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Por que os cidadãos não estão conseguindo acessar seus benefícios previdenciários no INSS?

Por SAMARAH MOTTA, PARA CONTILNET

Por que os cidadãos não estão conseguindo acessar seus benefícios previdenciários no INSS?

A modernização do serviço público de assistência social e previdenciário que é executado pelo Instituto Nacional do Seguro Social – INSS inaugurou uma nova forma virtual de atendimento aos seus beneficiários, a ferramenta “Meu INSS”, com a promessa de melhorias e acessibilidade. No entanto, o que aparentemente significaria uma “comodidade” aos usuários, visto a ideia de praticidade no acesso aos benefícios sociais por meio da internet e da telecomunicação, passou a representar um grande desafio aos beneficiários.

O perfil dos cidadãos que buscam os serviços públicos de assistência social e benefícios são de pessoas urbanas e rurais com baixa renda, idosos, enfermos e deficientes. Essas pessoas, em regra, não possuem acesso às tecnologias. Na prática, basta imaginar a situação de uma mãe analfabeta que vive em zona rural no interior do Acre, com um filho menor com câncer e que precisa acessar a um benefício assistencial para conseguir realizar o tratamento de saúde na capital de Rio Branco. Provavelmente, essa criança não terá acesso ao benefício assistencial.

Desde a implementação do “Meu INSS”, as chances de acesso aos benefícios constitucionais sociais e previdenciários se tornaram mais difíceis. Além das pessoas mais vulneráveis não serem apta para a utilização dos serviços virtuais, estes também apresentam falhas técnicas, obstruindo o acesso aos serviços públicos. À título de exemplo, em outubro de 2020, o INSS apresentou mais de 1,8 milhão de pedidos de benefícios à espera de resposta em meio à Pandemia do Covid-19.[1]

Dentre as principais dificuldades de acesso ao “Meu INSS”, estão: (i) erro do segurado ao solicitar o benefício; (ii) falta de documentos no pedido do benefício; (iii) dados divergentes no cadastro nacional de Informações Sociais (CNIS); (iv) exigências de documentos “legíveis”; (v) morosidade de resposta do INSS aos pedidos de benefícios, dentre outros. Além desses problemas, há novas exigências relativas à perícia que dificultam o acesso aos benefícios.Em 16 de abril de 2021, o Jornal Nacional divulgou que as novas exigências dificultam o acesso do segurado do INSS à perícia virtual. O governo federal sancionou uma lei que autoriza o INSS a conceder auxílio-doença sem necessidade de perícia presencial, mas a avaliação online traz novas exigências.

Segundo Diego Cherulli, vice-presidente do Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário – IBDP, antes, o segurado anexava no aplicativo do INSS apenas o laudo médico, comprovando a doença que provocou o afastamento do trabalho. Agora, é preciso incluir resultados de exames, se for o caso, inclusive os mais sofisticados, como tomografias e ressonâncias e enviar tudo pela internet, além de descrever os sintomas.[2]

A exigência desses documentos gera uma dificuldade natural do segurado de baixa renda em obtê-los. Não só para conseguir o documento em si, dependendo da Secretaria de Saúde, mas também para scanear. O direito previdenciário não é um favor, é um direito garantido pela Constituição Federal, pelas leis, por decretos”, diz o vice-presidente do IBDP.

Num país como o Brasil, onde a desigualdade social é uma das maiores do mundo, o reconhecimento dos direitos sociais como garantias constitucionais são fundamentais para garantia do “mínimo existencial”. Por esse “mínimo”, deve-se entender a efetivação dos direitos sociais, tais como, saúde, alimentação, educação e habitação. Segundo Weber “o mínimo existencial está alicerçado no direito à vida e na dignidade da pessoa humana”.

Enfim, sob a perspectiva do direito fundamental ao serviço público adequado, a aceleração da virtualização na prestação de serviços assistenciais tem se mostrado materialmente falha, o que impossibilita a efetivação desse direito. Os sistemas digitais implementados pelo Poder Público no âmbito nacional são eivados de falhas técnicas gerando demandas reprimidas e inacessibilidade dos mais necessitados aos benefícios sociais.


[1] Folha de São Paulo (2021): “INSS tem fila de 1,8 milhão de pedidos de benefícios à espera de resposta”. Disponível em: https://agora.folha.uol.com.br/grana/2020/10/inss-tem-fila-de-18-milhao-de-beneficios-a-espera-de-resposta.shtml.

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