “Os EUA, com a antiga hegemonia, veem a China como potĂȘncia em ascensĂŁo que vai disputar espaço com eles, especialmente na questĂŁo da tecnologia, que Ă© o grande ponto.” Na visĂŁo do ex-embaixador do Brasil em Pequim, Marcos Caramuru, membro do Conselho Consultivo do Centro Brasileiro de RelaçÔes Internacionais (Cebri), mesmo com o maior dinamismo econĂŽmico, por enquanto o aumento da influĂȘncia geopolĂ­tica da China se dĂĄ em Ăąmbito regional, na Ásia.

A força da indĂșstria chinesa, mesmo na crise, para fornecer a vĂĄrios paĂ­ses medicamentos, testes e equipamentos de proteção, inaugurou uma “diplomacia da covid-19”, mas o resultado da estratĂ©gia no Ocidente Ă© duvidoso. Para Caramuru, a imagem internacional do paĂ­s estĂĄ desgastada, com “fake news” sobre a covid-19 e certa “inveja” ocidental da retomada chinesa.

Goste-se ou nĂŁo da China, o paĂ­s Ă© o maior parceiro comercial de cerca de 100 paĂ­ses, disse Caramuru. Assim, “racionalmente”, nĂŁo hĂĄ saĂ­da alĂ©m de tentar negociar um bom relacionamento com os chineses. Para o Brasil, Ă© importante ficar de fora dessa disputa, afirmou Lia. “NĂŁo somos nada nessa briga. NĂŁo temos nada a ganhar de um lado nem do outro.”

PaĂ­s serĂĄ locomotiva do mundo, diz Eichengreen

A forte retomada da economia da China, sinalizada nos dados do terceiro trimestre do Produto Interno Bruto (PIB) do paĂ­s, mostra que colocar o novo coronavĂ­rus sob controle – e mantĂȘ-lo assim – Ă© o melhor para o crescimento econĂŽmico, segundo o economista americano Barry Eichengreen, professor da Universidade da CalifĂłrnia em Berkeley. “Puro e simples”, diz Eichengreen, tambĂ©m pesquisador associado do EscritĂłrio Nacional de Pesquisa EconĂŽmica (NBER, em inglĂȘs), em entrevista por e-mail.

Para o economista, o sucesso na retomada econĂŽmica pĂłs-covid dependerĂĄ, “primeiro e mais do que tudo”, do controle da pandemia. Segundo ele, isso fica claro na comparação dos Estados Unidos com a China.

“Os Estados Unidos aplicaram estĂ­mulos fiscais e monetĂĄrios massivos, mas se saĂ­ram mal no controle da pandemia, enquanto os estĂ­mulos fiscal e monetĂĄrio da China foram mais moderados, mas o seu controle da pandemia foi muito superior”, afirma Eichengreen.

Com isso, a China serĂĄ claramente a locomotiva da recuperação da economia global apĂłs a recessĂŁo causada pela pandemia do novo coronavĂ­rus. A crise e o sucesso chinĂȘs para vencĂȘ-la deverĂĄ acelerar a chegada do gigante asiĂĄtico ao posto de maior economia do mundo, ultrapassando os EUA, mas esse movimento jĂĄ vinha de muito antes, segundo Eichengreen. O que puxa esse processo Ă© o crescimento mais acelerado da renda per capita dos chineses.

Para Eichengreen, o desempenho da China ajudarĂĄ a economia mundial como um todo. “À medida que ela se recupera, vai sugar mais importaçÔes de matĂ©rias-primas do resto do mundo, incluindo a soja do Brasil. Um crescimento chinĂȘs mais rĂĄpido tem certamente um saldo positivo para a economia mundial”, diz o professor.

Embora seja um importante fornecedor de matérias-primas, não necessariamente o Brasil serå mais beneficiado do que os demais países

“Um crescimento chinĂȘs mais rĂĄpido Ă© bom para as exportaçÔes de soja do Brasil, mas Ă© bom tambĂ©m para as exportaçÔes de maquinĂĄrio da Alemanha”, completa Eichengreen.

Guerra comercial

Sobre os efeitos da guerra comercial entre EUA e China, o economista afirma que “o mais importante” agora Ă© saber quem vencerĂĄ a eleição presidencial americana. “No mĂ©dio prazo, bancos de investimento dos EUA sĂŁo unĂąnimes na avaliação de que a economia americana crescerĂĄ mais rapidamente com (o candidato do Partido Democrata, Joe) Biden do que com (o presidente Donald) Trump. E, para a economia mundial, ter uma segunda locomotiva (americana) Ă© melhor do que ter apenas uma (a China)”, responde ele.

“Acrescente a isso o fato de que medidas para conter a covid-19 funcionariam melhor com Biden, o que serĂĄ bom, mais tarde, para o crescimento. TambĂ©m para a economia mundial, polĂ­ticas mais previsĂ­veis e menos tensĂŁo comercial saindo da Casa Branca com Biden seriam outro fator positivo.”

As informaçÔes são do jornal O Estado de S. Paulo.

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