Enquanto o juiz Alesson JosĂ© Santos Braz ouvia o depoimento da testemunha LavĂnia Costa, ex-namorada do polĂcia federal Victor Campelo – acusado de matar o jovem Rafael Frota, na boa Sete Club, em Rio Branco -, o jĂșri foi surpreendido pela notĂcia de que uma testemunha chave, vĂtima no processo, Nelcioney PatrĂcio, que nĂŁo havia sido intimado para testemunhar, havia aparecido para ser ouvido durante o julgamento.Â
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Nelcioney foi ferido por um tiro disparado pelo PF na boate Set Club, em julho de 2016 – no mesmo dia em que Rafael morreu.Â
As investigaçÔes apontam que ele e um grupo de amigos haviam se envolvido em uma briga e agredido o policial federal, o que teria ocasionado o disparo. O testemunho dele foi arrolado pelo procurador do MinistĂ©rio PĂșblico do Acre (MPAC), TeotĂŽnio Soares.Â
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Entretanto, segundo o artigo 440 do CĂłdigo de Processo Penal (CPP), as testemunhas precisam seguir uma ordem para serem ouvidas. De acordo com o CPP, as vĂtimas devem ser ouvidas sempre primeiro.Â
Como no processo julgado nesta terça-feira (24), Nelcioney Ă© vĂtima de tentativa de homicĂdio, por parte do policial federal, deveria ter sido a primeira testemunha a ser ouvida.Â
A defesa de Victor Campelo reagiu e pediu o indeferimento do pedido do promotor, afirmando que Nelcioney jĂĄ havia sido ouvido em outros depoimentos e, caso a acusação achasse importante ouvi-lo, bastava reproduzir o testemunho que estĂĄ nos autos do processo.Â
PorĂ©m, o juiz Alesson acatou o pedido do MP, afirmando que o depoimento de Nelcioney nĂŁo seria uma testemunha surpresa. O magistrado concluiu dizendo que a vĂtima nĂŁo foi intimada, veio atĂ© o jĂșri de forma deliberada e que Ă© importante ouvir a vĂtima em todos os casos.Â
Durante o testemunho, Nelcioney informou que soube do julgamento atravĂ©s das redes sociais e por isso resolveu ir atĂ© o jĂșri.
O que disse no testemunho
Nelcioney PatrĂcio declarou em testemunho que no dia do crime, estava de costas a uns trĂȘs metros, afastado da mesa junto com seu grupo de amigos. Logo depois, ele viu uma menina olhando âde cara feiaâ e quando percebeu, o policial federal jĂĄ estava indo confronta-lo. âFoi muito rĂĄpido, eu nĂŁo estava sĂłbrio quando me agarrei com ele, ele começou a atirar, apontou a arma para mim segurei a mĂŁo dele para cima e o que aconteceu comigo foi um milagre de nĂŁo estar mortoâ, descreve.
Ele ainda relata que quando começou os tiros, dois atingiram ele e outro em Rafael Frota. âA bala nĂŁo veio de baixo para cima ela entrou da direita para esquerda jĂĄ que eu estava agarrado com eleâ, descreve.
Nelcioney disse ainda que ficou com sequelas na perna após os tiros. Segundo ele, até hoje, sente incÎmodos e que duas balas ainda estão alojadas.
Questionado pelo promotor de Justiça, TeotĂŽnio Soares, Nelcioney disse que nĂŁo estava bĂȘbado durante a briga, porĂ©m, estava consumindo bebida alcoĂłlica na noite. Ele disse ainda que em nenhum momento se agarrou com o Victor no chĂŁo, como relataram outras testemunhas.
Ainda durante a oitiva, Nelcioney disse que sĂł se deu conta que havia sido atingido quando chegou no posto de gasolina, onde a boate era anexada. âSaĂ da boate andando e por eu ter caĂdo e batido a cabeça, fiquei aĂ©reo, sem noçãoâ, relata.
Ao final do testemunho, o juiz Alesson Braz declarou que comparando com depoimentos anteriores, Nelcioney havia se contradito em diversos momentos. âNĂŁo o sentencio por falso testemunho porque vocĂȘ Ă© vĂtimaâ, disse o magistrado.
ApĂłs a palavra do juiz, Nelcioney foi liberado.

