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29 julho 2021 4:04 pm

“Fiquei com duas crianças para criar sozinho”, lamenta pai de gêmeos recém-nascidos, que perdeu esposa para covid

Maria do Socorro Brito de Araújo morreu aos 36 anos de covid-19, no RJ, sem ao menos pegar seus bebês no colo

POR REVISTA CRESCER

“Eles estão muito bem de saúde”, comemora Ranielly Freitas, 17 anos, referindo-se aos seus irmãos gêmeos Rhenzo e Enzo.

Os bebês receberam alta hospitalar no dia 28 de maio, após nascerem prematuros.

Ela, que morava com os avós em Santo André, Paraíba, mudou-se temporariamente para o Rio de Janeiro para ajudar o padrasto a cuidar dos pequenos, após a mãe, Maria do Socorro Brito de Araújo, morrer aos 36 anos de covid-19, no dia 21 de maio — sem ao menos pegar seus bebês no colo.

“Como eu testei positivo para a covid, não conseguimos cuidar deles nos primeiros dias. Então, eles tiveram que ficar na casa de parentes. No entanto, na semana passada, trouxemos eles para casa. Desde então, estou conseguindo dar conta. A maior parte do meu tempo é para eles”, disse a jovem.

Ela disse que, emocionalmente, a família está “tentando criar forças”. “Foi muito difícil passar por toda essa situação. Depois que minha mãe morreu, eu tive covid e meus avós maternos também. Foi muito difícil”, lamenta.

Maria do Socorro tinha cinco filhos e trabalhava fazendo limpeza em um condomínio.

Ela contraiu covid-19, foi internada e, assim como milhares de brasileiros, não teve a chance de se despedir da família.

Sobre a mãe, Ranielly conta que ela era “jovem, bonita, saudável e não tinha nenhum problema de saúde”.

“Era uma pessoa amada e querida por todos. Estava muito ansiosa, muito feliz e só falava dos gêmeos. Ela sempre quis ter filhos gêmeos, e deixou o quartinho todo preparado para as crianças”, conta.

A jovem disse que os sintomas da mãe começaram no dia 3 de maio.

“No dia 5, quando cheguei, ela teve que ir para a maternidade, pois estava com muita dor e febre. Depois disso, não consegui mais vê-la. Lá, testou positivo e já ficou internada. Cheguei a conversar com ela por mensagem de texto e ela disse que estava bem e havia feito exames”, lembra.

Douglas Nicodemos da Silva, marido de Socorro, conta que ela adoeceu poucos dias antes da cesárea, que já estava marcada.

“Quando faltavam apenas oito dias, ela começou a sentir febre. Levei ela para a maternidade e começou a agonia. Meus filhos nasceram, veio aquela alegria, logo depois, ela foi para a enfermeira e estava confiante que viria para casa, e eu também. De repente, voltou para a UTI e começou de novo o desespero, sem ter noticias, só uma vez por dia. Isso era muito angustiante. Ela apresentava melhoras e pioras; oramos muito, mas, de repente, foi entubada. O sofrimento amentou, mas nós sempre com esperança”, disse ele à CRESCER. “Mesmo esperançosa, ela ficou muito triste porque não pode pegar os bebês no colo. Só pode vê-los de longe”, lembra Ranielly.

O estado de saúde de Maria do Socorro piorou no dia 15 de maio, quando precisou ser entubada.

“Nesse momento, ela já estava com 50% do pulmão comprometido. No domingo (16), segundo os médicos, ela reagiu bem, chegou a ficar estabilizada, depois apresentou até uma melhora. Mas no dia 21, teve uma infecção generalizada e, à noite, uma paradacardiorrespiratória. Infelizmente, ela não resistiu. Douglas perdeu uma esposa, meus irmãos e eu perdemos uma mãe, meus avós perderam a filha… Tudo o que a gente precisava, ela sempre estava ali para ajudar e estava sempre feliz”, lamenta a jovem. “Quando veio a notícia para eu comparecer ao hospital, já sabia. Foi o dia mais triste que já tive até hoje. Não gosto nem de ficar lembrando”, disse Douglas.

Socorro tinha 36 anos e, segundo a família, não tinha problemas de saúde (Foto: Arquivo pessoal)
Socorro tinha 36 anos e, segundo a família, não tinha problemas de saúde (Foto: Arquivo pessoal)

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“Antes de morrer, minha mãe disse que se algo acontecesse, ela gostaria que eu cuidasse das crianças. E vou fazer isso, junto com o marido dela. Nesse momento, estou na casa dela, no Rio de Janeiro, e pretendo ficar pelo menos até os gêmeos completarem 1 ano de vida. Vou ser a mãe deles agora. Vou dar todo o amor de que eles precisam. Vou estar aqui para cuidar deles. Infelizmente foi uma perda irreparável. Perdi o grande amor da minha vida, nunca vou esquecer ela”, disse a primogênita.

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