26.3 C
Rio Branco
5 setembro 2021 8:54 am

Músico do AC compõe música em homenagem ao filho que morreu após tentativa de assalto: “Refúgio”

O artista Tony Ferreira canta há mais de 35 anos no estado, mas se encontrou no ramo da composição após morte do filho, no início de 2019. Desde então, já escreveu cerca de 10 músicas autorais

POR RENATO MENEZES, PARA CONTILNET

“A poesia é um ato de paz. A paz entra dentro da composição de um poeta tal como a farinha entra na composição do pão”. Esta frase do poeta chileno Pablo Neruda descreve bem a trajetória de compositor que o músico-cantor acreano, Tony Ferreira, trilhou desde 2018, quando perdeu seu filho primogênito, José Ramon, após uma tentativa de assalto.

Mesmo cantando em todo o estado por mais de 35 anos, e sempre rodeado de amigos e admiradores, no dia 10 de dezembro de 2018 ele se viu em uma situação a que jamais imaginara. O filho de Tony, na época com 26 anos, sofreu uma tentativa de assalto e acabou sendo alvejado com disparos de arma de fogo. Aquela data nunca mais saiu de sua cabeça.

“Depois que ele saiu da igreja com a esposa e um casal de amigos, eles foram tomar sorvete na Zero Grau do Tucumã, quando vieram os meliantes e anunciaram o assalto. Pelo impulso, ele tentou defender sua esposa e não permitir que levassem seu celular, mas levou um tiro que o fez lutar pela vida durante 39 dias”, falou.

Tony Ferreira já canta há mais de 35 anos. Foto: Arquivo pessoal

REFÚGIO

O primogênito acabou não resistindo aos ferimentos e morreu no dia 19 de janeiro de 2019. Diante da situação desesperadora a que o músico enfrentara, ele se viu sem os amigos que pensava que poderia contar. Com a conversão de Tony ao cristianismo, ele enxergou na música e na composição um refúgio diante dos obstáculos e dores que vivenciou com tanta intensidade.

“O curioso é que ele (filho de Tony) vivia me chamando para a igreja e eu nunca tinha tempo ou não dava ouvidos. Portanto, senti a necessidade de externar um pouco de minha experiência com Deus em forma de canção. Apesar dos meus tantos anos como artista, nunca tinha pensado em gravar ou compor canções, mas talvez por conta de tudo que passei, encontrei nelas um tipo de refúgio”, disse.

José Ramon morreu aos 26 anos após 39 dias de internação. Foto: Arquivo pessoal

COMPOSIÇÕES

O músico, hoje com 53 anos, já compôs mais de 10 músicas dos mais diversos estilos. Dentre elas, ele destacou uma que fez em dedicatória à esposa, outra em ode à Revolução Acreana e outra ainda que fala sobre as dificuldades que os artistas enfrentam com a pandemia de Covid-19.

Esta última, intitulada “Por Nossas Vidas”, é interpretada por ele e por mais 9 artistas e já acumula mais de 100 mil visualizações nas plataformas digitais, sendo a maioria destes, ouvintes de fora do estado. “Como sobreviver sem poder trabalhar? O artista sem público é como baleia sem mar. Vamos dar as mãos e acreditar que a força da nossa união pode a nossa história mudar”, diz o trecho da música.

HOMENAGEM AO FILHO

No entanto, dentre as músicas autorais, destaca-se a que Tony escreveu em homenagem ao primogênito, intitulada “Único Amigo Fiel”. A canção fala sobre como ele se sentiu sozinho após a morte precoce do filho, e sobre como Deus o ajudou a amenizar a dor que sentia. “Quando me vi sozinho mais uma vez, percebi que vivia sem mim, mas com os olhos da carne. Era impossível te ver, não tinha tempo pra ti”, diz na canção.

Além de todos os motivos de tristeza possíveis, o compositor disse que se empenhou em escrevê-la pois queria eternizar, em forma de arte, um pedido que o filho fizera quando ainda estava vivo: de que ele se convertesse a Jesus. “Por isto, ela se tornou um agradecimento e exaltação ao único amigo fiel, senhor Jesus, e também uma homenagem ao meu filho”, finalizou.

Veja a letra da música:

spot_imgspot_imgspot_imgspot_img
É permitida sua reprodução total ou parcial desde que seja citada a fonte. Opiniões emitidas em artigos e comentários são de responsabilidade exclusiva dos autores.