Avelino de Medeiros Chaves, o homem que era tratado como rei em Sena Madureira

Avelino de Medeiros Chaves, o homem que era tratado como rei em Sena Madureira

Ter o seu nome emprestado à principal avenida de Sena Madureira, o terceiro município mais populoso e mais importante do Acre, seria uma grande homenagem para qualquer um. Mas, para Avelino de Medeiros Chaves, um sergipano que veio fazer fortuna na região do Purus, dar nome à Avenida principal da cidade estå muito longe dos títulos de um homem que não por acaso, em sua época, era tratado como Rei da Borracha no Norte do Brasil.

E o seringalista, um bilionĂĄrio para os padrĂ”es da Ă©poca, inĂ­cio do sĂ©culo passado, se permitia mesmo a vida de rei e promovia lautas festas nos salĂ”es da Europa, incluindo Berlim, na Alemanha, e Paris, na França, segundo revela o jornal “O Brasil Acreano”, em sua edição de 7 de maio de 1910.

Uma dessas festas na Alemanha deu-se a 2 de setembro de 1910. O Rei da Borracha ofereceu um almoço, no salão do Kaiser, do Hotel Adlon, em Berlim, ao qual compareceram cinquenta oficiais prussianos e brasileiros, às ordens do marechal Hermes da Fonseca, então em visita àquele país. Da Alemanha, o seringalista esticou a viagem até Paris, onde comprou, associado a Fernandes Melo Filho, o jornal Le Courrier Du Brésil, destinado à propaganda do nosso País, no Velho Mundo.

Durante essa visita Ă  Europa encomendou trĂȘs modernas embarcaçÔes, para as suas firmas: a lancha Sena Madureira, a Alvarenga Catiana e o vapor Guanabara. A lancha Sena Madureira foi construĂ­da nos estaleiros franceses Chaparelle, tendo o casco de aço galvanizado,13 metros de comprimento, 2,80 metros de boca, 1,10 metros de pontal e 60 cavalos de força, sendo destinada Ă  linha Iaco-Purus, atĂ© Boca do Acre. Traria a reboque a Alvarenga Catiana, fabricada pela empresa alemĂŁ H. Holtz, com 48 pĂ©s de comprimento e 80 centĂ­metros de calado, dispondo de beliches e banheiros e cozinha.

O barco principal seria o Guanabara, cuja primeira subida, ao Iaco, estava prevista, para março 1911, mas fora retardada por uma greve, nos estaleiros ingleses, o que atrasara a sua entrega. O jornal “A ProvĂ­ncia do Pará” informava que o barco fora classificado sob o nÂș100 A 1 Lloyd Register, como navio de primeira classe para rios, sendo construĂ­do pela Dundee Shipbuilding Cy Ltd, de Dundee, na EscĂłcia. PossuĂ­a quatorze camarotes de primeira classe, com divĂŁs, beliches e guarda roupas, acomodaçÔes de terceira classe, camarotes, no bico da proa, destinados aos oficiais, alojamento de oito camas, para os tripulantes, duas cĂąmaras espaçosas, no convĂ©s, reservadas ao comandante e ao proprietĂĄrio, e instalaçÔes sanitĂĄrias Havia ainda um magnĂ­fico salĂŁo de refeição, a popa, tendo quatro mesas de mĂĄrmore, ventiladores e um piano automĂĄtico, com vasto repertĂłrio, e um salĂŁo para jogos e fumantes.

Os relatos dos jornais da época informam que o barco fora equipado com cùmeras frigoríficas, destiladores de ågua potåvel, uma måquina com a capacidade de fabricar 150 quilos de gelo por dia, um grande conforto para as regiÔes de calor tropical, além de energia elétrica. O navio media 140 pés de comprimento, 29, de boca e 8,5, de pontal moldado e as måquinas de tríplice expansão tinham 350 cavalos de força, consumindo 6.5 toneladas de carvão por dia, e desenvolvendo 11 milhas por hora, em velocidade de cruzeiro, e 12, de måxima. Estava equipado com guindastes elétricos, lanchas e motores americanos.

A viagem inaugural começaria em Belém, a 22 de janeiro de 1912, tendo a embarcação chegando a Sena Madureira, a 14 de fevereiro. Conforme as descriçÔes da época, o seu rancho primava pela qualidade, sendo composto de conservas e bebidas finíssimas compras na França, Alemanha e Inglaterra.

Ao regressar ao Acre, Avelino Chaves foi nomeado Comandante Superior da Guarda Nacional do Alto Purus, chegando a Sena Madureira, pelo navio Ajudante, sendo alvo de calorosa acolhida, dizem os jornais da época.

Avelino Chaves chegara a regiĂŁo do Purus por volta dos 34 anos de idade, estimam historiadores, por volta de 1909. Ele nascera a 4 de novembro de 1875, em SĂ­tio do Meio, no Estado de Sergipe.

Aos dezessete anos tomara o rumo do Parå, como faziam todos os nordestinos desejosos de se libertarem das mås condiçÔes de vida dos seus berços natais. Dali foi para o Rio de Janeiro tentar a vida militar, sentando praça, em 1893. Mais tarde, voltando à Belém, concluiu o curso de Agrimensura, pela Escola Politécnica do Parå e, com o seu diploma, embarcou para o Acre, em 1896, chegando a região que era considerada um paraíso para os demarcadores, como o era toda a AmazÎnia, ganhando os altos rios. Lå tomou parte de todos os movimentos contra os bolivianos e abriu uma estrada entre o alto Iaco e o Xapuri.

Em 1912, sendo titular da firma A. Chaves & Cia., da qual tambĂ©m era sĂłcio JoĂŁo CĂąncio Fernandes, outro nome de logradouros pĂșblicos em Sena Madureira, como o Ășnico hospital da cidade, possuĂ­a os seringais Brasil, Guanabara, Arvoredo e Peri, no Iaco; CanadĂĄ, no rio Acre, e PanamĂĄ, CalifĂłrnia e Mato Grosso, no Xapuri. Em 1909, jĂĄ estava rico, pois somente o seu seringal Guanabara produzia 190.000 quilos de borracha, jĂĄ tendo descido 144.000, pelo vapor Índio do Brasil, o que lhe propiciaria uma viagem Ă  Europa, aonde iria, a passeio e a negĂłcio, visando a aquisição das embarcaçÔes necessĂĄrias ao seu comĂ©rcio em expansĂŁo. A produção de 190 toneladas, somente em um dos seus seringais equivaleria, em setembro daquele ano, a umas 475.000 libras esterlinas ou 3600 quilos de ouro, uma gigantesca fortuna, para os padrĂ”es da Ă©poca.

De passagem por Sena Madureira, anunciou, aos amigos, que ficaria hospedado, no Rio de Janeiro, no Hotel Avenida, e, em Paris, no Grand Hotel. “Apesar de nĂŁo ser de fato um rei, o coronel Avelino Chaves gostava de beber e comer, como comem e bebem os verdadeiros reis”, registra o diĂĄrio de bordo publicado em “O Alto Purus”, jornal da Ă©poca. “Nisso ele Ă© fidalgo e nobre. Procura passar tĂŁo bem a bordo do Guanabara, como se estivesse hospedado, no Hotel Esplanada, em Berlim”, completa o diĂĄrio.

“Quando nos achĂĄvamos fronteiros ao seringal SĂŁo Pedro do ArimĂŁ, estĂĄvamos Ă  mesa. Nesse momento, um nosso companheiro, seringueiro do rio Pauini, pĂŽs açĂșcar na tartaruga, que devorava! A nossa admiração nĂŁo se fez esperar e para atenuĂĄ-la contou-nos que neste lugar, ao enterrar-se um defunto, matou-se um judeu ao pĂ© de uma sepultura”, revela outro trecho do diĂĄrio de bordo.

De acordo com as publicaçÔes da Ă©poca, alĂ©m de A. Chaves & Cia., numerosas firmas possuĂ­am modernos barcos, como a empresa Rocha & Silva, de BelĂ©m, da qual Childerico Fernandes era sĂłcio, que recebera, em agosto de 1910, o vapor Yaco, construĂ­do pelo estaleiro Murdock &Myrray, de Glasgow, dirigido pelo engenheiro James Branner. Pertencia ao tipo de VictĂłria tendo 145 pĂ©s de comprimento; 31, de boca, e 8 e Ÿ, e de pontal, com 371 toneladas brutas. Seu casco era de aço, sendo movimentado por uma mĂĄquina de 90 cavalos comodidades do Guanabara, alĂ©m de uma estuda a vapor capar de escaldar um fardo de carne seca.

Dezenas de outros navios de aço navegam pela AmazÎnia, fazendo circular seus produtos e tornando a vida do interior mais cÎmoda. Neste tempo, a euforia dos altos preços da borracha animava a todos, no sentindo de aplicarem seus capitais em investimentos lucrativos e de råpido retorno, como os navios, que ao mesmo tempo livravam os seringalistas dos escorchantes fretes cobrados pelos armadores.

Apesar de jå ter passado o seu período åureo, em 1915, ainda se matinha grande o movimento de embarcaçÔes para o Alto Purus e Iaco, como atestava o movimento do porto da cidade de Sena Madureira, em março daquele ano. Não hå registros de como chegou ao fim do império e do próprio Avelino Chaves.

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