‘NĂŁo saio mais de casa’, diz mulher que denunciou estupro por policial na sala para vĂ­timas de violĂȘncia de gĂȘnero em delegacia

Por G1 12/05/2022 Ă s 08:39

“NĂŁo saio mais de casa, sĂł durmo Ă  base de remĂ©dios. NĂŁo consigo comer direito, minha vida estĂĄ um caos.” O relato Ă© da vĂ­tima de uma mulher que diz ter sofrido estupro dentro de uma delegacia, na sala dedicada ao atendimento de mulheres vĂ­timas de violĂȘncia de gĂȘnero, em SidrolĂąndia (MS), por um investigador da PolĂ­cia Civil, Elbesom de Oliveira, que Ă© rĂ©u no caso.

A mulher de 28 anos, que não é de Mato Grosso do Sul, chegou ao estado por Ponta Porã (MS). Foi até à cidade de fronteira para viajar com um rapaz até São Paulo. No dia da viagem, a van em que eles estavam foi abordada em Sidrolùndia. O homem viajava com uma quantia de droga na mochila. Com o flagrante, o casal foi levado até a delegacia e, no mesmo dia à noite, ela conta ter sido estuprada pela primeira vez pelo investigador.

“Ele jĂĄ abusou de mim desde a primeira vez que cheguei. Cheguei de manhĂŁ, e Ă  noite era o plantĂŁo dele. No primeiro dia, eu jĂĄ fui estuprada. Na primeira noite, fui levada atĂ© a Sala LilĂĄs [espaço da unidade policial dedicado ao atendimento de mulheres vĂ­timas de violĂȘncia de gĂȘnero]. Toda vez que tinha plantĂŁo dele, ele fazia questĂŁo de ir na cela”, conta.

Com exclusividade, o g1 conversou com a mulher que falou sobre os abusos e traumas com os quais convive diariamente desde então. Por segurança, a identidade da vítima serå preservada. Assista a um trecho da entrevista acima.

CLIQUE AQUI para ver o vĂ­deo.

O policial estĂĄ preso na capital na 3ÂȘ DP. O g1 entrou em contato com a defesa de Elbesom, que nĂŁo se manifestou sobre o caso.

A vĂ­tima comentou que, no primeiro dia, para que saĂ­sse da cela, o investigador alegou que uma prima estava em ligação. “Quando saĂ­ da cela, ele começou a me ameaçar. Disse para eu nĂŁo falar para ninguĂ©m, que eu nĂŁo era daqui e que, se eu fizesse alguma coisa, ninguĂ©m ia sentir a minha falta”.

Após ser violentada, a vítima foi levada para a cela e conta que passou a noite em claro e aos prantos. Como o investigador apenas cobria plantÔes em Sidrolùndia, a ida à delegacia era feita de dois em dois dias.

“Eu me senti a pessoa mais desprotegida do mundo. A pessoa jĂĄ estĂĄ em um canto onde tem que ser protegido, e isso acontece com vocĂȘ?”

A vítima relata que assim que Elbesom chegava na delegacia, o sentimento de medo e desespero a tomava conta. Conforme relatado pela mulher, o investigador ia até a cela onde ela estava, a chamava na grade e começava a aliså-la e a ameaçava constantemente.

“Todo plantĂŁo que ele tinha, ele ia na cela, ficava me abusando e me tocando. Depois que chegou uma menina na cela, ele nĂŁo pode fazer isso ali. Foi entĂŁo que ele me tirou da cela novamente, dizendo que um advogado estava me chamando.”

O crime foi denunciado por outros presos, que pediram para falar com uma delegada após saberem da série de abusos sexuais. Para ela, os detentos disseram ter escutado a vítima chorando na noite anterior, ocasião em que ela revelou ter sido abusada sexualmente pelo investigador.

Elbesom foi denunciado pelo MinistĂ©rio PĂșblico de Mato Grosso do Sul (MPMS) pelos crimes de estupro, importunação sexual e violĂȘncia psicolĂłgica contra a vĂ­tima. A denĂșncia foi recebida pela Justiça do MPMS, que o tornou rĂ©u no caso.

Traumas

ApĂłs o crime sexual, a mulher teve a prisĂŁo por trĂĄfico de drogas revogada e voltou para cidade onde mora com a mĂŁe e filhos. Na Ă©poca, a decisĂŁo foi tomada pela Justiça de SidrolĂąndia para “resguardar a integridade fĂ­sica e psicolĂłgica” da vĂ­tima.

Durante todo o período quem permaneceu em Mato Grosso do Sul, a vítima relata ter perdido cerca de 6kg. Além da perda do peso, os traumas são sentidos na pele: ela só consegue dormir após tomar uma série de remédios pesados e acompanhada de alguém da família.

“NĂŁo saio mais de casa, sĂł durmo Ă  base de remĂ©dios. NĂŁo estou comendo direito, minha vida estĂĄ um caos. Quando eu fecho os olhos, nĂŁo consigo esquecer o que passei. Ele acabou com minha vida. Eu tenho vergonha e medo de sair de casa e pensar sobre o que as pessoas vĂŁo pensar sobre mim.”

Os abusos, sexual e psicolĂłgico, provocaram inĂșmeras sequelas na vĂ­tima, como ela relata. O medo se tornou inconsciente.

“Me causa muito medo. Eu tenho medo do que ele possa fazer comigo. Ele falava a todo instante que se eu abrisse minha boca, ele ia me matar. Ele disse que ia atĂ© no inferno, onde eu estivesse. O que passei nĂŁo foi brincadeira. SĂł eu e Deus sabe o que passei.”

Sem apoio psicolĂłgico

A vĂ­tima afirma nĂŁo ter passado por nenhum atendimento psicolĂłgico. O g1 procurou a PolĂ­cia Civil de Mato Grosso do Sul para saber se o serviço foi oferecido Ă  vĂ­tima, mas atĂ© a Ășltima atualização desta reportagem, nenhuma resposta foi enviada.

Sem ajuda profissional, a mulher se ampara no ombro de familiares e dos filhos. “Minha famĂ­lia estĂĄ me apoiando. Estou tentando me reerguer, Ă© muito complicado. NĂŁo tem como a cabeça da pessoa ficar boa. Parece que minha cabeça nĂŁo funciona mais.”

“Estou tentando me reestruturar agora. Eu nĂŁo comia, nĂŁo bebia, sĂł ficava com medo, o tempo todo. Ficava com medo dele fazer algum de mal comigo. No dia que os meninos denunciaram, eu passei a noite em claro, sĂł chorando e pedindo a Deus por misericĂłrdia. Eu nĂŁo sabia o que ia acontecer.”

“Se nĂŁo fosse minha mĂŁe e meus irmĂŁos, nĂŁo sei o que seria de mim. SĂł eles para me ajudarem nesta hora. NĂŁo consigo dormir sĂł, se eu ficar muito tempo sozinha, fico pensando que vai ter alguĂ©m querendo fazer alguma coisa comigo. SĂł de eu estar perto da minha mĂŁe e filhos jĂĄ Ă© tudo. NĂŁo consigo ficar mais sĂł.”

Entenda o caso

Um investigador da PolĂ­cia Civil foi preso em flagrante, do dia 12 de abril, suspeito de estuprar uma detenta, de 28 anos, na delegacia de SidrolĂąndia (MS). Conforme a denĂșncia, o crime veio Ă  tona apĂłs o policial tentar “comprar” o silĂȘncio de outros presos.

Segundo a denĂșncia dos outros detentos, um dia antes da prisĂŁo, o policial retirou a vĂ­tima da cela em que estava e a levou para a Sala LilĂĄs, espaço da unidade policial dedicado ao atendimento de mulheres vĂ­timas de violĂȘncia de gĂȘnero. LĂĄ, segundo os relatos, a detenta foi estuprada.

Conforme o boletim de ocorrĂȘncia, os detentos, que haviam tido o silĂȘncio “comprado” com um celular, solicitaram a presença de uma delegada da cidade. O grupo afirmava estar com um celular, o que chegou a ser questionado por policiais, mas sĂł foi esclarecido apĂłs a chegada da delegada. Para ela, os detentos disseram ter escutado a vĂ­tima chorando na noite anterior, ocasiĂŁo em que ela revelou ter sido abusada sexualmente pelo investigador.

Após ouvirem o relato dos detentos, a delegada realizou atendimento especializado com a vítima. A detenta relatou que o suspeito foi até a cela dizendo que o advogado dela estava na delegacia e desejava conversar. Foi neste momento que, conforme a presa, ela foi retirada da carceragem.

Com os depoimentos, a delegada buscou imagens das cùmeras de segurança da delegacia, que confirmaram que o servidor havia retirado a mulher da cela. Uma detenta que dividia cela com a vítima também confirmou que a companheira foi retirada pelo investigador.

A denĂșncia foi colhida pela juĂ­za da Vara Criminal, em SidrolĂąndia, Silvia Eliane Tedardi da Silva, no fim de abril deste ano. Nesta terça-feira o juiz da 7ÂȘ Vara Criminal, em Campo Grande, Marcelo Ivo de Oliveira, determinou que defesa do rĂ©u se posicione.

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