Rio Branco, Acre,


Conheça os ex-criminosos e agora pastores que já salvaram da morte centenas no Acre

Reportagem do El País acompanhou o trabalho do grupo formado por cerca de 70 evangélicos

O El País Brasil veio ao Acre em 2020 para acompanhar de perto o trabalho da Equipe 91, um grupo de ex-criminosos e agora pastores evangélicos que intercedem a favor dos condenados à morte pelos tribunais do crime.

O resultado foi a reportagem especial do repórter Avener Prado que o ContilNet reproduz parcialmente a seguir. Ao final, o link para o texto completo no site do veículo espanhol. Confira:

O WhatsApp que salva da morte em Rio Branco

EL PAÍS acompanha na capital do Acre o trabalho da Equipe 91, formada por ex-criminosos agora pastores. Eles administram conflitos com facções e dão salvo-conduto para que integrantes deixem a vida fora da lei, desde que se tornem evangélicos. Presídio do Estado inaugura ala religiosa “livre” de grupos

Uma cortina improvisada substitui o vidro da porta em uma sala apertada e quente no centro de Rio Branco. Na casa vigiada por câmeras, o pastor Conrrado Sena senta-se na frente do conselheiro do Comando Vermelho, um dos articuladores da facção criminosa carioca que domina a capital do Acre. Em tom baixo e respeitoso, o pastor clama pelo perdão a um sentenciado à morte pelo tribunal do crime. É a última apelação para que o “decretado” tenha chance de viver. Enquanto Conrrado fala, o conselheiro do CV olha o telefone e responde a mensagens, fumando um cigarro. Ouve tudo em silêncio, esperando sua vez de falar sobre as mais recentes deliberações de sua gestão de conflitos. Tudo ali, relata o capo do CV, é prontamente investigado, avaliado e julgado em questões de horas, e por isso ele reclama da quantidade de problemas em que precisa intervir ―até incômodos menores, como música alta nas bocas de fumo, são de sua responsabilidade. Desta vez, para sorte de Paulino (nome fictício), houve clemência. O conselheiro da facção decidiu que o pequeno traficante de drogas da periferia será salvo.

Seis homens de pé e com os olhos fechados, levantam as mãos espalmadas para o alto. Liderados pelo pastor Conrrado, entoam cânticos religiosos e clamam pela vida de criminosos e pela graça alcançada de Paulino. Chega ao fim mais uma audiência da Equipe 91.

É uma rotina a que estão acostumados. Desde 2012, a Equipe 91 ―assim batizada por causa do salmo bíblico de mesmo número segundo o qual se livrarão da “peste perniciosa” os que estão ao lado do Senhor― cumpre a função de interceder por aqueles que prometem deixar o crime e abraçar Jesus Cristo. Evangélicos sem ligação com nenhuma igreja específica, os membros da equipe são ex-presidiários, ex-ladrões, ex-traficantes e homicidas que deixaram o crime e abraçaram a palavra de Deus. Cerca de 70 integrantes desenvolvem trabalhos de conversão em presídios, fóruns, igrejas, bairros, casas e onde mais puderem pregar, tudo de maneira precária com base em doações. O grupo estima que já tenha livrado da morte mais de mil pessoas, quer em audiências especiais improvisadas, como a que o EL PAÍS acompanhou em meados de agosto, ou virtuais. Nelas, a intervenção é feita sob medida e gravada pelo WhatsApp, e o vídeo enviado ao comando das facções serve como prova da mudança de vida.

Os pastores têm experiência precoce no mundo do crime. Conhecem todos os códigos do submundo violento do extremo norte do país. Com acesso às mais altas instâncias do tribunal da rua, debatem os problemas de quem tem a vida sujeita às leis das organizações criminosas. Uma vez parte, a porta de saída quase sempre é a da morte. Mas há uma regra clara: não se mata irmão “da caminhada de Jesus”, e é na brecha que a Equipe 91 entra. No dias em que a reportagem acompanhou o trabalho dos pastores, os telefones dos salvadores de almas acrianos não pararam de tocar noite a de. Pedidos de socorro, súplicas de ajuda para se inserir numa sociedade que não seja a do crime, mas pelo caminho “da bênção”, o termo para a conversão. Trata-se de um complexo esquema de sanções distintas por crimes distintos e anistia paralelas que só toca no sistema formal pelas arestas.

Na escuridão da periferia de Rio Branco, é o pastor Conrrado Sena, de 47 anos, quem conduz seu destacamento. Por telefone, recebe as coordenadas e repassa a todos. Juntos, vão decidindo o melhor caminho a ser percorrido, de carro. Há noites que chegam a visitar quatro destinos diferentes, com reuniões estendidas pela madrugada.

Era o início da noite de uma terça-feira, quando o telefone do pastor tocou. Era o conselheiro do CV retornando mais uma vez uma ligação. O grupo se encontra agora em uma clínica de reabilitação para dependentes de drogas nas redondezas de Rio Branco. O pastor explica que estão diante de um rapaz que, dias antes, fora resgatado após ser sentenciado à morte pelo tribunal do crime por cometer um estupro em seu bairro. A equipe o levou para a clínica.

Na presença dos envolvidos, a Equipe 91 instala a audiência. A conversa com os responsáveis pela sentença é por viva-voz:

― O jovem lá do negócio do estupro? — pergunta o conselheiro do Comando Vermelho.

― Isso, tá todo mundo te ouvindo… E aí, como é que tá a situação dele?

― Aqui [no bairro onde cometeu o estupro], ele não pode ficar. Se ele ficar aqui, aqui já era. Já foi decretado pra ele, já.

— Hummm… De todo jeito, então?

— Aqui? Deus me livre! Daquele jeito, da pior maneira.

— Tá bom, meu filho…

O missionário da Equipe 91 desliga o telefone, se dirige ao condenado: “Isso aqui é teu refúgio, pra tua vida ser transformada, pra tu viver e ganhar outras vidas. Jesus é quem salva, mas um lugar desse aqui protege”, diz Regimar Souza do Nascimento, de 46, um ex-veterano da velha guarda do crime de Rio Branco que está no grupo religioso. Com semblante resiliente, o sentenciado Maurício (nome fictício) se senta e ouve calado o sermão dos pastores. A partir de agora, ele será poupado, desde que aceite o Evangelho ―e não volte à comunidade onde cometeu o estupro.

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