A cada quatro horas uma mulher Ă© vĂ­tima de violĂȘncia no Acre, diz MPAC

Por TIÃO MAIA, PARA CONTILNET 16/05/2021 às 09:20 Atualizado: hå 5 anos

No Acre, estado brasileiro com o maior Ă­ndice de feminicĂ­dios proporcionalmente, a cada quatro horas, uma mulher foi vĂ­tima de violĂȘncia em 2020. Foram 1.964 denĂșncias de um crime que nĂŁo deu trĂ©guas mesmo na pandemia da Covid-19, quando esta modalidade de crime aumentou em percentuais considerĂĄveis, conforme denuncia a procuradora de Justiça PatrĂ­cia do Amorim Rego, do MinistĂ©rio PĂșblico do Estado do Acre (MPAC).

De março a dezembro de 2020, o Acre registrou nove feminicĂ­dios. Em quatro meses de 2021, cujos nĂșmeros nĂŁo foram fechados, nĂŁo houve registros de mortes, mas as delegacias de polĂ­cias de todo o estado estĂŁo abarrotadas de denĂșncias de violĂȘncia contra mulheres.

A cada quatro horas uma mulher Ă© vĂ­tima de violĂȘncia no Acre, diz MPAC

Das que foram mortas em 2020, todas eram da cor parda e tinham entre 17 e 50 anos. Os nĂșmeros assustam atĂ© mesmo quem tem larga experiĂȘncia no monitoramento do problema, como Ă© o caso da procuradora PatrĂ­cia Rego ou da desembargadora Eva Evangelista de AraĂșjo Souza, decana do Tribunal de Justiça do Acre (TJAC) e coordenadora de um programa do Poder JudiciĂĄrio que busca combater o problema que faz do Acre um dos estados – senĂŁo o maior – que mais agride e mata mulher. E os homens estĂŁo matando as mulheres muito mais com o uso de lĂąminas, as chamadas armas brancas, do que com armas de fogo. E nĂŁo sĂł no Acre.

Em toda a RegiĂŁo Norte do Brasil, registros policiais nos sete estados apontam que as facas aparecem muito mais do que revĂłlveres e pistolas como instrumentos do Ăłdio. A partir de 11 mil boletins de ocorrĂȘncia, o ObservatĂłrio de ViolĂȘncia de GĂȘnero (Ovgam), da Universidade Federal do Amazonas, juntou os relatos de mulheres do interior do Estado para descobrir essa face atĂ© entĂŁo oculta da violĂȘncia de gĂȘnero.

Socos e pontapés são outras formas que os homens encontram para matar mulheres no Norte. Em Tocantins, o ano de 2020 terminou com uma tragédia no movimento indígena. Myriwekwde Karajå, de 36 anos, moradora da aldeia Fontoura, na Ilha do Bananal. Ela foi espancada pelo marido, também indígena. Teve politraumatismo, hemorragia interna e recebeu diagnóstico positivo para a Covid-19. Morreu no dia 10 de janeiro de 2021. Ele fugiu.

Alarmada com as formas de violĂȘncia e com os nĂșmeros, a desembargadora Eva Evangelista estĂĄ divulgando uma campanha do Portal UOL, destinado a jornalistas nas redaçÔes de todo o paĂ­s, sobre como os profissionais de imprensa devem abordar familiares de uma vĂ­tima de feminicĂ­dio durante a apuração de uma reportagem. Que foto usar em matĂ©rias sobre denĂșncias de assĂ©dio sexual? Como evitar que uma mulher reviva um trauma durante uma entrevista?

De acordo com a campanha, questionamentos como os feitos no parĂĄgrafo anterior, fazem parte do cotidiano de quem trabalha com imprensa e Ă© obrigado a noticiar essa verdadeira guerra como o universo feminino. A campanha foi lançada na plataforma feminina do UOL, em 2018. Segundo levantamento do Alto Comissariado das NaçÔes Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), o Brasil ocupa o 5Âș lugar no ranking dos paĂ­ses com mais mortes violentas de mulheres. Na sĂ©rie Um vĂ­rus e duas guerras, feita pelo Portal UOL, que desde março procurou visibilizar, durante a pandemia do novo coronavĂ­rus, o fenĂŽmeno silencioso da violĂȘncia contra a mulher e o crime de feminicĂ­dio, o Estado do Acre mantĂ©m-se como um dos mais violentos do Brasil. Mesmo com reduçÔes proporcionais das denĂșncias em 2020, elas nĂŁo anulam o fato de que os nĂșmeros sempre estiveram em um patamar elevado. Os 2.501 casos registrados em 2019 jĂĄ indicavam que as mulheres acreanas sĂŁo obrigadas a conviver de perto com a violĂȘncia.

Nos dois primeiros levantamentos, a sĂ©rie mostrou que de março de 2020, quando foi decretada a pandemia da Covid-19 no mundo, a agosto, o Acre registrou seis feminicĂ­dios, mantendo-o entre os Estados que mais matam mulheres no Brasil. No Ășltimo quadrimestre, de setembro a dezembro de 2020, foram trĂȘs mulheres assassinadas: duas no mĂȘs de setembro e uma em novembro.

Os dados tĂȘm como base as estatĂ­sticas das Secretarias Estaduais da Segurança PĂșblica. O objetivo do monitoramento Ă© visibilizar a violĂȘncia domĂ©stica e o feminicĂ­dio contra a mulher durante a pandemia. Durante os meses de pandemia, de março a dezembro, 14 estados apontaram aumento no nĂșmero de feminicĂ­dios. Juntos, eles tiveram um aumento de 20% em comparação com o mesmo perĂ­odo de 2019. Mato Grosso e Pernambuco apresentaram a maior elevação em nĂșmero absolutos: 22 (73%) e 16 (36%) casos a mais, respectivamente, em comparação com o mesmo perĂ­odo do ano passado. Outro destaque Ă© o estado do Amazonas, que elevou o nĂșmero de feminicĂ­dios em 67% neste perĂ­odo.

Nos mesmos meses, dez estados apresentaram queda no nĂșmero de feminicĂ­dios. Os estados que apresentaram as maiores quedas em porcentagem foram o Distrito Federal (- 57%) e Rio Grande do Norte (- 47%) e em nĂșmeros absolutos foram o Rio Grande do Sul, com 29 casos a menos e Minas Gerais e Distrito Federal, ambos com redução em 17 casos.

Em 2020, a taxa mĂ©dia de feminicĂ­dios por 100 mil mulheres foi de 1,18. Em 2019, a taxa foi de 1,19. Conforme a anĂĄlise do monitoramento, 16 estados apresentaram taxas acima da mĂ©dia Estes correspondem a 45% da população feminina dos estados analisados (102 milhĂ”es) e foram responsĂĄveis por 61% das mortes ou 735 feminicĂ­dios. Os estados que apresentaram as maiores taxas sĂŁo Mato Grosso 3,56 e Roraima 2,95 – ambos com o triplo da mĂ©dia dos 24 estados e do Distrito Federal). Na contramĂŁo, 11 estados apresentaram taxas abaixo da mĂ©dia: CearĂĄ (0,57), Rio Grande do Norte (0,64) e SĂŁo Paulo (0,74).

Se o ano de 2020 foi particularmente difĂ­cil para as mulheres, especialmente as vĂ­timas de violĂȘncia domĂ©stica, 2021 corre o risco de ser ainda pior porque nĂŁo hĂĄ qualquer perspectiva de que o paĂ­s reverta as crises sanitĂĄria, econĂŽmica e polĂ­tica que enfrenta simultaneamente.

“É tudo muito preocupante porque, apesar de iniciativas de polĂ­ticas pĂșblicas contra isso, a violĂȘncia teima em acontecer”, disse Eva Evangelista. “O governo do Acre tem adotado inciativas louvĂĄveis, mas Ă© preciso avançar muito mais”, disse.

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