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26 junho 2022 1:16 am
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Bruno Pereira e Dom Phillips: veja a cronologia do caso

Indigenista e jornalista desapareceram em 5 de junho, na região da terra indígena Vale do Javari. PF diz que suspeito preso confessou envolvimento no assassinato e apontou localização dos corpos

POR G1

Polícia Federal informou nesta quarta-feira (15) que o pescador Amarildo da Costa Oliveira, conhecido como Pelado, afirmou que o indigenista Bruno Pereira e o jornalista inglês Dom Phillips, desaparecidos desde o dia 5 na região amazônica do Vale do Javari, foram assassinados. Pelado está preso e, segundo a PF, confirmou envolvimento no crime. O irmão dele, Oseney da Costa Oliveira, de apelido Dos Santos, também está preso.

O superintendente da PF no Amazonas, Eduardo Alexandre Fontes, afirmou que Pelado apontou a localização dos corpos, que teriam sido esquartejados e incendiados. As equipes de buscas fizeram escavações e, segundo Fontes, encontraram “remanescentes humanos”.

O ponto é de difícil acesso e fica a cerca de 3 km do local onde itens pessoais do indigenista e do jornalista haviam sido encontrados dias antes. O material será enviado à perícia para identificação.

As investigações continuam. Ainda não está claro porque Bruno e Dom foram assassinados. Eles faziam uma expedição de barco pelo Vale do Javari, terra indígena ameaçada por garimpeiros, pescadores ilegais, madeireiros e traficantes de drogas.

Veja, abaixo, uma cronologia do caso.

1º de junho

O indigenista brasileiro Bruno Araújo Pereira e o jornalista inglês Dom Phillips se encontram na cidade de Atalaia do Norte (AM), na região da terra indígena Vale do Javari, perto da fronteira com o Peru, onde são comuns invasões de terras feitas por madeireiros e garimpeiros.

O primeiro chegou ao local algumas semanas antes do encontro com Dom. Seu objetivo era fazer reuniões em cinco aldeias sobre a proteção do território. O inglês pretendia fazer entrevistas com lideranças indígenas e ribeirinhos para um novo livro, chamado “Como Salvar a Amazônia?”.

Os dois, então, passam a viajar juntos de barco.

3 de junho

Bruno e Dom vão a um posto de vigilância indígena próximo a uma localidade chamada Lago do Jaburu, o ponto mais distante em que chegaram na viagem. No local, o jornalista tinha previsão de fazer algumas entrevistas com os indígenas.

5 de junho

Com a expedição praticamente concluída, Bruno e Dom começam a subir o Rio Itaquaí, no caminho de volta para Atalaia do Norte.

Os dois fizeram uma parada na comunidade ribeirinha São Rafael, para visitar um líder comunitário conhecido como Churrasco. Bruno já tinha marcado um encontro com ele para falar sobre a vigilância que ribeirinhos e indígenas estavam fazendo na região contra invasores.

Eles chegaram ao local por volta das 6h, mas o líder comunitário não estava. Bruno e Dom conversaram com a mulher dele. Depois, saíram de barco com destino a Atalaia — foi a última vez que foram vistos.

A viagem de cerca de 72 quilômetros pelo Rio Itaquaí deveria durar apenas duas horas, mas eles nunca chegaram ao destino.

Naquela tarde, duas equipes da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) fizeram duas expedições de buscas, mas nada foi encontrado.

Mapa mostra onde jornalista e indigenista desapareceram na Amazônia — Foto: Arte/g1
Mapa mostra onde jornalista e indigenista desapareceram na Amazônia — Foto: Arte/g1

6 de junho

Buscas por Dom Phillips e Bruno Pereira, na Amazônia, na segunda-feira (13). — Foto: REUTERS/Bruno Kelly
Buscas por Dom Phillips e Bruno Pereira, na Amazônia, na segunda-feira (13). — Foto: REUTERS/Bruno Kelly

O desaparecimento é divulgado pela União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) e pelo Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato (OPI).

Bruno havia enviado um áudio informando que voltaria neste dia à cidade de Atalaia do Norte. A gravação foi obtida com exclusividade pelo podcast “O Assunto” (ouça abaixo, partir do trecho 0’59”).

“Eu tô entrando no mato amanhã. Daqui a uns 15 dias ou menos até eu tô por Atalaia do Norte. E chego dia 6”, disse o indigenista.

Polícia Federal e o Ministério Público Federal informam que estão investigando o caso. A Marinha e o Exército colocam equipes para ajudar nas buscas.

7 de junho

A força-tarefa retoma as buscas pelos desaparecidos no rio. O ministro da Justiça, Anderson Torres, usa uma rede social para dizer que a Funai, a Polícia Federal, as Forças Armadas e a Força Nacional estão envolvidas nos esforços.

A Marinha informa que colocou um helicóptero, duas embarcações e uma motoaquática para percorrerem o Vale do Javari.

Além disso, o governo do Amazonas envia policiais e uma equipe de mergulhadores ao local.

Neste mesmo dia, Eliésio Marubo, assessor jurídico da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), diz que autoridades ignoraram informações sobre suspeitos que ameaçaram Bruno Pereira recentemente. Segundo Eliésio, um dos homens perguntou quem era o Bruno e disse que queria conhecê-lo para saber se ele era realmente bom de tiro.

8 de junho

A polícia prende o primeiro suspeito de envolvimento no desaparecimento de Bruno e Dom. Amarildo da Costa de Oliveira, conhecido como Pelado, teria feito ameaças a indígenas que participavam das buscas. Ele nega as acusações.

Desaparecimento de jornalista e indigenista no AM: imagem mostra Amarildo preso — Foto: Reprodução
Desaparecimento de jornalista e indigenista no AM: imagem mostra Amarildo preso — Foto: Reprodução

No mesmo dia, o presidente da Funai, Marcelo Xavier, em uma entrevista à Voz do Brasil, afirma que Bruno e Dom não pediram autorização para realizar a viagem pela terra indígena.

“A Funai, de forma nenhuma, emitiu nenhum tipo de autorização para ingresso nessa área indígena. É muito complicado quando duas pessoas, apenas, resolvem entrar na área indígena sem nenhuma comunicação formal aos órgãos de segurança e nem mesmo à Funai”, diz Xavier.

9 de junho

Vestígios de sangue são encontrados na lancha usada por Amarildo, o suspeito preso. A polícia ainda não sabia se era sangue humano ou não.

Além disso, a TV Globo tem acesso a documentos que mostram que a Funai foi comunicada e autorizou a entrada de Bruno Pereira no Vale do Javari entre os dias 17 e 30 de maio. Ele entrou, sem Dom Phillips, no dia 21. A equipe incluía um representante da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) e o presidente de uma associação de moradores da região.

10 de junho

A mulher de Amarildo, cujo primeiro nome é Josenete, presta depoimento em companhia de um advogado. Ela preferiu não falar sobre a prisão do marido nem sobre o caso dos desaparecidos.

Parentes de Amarildo alegam que ele é inocente e que foi torturado por policiais. A Justiça determina que o relato de agressão seja apurado. A Polícia Federal não se manifesta sobre a acusação.

12 de junho

Equipes de buscas encontram um cartão de saúde com nome de Bruno Pereira e outros itens dele e de Dom Phillips. Durante a tarde, os bombeiros disseram ter recuperado uma mochila, um notebook e um par de sandálias na área onde são feitas as buscas pelo jornalista inglês e pelo indigenista no interior do Amazonas.

Nota da PF divulgada neste domingo (12) — Foto: PF
Nota da PF divulgada neste domingo (12) — Foto: PF

Segundo a PF, foram encontrados:

  • um cartão de saúde em nome de Bruno Pereira;
  • uma calça preta de Bruno;
  • um chinelo preto de Bruno;
  • um par de botas de Bruno;
  • um par de botas de Dom Phillips;
  • uma mochila de Dom contendo roupas pessoais.

O material foi encontrado por volta das 16h (horário local) e encaminhado para perícia em Manaus.

De acordo com o coordenador da equipe dos Bombeiros em Atalaia do Norte, Barbosa Amorim, o material estava próximo à casa de Amarildo Costa de Oliveira, suspeito de envolvimento no crime preso temporariamente. O local é uma área de igapó, e os pertences estavam amarrados em uma árvore. Igapó é uma região da Floresta Amazônica alagada pelos rios e com inúmeras árvores.

13 de junho

Alessandra Sampaio, mulher do jornalista Dom Phillips, diz ao repórter André Trigueiro que os corpos dos desaparecidos foram encontrados.

A família foi informada sobre a localização pela Embaixada Brasileira no Reino Unido. Mas a Polícia Federal e a Associação indígena que atua na região não confirmaram a informação.

14 de junho

A Embaixada do Brasil no Reino Unido admite que errou ao dizer que os corpos tinham sido encontrados e envia um pedido formal de desculpas à família de Dom Phillips por ter fornecido uma informação falsa.

segundo suspeito, Oseney da Costa de Oliveira, de 41 anos, conhecido como “Dos Santos”, é preso temporariamente. Ele é irmão de Amarildo da Costa de Oliveira, que já estava preso no município de Atalaia do Norte.

Até este dia, nove pessoas tinham sido ouvidas pela polícia.

Oseney da Costa de Oliveira, conhecido como 'Dos Santos', foi levado para área de buscas. — Foto: Rôney Elias/Rede Amazônica
Oseney da Costa de Oliveira, conhecido como ‘Dos Santos’, foi levado para área de buscas. — Foto: Rôney Elias/Rede Amazônica

15 de junho

Em uma mensagem de áudio gravada em maio e obtida com exclusividade pela TV Globo e pela Rede Amazônica, o indigenista Bruno Pereira citou uma reunião que ocorreria na Comunidade São Rafael. O encontro tinha o objetivo de barrar o avanço da pesca ilegal de pirarucu na terra indígena.

No áudio, Bruno denunciou pescadores do Vale do Javari que estavam atirando contra equipes de fiscalização na região.

“São esses caras que estão atirando na equipe, esses caras que atiraram na base. Não só do São Rafael, [do] São Gabriel, os carinhas de Benjamin [Constant] e outros de Atalaia [do Norte]”.

Polícia Federal leva Pelado ao local onde teriam desaparecido Bruno e Dom. A região é a mesma em que objetos da dupla foram localizados dias antes.

Segundo a PF, Amarildo afirmou que Bruno e Dom foram assassinados e apontou a localização dos corpos, que teriam sido esquartejados, queimados e enterrados. Durante escavações, equipes encontraram “remanescentes humanos”, de acordo com Eduardo Alexandre Fontes, chefe da PF no Amazonas. O material recolhido será enviado à perícia para identificação.

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