HĂĄ 54 anos, morria Che Guevara; guerrilheiro entrou na BolĂ­via pelo Acre, dizem historiadores

HĂĄ 54 anos, morria Che Guevara; guerrilheiro entrou na BolĂ­via pelo Acre, dizem historiadores
Sua imagem mais conhecida até hoje virou um símbolo cultural. Foto: Reprodução

Era uma sexta-feira, como a hoje, naquele oito de outubro de 1967, quando o exĂ©rcito boliviano, com apoio da CIA, a central de inteligĂȘncia do governo norte-americano, fez, com algum orgulho, a exibição daquele cadĂĄver, crivado de balas. Jogado sobre uma carroça de boi, despido da cintura para cima, esquĂĄlido e com barba por fazer, o corpo era do lĂ­der guerrilheiro Ernesto Che Guevara, mas a fragilidade das imagens apontava mais para uma espĂ©cie de santo, uma imagem bem diferente daquela cultuada em todo o mundo desde quando foi tirada, em 1960, pelo fotĂłgrafo argentino Alberto Diaz Gutierrez Korda.

Diferente da imagem em que o guerrilheiro aparece com sua indefectĂ­vel boina preta com uma estrela vermelha, com barba e cabelos ao vento, o Guevara daquela carroça lembra mais a imagem de Jesus Cristo recĂ©m-retirado da cruz. AliĂĄs, no lugarejo de Vallegrande, em cuja selva Guevara fora capturado e morto, nos arredores da cidade Santa Cruz de La Sierra, a pouco mais de 1.200 quilĂŽmetros de distĂąncia em relação Ă  fronteira com o Brasil, no Alto Acre, hĂĄ, atĂ© hoje, informaçÔes de que, por ali, o lĂ­der guerrilheiro Ă© santificado e opera milagres em relação Ă  população local. O que pouca gente sabe Ă© que, pelo menos trĂȘs meses antes de entrar no territĂłrio boliviano para tentar um levante militar nos moldes da Revolução em Cuba, ao lado de Fidel Castro, o homem que se tornaria mito da ideologia de esquerda e que Ă© celebrado em todo o mundo, passou pelo Acre e, em Rio Branco, teria mantido contatos com acreanos simpatizantes de sua causa.

Guerrillero Heroico: fotografia de Alberto Korda tirada em 5 de março de 1960 ficou imortalizada. Foto: Reprodução

Dois desses acreanos com os quais o lĂ­der guerrilheiro se avistara em busca de informaçÔes sobre a situação na BolĂ­via teriam sido o futuro lĂ­der sindical Chico Mendes e o ativista polĂ­tico conhecido como JoĂŁo Borborema, ambos jĂĄ falecidos. O provĂĄvel encontro de Chico Mendes com o guerrilheiro teria se dado na incipiente BR-317, ainda sem asfalto e que nĂŁo passava de um caminho de serviço, nas redondezas da fazenda Filipinas, nos arredores de Xapuri, para onde o entĂŁo jovem Chico Mendes teria sido orientado a ir se encontrar “com uma pessoa importante da polĂ­tica mundial” e que depois, quando jĂĄ era famoso, ao ver uma fotografia do homem com o qual estivera contato, era ninguĂ©m menos que Che Guevara.

Esta histĂłria era o prĂłprio Chico Mendes que contava aos seus amigos mais prĂłximos, como o comerciante e servidor pĂșblico JoĂŁo Mendes, o “JoĂŁo Garrinha”, dono de um hotel pousada em Xapuri. “Ele me contou isso mais de uma vez sem maiores detalhes”, chegou a revelar “Garrinha” em conversas com amigos.

A história, a propósito, está registrada oficialmente, com alguma alteração, já que, pela história escrita o encontro teria sido casual e Chico mendes, na verdade, não sabia ao certo com quem estava falando. Numa entrevista concedida ao sociólogo Pedro Vicente, ex-delegado do Sesc no Acre, professor da Universidade Federal do Acre (Ufac) e autor do livro “Exercícios Circunstanciais”, publicado em 1997 pela editora Coivara, de Natal (RN), Chico Mendes faz o seguinte depoimento sobre caso. Chico Mendes com a palavra:

“Eu nunca tinha visto seu retrato (do Che), porque nĂŁo circulavam revistas ou jornais no seringal, mas tinha ouvido seu nome atravĂ©s da RĂĄdio Central de Moscou. NĂŁo me recordo bem o ano, creio ter sido em meados de 65 ou 66. Eu estava caminhando pela BR-317 e, cansado, parei no bar no entroncamento, a 12 quilĂŽmetros de Xapuri. Naquele instante chegou um cidadĂŁo vindo das bandas de Rio Branco. Demonstrava ser uma pessoa muito educada; encostou-se no bar e puxou conversa comigo e com outros que estavam prĂłximos. Falou que tinha interesse em conhecer a selva amazĂŽnica, principalmente, os seringais e a selva boliviana. Indagou se eu era seringueiro. Respondi que sim e hĂĄ muitos anos. Perguntou se eu nĂŁo gostaria de acompanhĂĄ-lo atĂ© atĂ© os seringais da BolĂ­via, pois nĂŁo tinha costume de caminhar na selva. Precisava de uma pessoa que conhecesse os varadouros e o levasse na direção da fronteira. Dava para identificar que nĂŁo era brasileiro, misturava portuguĂȘs com espanhol. Ele conduzia uma mochila, falou que possuĂ­a joias que aproveitava para vender e sobreviver durante o percurso. NĂŁo dispunha de muito dinheiro, mas perguntou quanto eu queria por dia para ir com ele atĂ© onde pudesse. NĂŁo aceitei o convite. AlguĂ©m me disse que era perigoso, podia ser um bandido. NĂŁo acreditei, mas nĂŁo podia ir. Alguns meses depois, em Xapuri, passei diante da delegacia e um retrato me chamou atenção. Dizia que Che se encontrava em territĂłrio boliviano para organizar o terror na regiĂŁo. Fiquei abalado. Lembrei-me que havia visto e conversado com aquela pessoa no entroncamento. Nunca pude imaginar – pensei comigo mesmo – que aquela pessoa fosse um terrorista. Olhei vĂĄrias vezes a fotografia. NĂŁo tive a curiosidade de pegar a propaganda, um cartaz, e guardar comigo. Tempos depois, ao ler o livro sobre a guerrilha do Che na BolĂ­via reafirmei a convicção de que cruzei com ele. Posso afirmar com certeza: era o Che!”.

Pedro Vicente, o sociĂłlogo que colheu este depoimento de Chico Mendes, jĂĄ Ă© falecido. Como tambĂ©m o padre JosĂ© Carneiro de Lima, um personagem controverso da histĂłria do Acre. Em artigo publicado no semanĂĄrio “O Jornal”, de Rio Branco, em 1980, o religioso conta que, na mesma Ă©poca, Che teria feito indagaçÔes a seu irmĂŁo, Padre Peregrino, sobre como se deslocar para a localidade boliviana Santa Rosa, no alto rio AbunĂŁ. O frei indicou alguĂ©m que possuĂ­a canoa motorizada e levou o comandante da Revolução Cubana ao local onde o aguardava um aviĂŁo. O prĂłprio padre JosĂ©, algum tempo depois, toparia durante uma desobriga no rio Acre, com dois “coronĂ©is do exĂ©rcito brasileiro” no seringal Itu. Segundo ele, os “coronĂ©is”, falando mal o portuguĂȘs, prometiam muitas coisas e anunciavam para breve uma revolução no Brasil. Desconfiado, o padre seguiu imediatamente para Xapuri, fez contato com os militares e descobriu que os dois eram, na verdade, Inti Peredo e Dario, companheiros de guerrilha de Che Guevara, tambĂ©m mortos na BolĂ­via.

Che Guevara morreu dia 08 de outubro de 1967, com 39 anos em La Higuera, Santa Cruz, Bolívia. Foto: Reprodução

JĂĄ o possĂ­vel encontro de Guevara com JoĂŁo Borborema Ă© contado pelo professor de HistĂłria da Universidade Federal do Acre (Ufac), Daniel da Silva Klein, em tese de Doutorado em HistĂłria Social pela Universidade de SĂŁo Paulo e tambĂ©m nos Anais do XXVI SimpĂłsio Nacional de HistĂłria – ANPUH, tambĂ©m em SĂŁo Paulo, julho 2011. O tĂ­tulo do texto Ă© “Comunistas, revolucionĂĄrios e a passagem de Che Guevara pelo Acre: um olhar sobre um contexto de resistĂȘncias entre 1962 e 1966”.

De acordo com este historiador, “a possĂ­vel passagem de Che Guevara Ă© lembrada noutras histĂłrias que nĂŁo contradizem a que contamos, mas a complementam”. Duas grandes biografias do guerrilheiro estudadas pelo historiador acreano mostram que Guevara entrou na BolĂ­via pelo Mato Grosso. É o que dizem os autores a de Jon Lee Anderson (2005), norte-amerricano, e outra de Jorge Castanheda (1997), mexicano, ambos biĂłgrafos do lĂ­der guerrilheiro. “As duas biografias trazem informaçÔes complementares, a despeito dos pontos de vista divergentes entre um autor norte americano e outro mexicano”, escreve Daniel Klein.

Os dois dizem que Che Guevara chegou à Bolívia entre outubro e novembro de 1966, após ter feito uma viagem de avião que saiu de Cuba, passou por Madri e chegou a São Paulo. Da capital paulista tomou um Înibus para Corumbå no Mato Grosso, daí foi de jipe com algumas pessoas para Cochabamaba, em território boliviano. Durante o trajeto Che Guevara teria usado um disfarce e até duas identidades provenientes do Uruguai, cujos nomes são de Adolfo Mena Gonzåles e Ramon Benítez Fernandez.

Os registros fotogrĂĄficos dos documentos forjados por Che Guevara para essa viagem mostram um indivĂ­duo usando grandes Ăłculos, chapĂ©u inglĂȘs, sobretudo e barba aparada. A aparĂȘncia do guerrilheiro estava sensivelmente modificada para parecer um pacato, velho e honesto trabalhador qualquer do Uruguai.

Jorge Castanheda diz que baseou suas informaçÔes sobre esse trajeto de Che Guevara a partir de dois passaportes apreendidos pelo exercito boliviano, que tinham a mesma foto e carimbos de entrada e saída com dias diferentes do aeroporto de Madri. Sem aprofundar o questionamento das fontes de sua pesquisa o autor diz que tudo permite concluir que o trajeto de Cuba à Bolívia foi efetivamente o que consta nos documentos apreendidos.

No dia 8 de outubro de 1967, tropas da Bolívia mataram o líder Ernesto Che Guevara. Foto: Reprodução

Mas Ă© exatamente os documentos apreendidos pelos militares bolivianos podem ser oriundos de um estratagema montado por Che Guevara para confundir os serviços internacionais de espionagem, nĂŁo evidenciando, de maneira automĂĄtica, o seu trajeto para chegar Ă  BolĂ­via. “Portanto, o problema levantado ainda persiste, porque as pistas e evidĂȘncias constantes nos documentos apreendidos de Che Guevara nĂŁo respondem satisfatoriamente a pergunta de como ele chegou Ă  BolĂ­via. É provĂĄvel que a resposta a tal pergunta esteja viva nas reminiscĂȘncias de alguns antigos ativistas dos movimentos comunistas e de esquerda residentes na cidade acreana de Rio Branco”, escreve o historiador.

Daniel Klein conta que, em uma noite do final de 1966, o acreano JoĂŁo Borborema, a quem ele entrevistaria para sua tese, Ă© surpreendido com uma estranha visita por volta das vinte horas. “Um homem alto, barbado, de porte fĂ­sico considerĂĄvel e carregando uma volumosa mochila bateu na porta de sua casa. Quando JoĂŁo Borborema atendeu, o homem lhe perguntou: “Es Juan, hermano de Raimundo?”.

Raimundo Borborema, que vem a ser pai do falecido cantor TiĂŁo natureza, assassinado em agosto de 1992 em Rio Branco, Ă© irmĂŁo de JoĂŁo Borborema e deixou o Acre com destino a Cuba, por influĂȘncia de amigos simpĂĄticos Ă  vitoriosa revolução cubana conduzida por Fidel Castro e Che Guevara, dissera, antes de deixar a famĂ­lia no Acre e em Manaus (alĂ©m de TiĂŁo Natureza, ele tivera outros cinco filhos, com outra mulher), que iria se juntar ao exĂ©rcito guerrilheiro de Cuba para uma possĂ­vel guerra contra o capitalismo na AmĂ©rica Latina. CoincidĂȘncia ou nĂŁo, era o mesmo sonho de Guevara de uma revolução em escala mundial, razĂŁo pela qual, antes de ir para a BolĂ­via, ele se aventurara pela África em busca de um movimento revolucionĂĄrio local, mas decepcionou-se porque, segundo o prĂłprio, em suas memĂłrias, os africanos sĂł tinham interesses tribais e jamais fariam parte de um exĂ©rcito.

Na conversa com João Borborema, o visitante de imediato sacou da mochila um postal no qual ele reconhecera a assinatura e a caligrafia de seu irmão. No postal, Raimundo não informava quem era de fato o portador mas pedia também que o levasse para Bolívia e que se preciso fosse o defendesse com a própria vida.

No dia 10 de outubro de 1967, o corpo do argentino, Ernesto Che Guevara, executado no dia anterior, foi exibido à imprensa num casebre. Foto: Reprodução

O teatrólogo Lenine Alencar, filho de João Borborema, contou ao ContilNet que seu pai sempre constava esta história e disse que, naquele encontro, disse ao visitante que não via seu irmão fazia algum tempo e quis saber como ele estava. “Bien, mucho biem”, disse o visitante.

Borborema logo reconheceu Che Guevara porque ele nĂŁo estava disfarçado. “Tinha o rosto cabeludo de sempre, o semblante sĂ©rio, mas uma personalidade muito simpĂĄtica. Conversaram algumas amenidades enquanto preparavam-se para a viagem e descobriu que seu irmĂŁo naqueles dias estava vivendo bem acomodado em Cuba”, conta Daiel Klein a partir da entrevista com Borborema.

De acordo com o historiador, os dois saĂ­ram por volta de meia noite e rumaram para a cidade de PlĂĄcido de Castro, na fronteira com a BolĂ­via, percorrendo uma estrada de barro em um velho jipe. Chegaram ao destino passando de seis horas da manhĂŁ e seu JoĂŁo procurou um barqueiro que levasse seu ilustre companheiro dali em diante. O barqueiro atendia pelo nome de Airton e sabia como chegar no ponto em que Che Guevara queria ficar, seguindo para tanto os caminhos entre rios e seringais. A negociação entre os trĂȘs chamou a atenção de Borborema, pois o comunista argentino pagou o barqueiro em dĂłlar. ApĂłs guiar e encaminhar o ilustre visitante, seu JoĂŁo voltou para casa. orgulhava-se de ter ajudado um dos homens mais impressionantes da histĂłria, segundo sua concepção, e que fez isso em homenagem a tudo o que aprendeu com seu irmĂŁo, que tinha viajado por intermĂ©dio de Francisco JuliĂŁo para Cuba e preparava-se para ser guerrilheiro em toda a AmĂ©rica Latina.

Borborema, segundo seu filho Lenine, apĂłs isso, ainda chegou a ir para a BolĂ­via, a pĂ©, pela estrada, par juntar-se a Che Guevara na selva boliviana, mas, ao que tu indica, depois de dois ou trĂȘs meses, a saudada da famĂ­lia foi maior que as convicçÔes do velho guerrilheiro e ele voltou para casa.

Dia 8 de outubro de 1967, o exercito boliviano informava ao mundo que Che Guevara estava morto. O velho Borborema chorou, lembra seu filho. O corpo do guerrilheiro sĂł foi localizado 30 anos apĂłs sua morte, em 1997, e levado para Cuba.

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