Trabalho doméstico perde 500 mil postos durante a pandemia

Por NOTÍCIAS AO MINUTO 12/10/2020

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – A empregada domĂ©stica Barbara Cristina, 40, começou 2020 trabalhando em trĂȘs residĂȘncias diferentes no Rio de Janeiro, com uma renda mensal prĂłxima a R$ 2 mil. Ela chega ao fim do ano, no entanto, desempregada e sem nenhuma fonte de renda, contando com a ajuda do namorado para pagar as contas.

A situação de Cristina é a mesma que muitas domésticas enfrentam após a chegada da pandemia de Covid-19 ao país. As medidas adotadas para conter a disseminação da doença, como o distanciamento social e as restriçÔes para o funcionamento de comércio e serviços, afetaram sobretudo trabalhadores do setor de serviços.

Segundo Barbara, os empregadores alegaram motivos distintos para a dispensa, mas sempre ligados à pandemia. Ela conta ter ficado sem trabalho em meados de março e abril, quando a maior parte do país passou a adotar medidas restritivas para combater o novo coronavírus.

“Em uma das casas, fui mandada embora porque o orçamento dos patrĂ”es caiu, eles trabalham com empresas que foram afetadas pela pandemia. Nas outras, como tinham idosos ou crianças, ficaram com medo que eu levasse a pandemia para dentro da casa deles e me dispensaram”, afirma.

NĂșmeros do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e EstatĂ­stica) mostram que os trabalhadores domĂ©sticos e ligados Ă  prestação de serviços Ă s famĂ­lias ainda sĂŁo os que mais sofrem com a pandemia da Covid-19 no Brasil.

Mesmo com a ligeira recuperação em outras åreas, principalmente aquelas com trabalhos que exigem maior qualificação, que se adaptaram ao home office, esses segmentos seguem sem conseguir criar novas vagas.

Segundo dados da Pnad Covid, pesquisa criada pelo IBGE para mensurar os efeitos da pandemia no país, desde maio foram cerca de 500 mil postos de trabalho perdidos nos serviços domésticos. Em um ano, o setor doméstico perdeu 1,7 milhão de postos, de acordo com a pesquisa Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua referente a julho. Por utilizarem metodologias distintas, as duas pesquisas não são comparåveis, mas apontam o cenårio dramåtico do trabalho doméstico.

Janaina Mariano de Souza, presidente do Sindicato das Empregadas e Trabalhadores DomĂ©sticos da Grande SĂŁo Paulo, diz que o setor estĂĄ em queda livre: a cada 10 atendimentos feitos pela entidade, 8 sĂŁo de domĂ©sticas desempregadas no perĂ­odo. “Para nossa categoria, a pandemia ainda estĂĄ fazendo estrago, o nĂșmero de domĂ©stica desempregadas estĂĄ crescendo.”

Além das demissÔes, contratos estão sendo suspensos. A estimativa é que para cada 100 novos papéis que chegam ao sindicato, 98 são para suspensão do serviço, com base na medida provisória instaurada pelo governo. A preocupação é que esses empregos sejam encerrados após o fim da iniciativa.

“Rodolpho Tobler, da Fundação Getulio Vargas, aponta que dois fatores estĂŁo prejudicando os serviços domĂ©sticos a voltar a criar vagas. O primeiro Ă© a cautela em relação Ă  renda, o segundo o medo de contĂĄgio da Covid-19.

“As pessoas evitam consumir serviços porque tiveram demissĂ”es ou salĂĄrios reduzidos. E a pandemia nĂŁo estĂĄ controlada, esse tipo de serviço demanda presença fĂ­sica, nĂŁo tem como ter serviço domĂ©stico sem ser assim, precisa estar presencialmente e isso tudo complica”, afirma o economista.

Ele avalia que, pelo fato de os empregados domĂ©sticos utilizarem transporte pĂșblico para trabalhar, acabam causando temor nos patrĂ”es de se contaminarem e levarem a doença para seus lares.

“E tem a questĂŁo da renda, ninguĂ©m tem certeza de que o salĂĄrio vai continuar estĂĄvel, as pessoas estĂŁo postergando esse consumo e aproveitam para nĂŁo ter gastos”.”

O especialista da FGV afirma que o corte no auxĂ­lio emergencial vai pressionar o mercado de trabalho, fazendo as pessoas irem Ă s ruas em busca de emprego.

“Com o benefĂ­cio caindo pela metade, isso pressiona o orçamento das famĂ­lias e elas ficam obrigadas a procurar emprego. Os R$ 300 nĂŁo sĂŁo suficientes para se manter, mas a economia nĂŁo reage tĂŁo rĂĄpido para absorver a todos, e muito vĂŁo fazer bico, para conseguir renda”, diz.

Além do trabalho doméstico, outros serviços com características semelhantes, como baixos salårios e alta informalidade, também foram duramente afetados pela pandemia do novo coronavírus.

Segundo a Pnad Covid, desde maio foram perdidos 350 mil vagas em alojamento e alimentação (como hotéis e restaurantes) e 300 mil em outros serviços. O segmento de outras atividades, que agrega serviços menores que não se encaixam em nenhum dos outros pesquisados, registrou perda de 2,9 milhÔes.

Somados, esses serviços concentram 4 milhĂ”es de postos de trabalho perdidos durante a pandemia e ainda nĂŁo mostraram reação, apesar do afrouxamento da quarentena nas Ășltimas semanas.Enquanto isso, outros setores jĂĄ mostram uma retomada gradual, como os de construção, comĂ©rcio e reparação de veĂ­culos e motocicletas, e nas indĂșstrias geral e de transformação.

Para o professor Ricardo Macedo, do Ibmec, esse cenårio ainda se relaciona com a crise sanitåria. Como serviços domésticos e prestados à famílias envolvem contato direto e aglomeração, a demanda segue desaquecida por um temor do consumidor de se expor.

O professor Otto Nogami, do Insper, diz que o processo de retomada do emprego nos serviços enfrenta dificuldades mesmo com a flexibilização.

“Muitos empresĂĄrios estĂŁo descobrindo que nĂŁo estĂĄ valendo a pena retomar a atividade, pois estĂĄ tendo mais prejuĂ­zo que lucro. Eles preferem manter o negĂłcio fechado atĂ© que a coisa realmente se estabilize e comece a voltar Ă  normalidade de uma maneira mais consistente.”

Outro fator que explica a falta de reação do emprego nesses setores é o auxílio emergencial, o benefício elevou a renda dos mais pobres a patamares inéditos, permitindo com que ficassem em casa em vez de se expor ao vírus.

Com o corte pela metade do benefĂ­cio, a tendĂȘncia Ă© que esses brasileiros voltem Ă s ruas para buscar um trabalho, o que vai pressionar a taxa de desocupação e de informalidade.

Soma-se a isso a alta na inflação de alimentos –em setembro, o IPCA registrou a maior alta para o mĂȘs desde 2003. “A cesta bĂĄsica ficou comprometida. É uma questĂŁo de sobrevivĂȘncia e manutenção de dignidade, essas pessoas serĂŁo obrigadas a voltar, e a informalidade vai crescer”, avalia o professor Ricardo Macedo.

Bloqueador de anuncios detectado

Por favor, considere apoiar nosso trabalho desativando a extensĂŁo de AdBlock em seu navegador ao acessar nosso site. Isso nos ajuda a continuar oferecendo conteĂșdo de qualidade gratuitamente.