20 de abril de 2024

Gravidez silenciosa: ‘Bebê nasceu no banheiro sem que eu soubesse que seria mãe’

Louise Diniz, atualmente com 22 anos, sentiu uma forte dor enquanto tomava banho

Louise Diniz pensava em ter filhos, mas não em 2023. Aos 21 anos, ela estava focada na carreira e nos estudos na cidade em que mora, Betim (MG). Estudante de Gestão de Recursos Humanos, tudo fluía bem na vida profissional, até que, de repente, ela viu a vida mudar em questão de minutos. A Marie Claire, ela conta detalhes de como descobriu que seria mãe apenas na hora do parto!

“Eu queria ser mãe, mas estava atrás de estabilidade primeiro. Morava com a minha irmã, namorava, estava terminando a faculdade de Gestão de Recursos Humanos e pensava somente na minha vida profissional. Nessa mesma época, eu fazia um tratamento para depressão e estava bem na época de troca de remédios. Essas mudanças me fizeram engordar alguns quilinhos, mas nada considerável.

Louise Diniz, atualmente com 22 anos, teve uma gravidez silenciosa — Foto: Reprodução / Instagram

Nessa fase, estava vivendo a minha vida normalmente. Eu saía bastante com amigos, me divertia, tomava normalmente o meu anticoncepcional. Teve um dia que senti que estava grávida, por algum motivo que não sei explicar. Comprei o teste, e deu negativo. Cheguei a fazer dois para confirmar, então tirei isso da minha cabeça.

Pouco tempo depois, sofri um acidente de moto com o meu namorado. No hospital, fizeram alguns exames, entre eles o de sangue, e foi pedido o teste de gravidez. Novamente, negativo. No total, fiz cerca de quatro exames de gravidez, todos negativos.

Louise pouco antes da chegada do filho, Ravi — Foto: Reprodução / Instagram

Louise pouco antes da chegada do filho, Ravi — Foto: Reprodução / Instagram

Certo dia de maio de 2023, acordei com cólica, o que sempre foi normal. A minha menstruação também não é regulada, devido ao meu diagnóstico de Ovário Policístico, algo que cuido desde a primeira vez que menstruei. Até hoje faço acompanhamento com o ginecologista. A única coisa diferente que notei foi que, junto da cólica, eu estava com um sangramento de escape, que durou por três dias seguidos. Por conta disso, cheguei a pensar em ir ao médico, mas não fui.

Alguns dias depois desse episódio, estava na minha rotina matinal de sempre e decidi tomar um banho quente. Foi aí que senti uma cólica, de fato, diferente. Essa era mais forte do que qualquer outra. Em seguida, a minha barriga fez um movimento estranho, de expulsão, junto de uma pressão. Começou a fazer um líquido da minha perna e, quando coloquei a mão, senti algo.

Na hora, me joguei no chão e terminei de fazer força. Eu estava sozinha em casa e o bebê nasceu no banheiro sem que eu soubesse que seria mãe. A minha irmã estava no trabalho e o meu namorado também. Como ela é enfermeira, liguei e expliquei o que tinha acontecido. Ela não acreditou no que eu estava falando, mas percebendo o meu desespero, chamou o SAMU, que nunca chegou.

O Ravi nasceu chorando muito fraquinho e um pouco arroxeado. Ela me ensinou a como cortar certo o cordão umbilical, e foi o que fiz. Em seguida, enrolei ele em uma manta, me aprontei e peguei um Uber até a maternidade. A minha sorte é que era bem perto da minha casa e não demorei a chegar.

Lá, expliquei a situação e os médicos foram cuidar do Ravi. Quando vi ele indo para a UTI, tive uma queda de pressão, até por tudo o que tinha passado, e eu precisei ser socorrida. Os médicos ficaram impressionados com a história. Não é que apenas eu não notava que estava grávida. Todas as pessoas ao meu redor não imaginavam. A minha barriga não cresceu e não tive qualquer sintoma. Além disso, todos os testes deram negativos.

Não sei nem o que senti. Na hora, levei toda a situação no automático, talvez por um instinto de sobrevivência. Só queria que ele ficasse bem e fiz o possível para isso. Ao mesmo tempo, estava em choque, não sabia como agir. Só sei que a minha ficha caiu apenas quando dei entrada na maternidade e comecei a contar para parentes e amigos.

Primeiro, falei com o meu namorado, que demorou a acreditar. Imagina só, ele estava comigo todos os dias e, assim como eu, não havia notado nenhuma mudança. Depois, falei com os meus pais e os pais dele. Todos reagiram bem com a notícia e tive uma rede de apoio muito grande. O meu pai foi o único que não entendeu direito, ele achava que eu tinha escondido dele propositalmente, mas deu tudo certo.

O meu filho ficou 41 dias na UTI, pois nasceu prematuro, de 33 semanas e pouco mais de 2kg. Ele estava bem, saudável, mas ficou em observação. Para conseguir dar conta, tranquei a faculdade e me dediquei apenas ao Ravi. Não estava nos planos, mas ele se tornou o meu mundo. O meu namorado teve um processo maior de adaptação com a paternidade, foi muito repentino, mas ele me ajuda demais.

Ravi ficou 41 dias na UTI antes de ter alta médica — Foto: Arquivo Pessoal

Ravi ficou 41 dias na UTI antes de ter alta médica — Foto: Arquivo Pessoal

Desde que tudo aconteceu, médicos e amigos perguntavam se eu não gostaria de contar a minha história das redes sociais, mas não me sentia preparada. Foi uma adaptação para mim também. Tive que aprender tudo de repente, não tive tempo. Além disso, eu não tinha leite e precisei de muita ajuda do banco de leite da maternidade em que estava para alimentar o Ravi, que hoje tem 8 meses. O meu corpo demorou a reagir.

Até que decidi contar o meu relato no TikTok, e viralizou em pouco tempo. Ganhei seguidores e diversos comentários de pessoas curiosas. Algumas me julgaram muito, não acreditaram e foram maldosas. Por esse motivo, deixei a internet de lado por alguns meses e fui cuidar da minha saúde mental, mas já voltei. Gravidez silenciosa é ainda um tabu, nem alguns médicos reconhecem que isso pode acontecer.

Ainda hoje sinto muita culpa, não de ter o Ravi, mas da forma como foi. Não consegui me preparar para a chegada dele de maneira apropriada. A maneira que encontrei de compensar é dando toda a atenção do mundo agora, sendo a melhor mãe que posso. Mesmo ansiosa para voltar a trabalhar, a minha prioridade é ele e sempre foi, desde o primeiro segundo que o segurei nas mãos.

O meu maior sonho é ser uma referência como pessoa para o meu filho. Quero ser uma mãe companheira. Não quero que ele tenha medo de conversar comigo. Também pretendo organizar minha casa e concluir a minha faculdade. Vou realizar os meus sonhos aos poucos, um de cada vez.”

O que é uma gravidez silenciosa?

“Gravidez silenciosa é uma gestação em que a mulher não percebe e acaba sabendo apenas perto do parto ou, até mesmo, na hora do parto. É muito raro, embora nunca tenha a ausência completa de sintomas. O problema é que muitos deles podem ser confundidos pela mulher como cansaço e TPM, por exemplo. Em alguns casos, a paciente apresenta pequenos sangramentos, mas que são confundidos com menstruação”, explica a Dra. Roberta Simonaggio, ginecologista e obstetra, formada pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

Os maiores riscos da condição é a ausência do acompanhamento e do pré-natal: “Como a mulher não trata daquela gestação, já que não tem conhecimento, existe o risco de seguir tomando bebidas alcoólicas ou fazendo o uso de alguma medicação imprópria. Isso pode levar a problemas para a mãe e o bebê”, informa Simonaggio.

De acordo com a Dra. Marina Levy, formada pela Universidade Federal Fluminense e especializada em gestação de alto risco, a gravidez silenciosa é mais comum em mulheres que têm ciclos irregulares e tomam anticoncepcional contínuo. “Os fatores que ajudam a mascarar uma gestação estão principalmente associados a quadros em que a menstruação não ocorre de forma regular. Pode ser por exercícios físicos intensos, síndrome de ovário policístico ou traumas.”

É importante ressaltar que gravidez psicológica e gravidez silenciosa não são similares. “Os termos “gravidez silenciosa” e “gravidez psicológica” podem ter interpretações variadas. Se “gravidez silenciosa” se refere a uma gestação não percebida, pode haver sim uma relação psicológica à questões emocionais. A gravidez psicológica também tem questões emocionais envolvidas, mas de forma oposta. Psicologicamente a expectativa é tão grande que se acredita e até desenvolvem-se sintomas físicos em decorrência da crença emocional de forma sugestionada através da psicossomática”, explica Larissa Fonseca, psicóloga e terapeuta clínica.

Quando a mulher se torna mãe nessas condições, o acolhimento psicológico é necessário. “Isso é essencial para ajudá-la a lidar com emoções intensas, tomar decisões importantes, estabelecer vínculos com o bebê, adaptar-se à maternidade abrupta e prevenir problemas de saúde mental. Isso promove seu bem-estar emocional e mental. Quando descobrimos a gestação, por mais que imprevisível do que vai acontecer há uma expectativa, imaginação e até o preparo emocional frente a possíveis mudanças na vida.”

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